Yoga não combina com Alta Performance – Podcast #30

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Podcast de Yoga | 6 jun 2021 | Daniel De Nardi


Yoga não combina com Alta Performance

Um método de Yoga que busque alta performance pode ser coerente? Eu acho que não, a explicação está nesse podcast.

 

 

Links

 

o cérebro boicotando o EU – podcast #03

O Oriente encontra o Ocidente, o início do Yoga por aqui – Podcast #13

 

 

 

 

 

 

 

Transcrição do Podcast

Yoga não Combina com Alta Performance – Podcast #30

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi e está começando o 30º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”, um podcast semanal a respeito do yoga e dos assuntos do nosso dia-a-dia.

Há muitos anos atrás eu vi uma entrevista do Teco Padaratz (um dos primeiros surfistas brasileiros a levar o surf como uma profissão séria, ele morou fora do Brasil para estudar inglês, porque seria importante pra ele dentro das competições, ele começou a elaborar um treinamento técnico para desenvolver os fundamentos importantes para ele. O Teco serviu como referência para as gerações seguintes, e a geração atual do Medina, Toledo e Mineirinho colhem muito do que o Teco, o Fábio Gouveia e dos primeiros surfistas que começaram a levar o surf a sério, construíram) em que falava que a pratica do yoga o fez refletir sobre o seu momento de sair das competições.

Na época, eu já praticava yoga e eu pensava nele como uma instrumento de alta performance, de gerar campeões e fiquei um pouco indignado com aquilo, pensei que o yoga tivesse desestimulado ele a ser um vencedor, mas efetivamente a minha visão sobre o yoga estava errada e desajustada. É fato que o yoga pode produzir efeitos no corpo, como alongamento, flexibilidade, o ganho de consciência corporal. É fato que quando você aprende a focar e fazer as suas tarefas com mais precisão e concentrado, seja escrever um texto ou jogar uma bola na parede. Agora a proposta do yoga a te fazer campeão não é condizente com o que o yoga busca, e você passa a entender isso quando entende o conceito da Mandukya Upanishad dos três “eu’s”. Já gravei um episódio falando sobre isso, inclusive é o episódio 3, inclusive é um dos mais importantes do podcast, justamente porque fala que não interessa ser o campeão ou o melhor. A Mandukya fala dos três eu’s (o do corpo, da mente e do coração) e o ajustamento deles leva a um quarto estado, o corpo está relacionado as nossas questões física, a mente o que leva a atenção para o físico ou deixa a voz do coração vir à tona. Então a mente, na verdade escolhe se é mais importante naquele momento destinar a atenção para o corpo ou ouvir a voz interna. Ela tem esse poder e pode, inclusive, excluir a voz do coração dando só importância ao físico, o trabalho do yoga é trazer o ajustamento, não viver uma vida só de contemplação, mas fazer o ajustamento do que é mais importante naquele momento, o que essa voz interna está falando e expressando o que é melhor.

A mente está relacionada a escassez, o nosso cérebro está sempre trabalha pensando em acumular e gatar o mínimo possível de energia, porque o seu princípio é manter a sobrevivência do homem, isso é importante, sem isso não sobreviveríamos. O ponto que o yoga traz é que não é apenas o corpo e a mente, existe algo maior que também deve ser levado em conta no dia a dia. Esta outra forma de manifestação é a voz interna que vem do nosso coração. A pratica do yoga, o intuito de aquietar a mente quer trazer mais essa voz tornando mais clara.

Como a mente sempre trabalha com a escassez ela funciona no ritmo de competição, porque a competição tem a ver com ganhos e perdas, com acúmulos de ganhos e a mente vai obtendo satisfação. Não há nada contra a competição, o ser humano só avançou em sociedade, na tecnologia porque houve competição, a questão é que ela – a competição – não é a realização de todos, um tipo de competição pode funcionar para uns e não para outros. E quem vai efetivamente mostrar isso é a voz do coração que não está ligada ao fato de ganhar e perder, porque ela nos mostra quem somos, o que realmente temos que fazer independentemente das circunstâncias. Quando se expressa o que realmente é importante para si não se pensa em ganhar ou perder, há a manifestação do eu que não se importa diretamente com as consequências e resultados, mas com a tarefa em si, independente. Não existe dualidade, apenas o que se é.

A competição lida com perdas, decepções, de “um ganhar para o outro perder”, a voz do eu não trabalha com isso e não há a necessidade de ser o melhor para se realizar porque, como eu falei, esta voz não trabalha com dualidades, ela apenas manifesta o que devemos fazer. Esta visão de alto performance sempre vai trabalhar no sentido de estimular a competição, o ganho. No caso do Teco ele conseguiu ver isso, ele conseguiu parar e refletir, porque quando se está no frenesi da mente a visão sempre será dual, mas internamente está algo mais tranquilo dizendo apenas o que de fato se deve fazer, o Teco observou que o ponto dele era fazer, a partir daquele momento, um outro tipo de trabalho, ainda relacionado ao surf (ele criou campeonatos que hoje são bem reconhecidos), ele deu outros passos. E por que eu falo isso sobre a alto performance e o yoga? Porque a alto performance sempre irá trabalhar com ganhos, não que eu seja contra isso, se vermos como exemplo o técnico Bernardinho, certamente os seus treinos irão desenvolver a alto performance, o ponto é que a proposta do yoga de trazer o Dharma, e o que de fato somos, não condiz com a proposta de dualidade no meio competitivo. Um yoga voltado para a alto performance não deixaria o Teco sair, porque o objetivo seria justamente ganhar e competir. Já na Mandukya Upanishad aquilo tinha total sentido porque a meditação, o relaxamento fez com que ele tivesse acesso ao que de fato era importante para ele e mudou o seu rumo.

Não significa que ele tenha perdido, como achei na época em que tinha uma visão do certo e do errado, hoje a minha visão é que o yoga contribui para a gente manifestar o nosso Dharma, o nosso eu, não está relacionado com ganhar ou perder. Hoje, por exemplo, o Teco faz um lindo trabalho. E se, por exemplo, você quiser ser um poeta de rua? Nunca será considerado o “melhor”, nunca será rico, mas vai ser o que a voz interna está dizendo para você ser, poeta de rua, daqueles que ficam no Centro recitando e vendendo a sua poesia. Isto não está errado na visão da Mandukya Upanishad, mas está errado na visão de um yoga que tem a alta performance como busca. Não há como se medir a alta performance sendo poeta, não há métrica.

Por isso que eu acho que a proposta do yoga que busca alta performance, campeões incoerente com a proposta verdadeira do yoga e não é só a Mandukya que traz esse conceito da voz do coração, mas diversos outros textos, assim você tem a proposta verdadeira do yoga, aquietar a mente e ter acesso a voz do coração que não está relacionada a um julgamento.

Para finalizar uma música clássica indiana, já que estamos ouvindo muita ocidental, tocada pela Anu Shankar. O sobrenome dela vem do Ravi Shankar, que foi um musico muito famoso na Índia e, depois de Gandhi, é o indiano mais conhecido no mundo. Ele fez um trabalho que atraiu os olhares dos músicos ocidentais, isso eu conto no episódio 13 em que falo de como o yoga se fortaleceu no ocidente. O yoga passou a ser difundido no ocidente devido a um violinista que quis tocar com Ravi Shankar, chegando na Índia ele estava com muitas dores nas costas e cansado, sugeriram que ele fizesse aulas com o Ayengar, ele fez e gostou muito então o levou para a Europa e para os EUA. O Ayengar foi o primeiro a trazer escolas, métodos e começar a formar uma comunidade de yoga fora da Índia. Então devemos boa parte disto aos personagens muitas vezes desconhecidos, Ravi Shankar e Yehudi Menuhin são alguns deles.

Anu Shankar é filha de Ravi Shankar, e ela toca pela arte, percebe-se que não nenhum interesse em competir com o pai, toca simplesmente porque se sente melhor fazendo. Para quem não sabe, Anu Shankar é irmã de Norah Jones que faz uma música ocidental, mas também é filha de Ravi Shankar. Podemos dizer, então, que Shankar é iluminado não apenas na música e divulgação dela, mas por ter filhas talentosas, reconhecidas mundialmente. Indico as músicas dela para que a conheçam, quem pratica yoga pode usar nas aulas práticas porque é um tipo de música bem gostosa e ela toca de uma maneira magnifica. Vou deixar um link de um texto escrito pelo Cristian Barbosa sobre ela, ele comentou comigo sobre o que disse no episódio passado, vou deixar aqui uma correção e o texto dele como uma lembrança e um reconhecimento. Quando ele veio falar comigo, inclusive, eu já havia lido texto dele, e achava muito bom por ele trazer o conceito da manifestação da arte independentemente dos resultados. Vocês vão ver, mais detalhes no link abaixo.

Finalizamos aqui mais um podcast, espero que ele tenha trazido uma reflexão de que você não precisa desprezar a competição, mas ela não é a coisa mais importante na sua vida ou das pessoas. Cada um tem que saber efetivamente, ouvindo a voz interna qual é o seu papel, qual é o seu Dharma, é isso que nos preenche de satisfação, é o que nos mantem motivados e focados no que é a manifestação do nosso eu.

Namastê!

 


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Daniel De Nardi>

Daniel De Nardi

Daniel é Professor de Yoga há mais de 20 anos. Pesquisador do Yoga e das raízes dessa Filosofia Milenar. É autor de diversos livros: "Aprenda a Meditar com o Yoga", "As Origens da Meditação e do Yoga", "Asana - Posturas do Yoga", "Como a Meditação funciona?", "O Yoga do Autoconhecimento", "Pra que Meditar?", dentre outros. Também é responsável por produzir a série de podcasts "Reflexões de um YogIN Contemporâneo" do YogIN Cast, o canal de podcasts de Yoga mais acessado do Brasil. Instagram: @reflexoesdeumyogin

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