A transformação pela comunicação

HOME > BLOG > A transformação pela comunicação

Qualidade de Vida | 30 jan 2018 | Daniel De Nardi


A transformação pela comunicação –

Escrevi aqui no blog, um outro artigo sobre comunicação chamado Para onde nos levam as palavras, o título é ruim, mas a ideia central é boa e por isso vou aprofundá-la um pouco mais no texto de hoje usando como pano de fundo um outro filme. Se você ainda não leu  Para onde nos levam as palavras, vale a pena. O texto também se baseia num filme, My Fair Lady,  para explicar sobre a importância da comunicação e o poder que ela tem de transformação.

A comunicação é uma ferramenta muito importante para o autoconhecimento. Conseguir exprimir em palavras aquilo que se sente ou que se pensa é essencial para a auto compreensão. O ganhador do prêmio Nobel de Literatura, Vargas Llosa em seu artigo Em Defesa do Romance fala exatamente disso (a citação longa, foi inevitável)

 

Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os conhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.

 

Se você pensar numa divisão de mundo entre tangível (material) e intangível (ideias), a comunicação é a ponte entre esses dois universos. Sem um arsenal de palavras e construções verbais que consigam dar significado aos acontecimentos ou ideias, os dois mundo parecerão linhas paralelas que andam juntas, mas nunca se encontrarão. Sem conhecer esses códigos (palavras) a pessoa terá muita dificuldade para entender o que se passa com suas sensações e também de compreender fenômenos externos que também afetam sua vida.

Estudos da psicologia consideram que a formação do EU só começa a acontecer depois que o bebe pronuncia suas primeiras palavras. Antes disso, ele não consegue vivenciar sua individualidade. Sem as palavras ainda se sente totalmente parte da mãe.

 

A palavra, determina.

A comunicação é a ferramenta que faz ideias abstratas se tornarem realizações concretas. A palavra, seja ela pensada, escrita ou pronunciada que permite que os acontecimentos sejam compreendidos. A busca da auto compreensão passará necessariamente pelo desenvolvimento da linguagem. Dialogar com o corpo e compreender mais a fundo as sensações é algo que a prática do Yoga faz em todos os tipos de exercícios. O que é um asana se não uma forma de aprendizado do diálogo corporal.

No Hinduísmo há uma crença de que para que algo exista, precisa ter nome e forma. Isso inclui também conceitos abstratos que também precisam ser nomeados e representados como símbolos visuais.

O que é a sabedoria para os hindus? Saraswati.

A representação envolve a imagem numa ambientação de música, arte, iluminação e poder.

A linguagem visual constrói o conceito de forma mais clara, deixando pistas de como se chegar à sabedoria.

O processo é o mesmo com as palavras, elas criam conceitos na nossa cabeça que aproximam nosso imaginário daquilo que estamos percebendo. Quando você sente um medo e consegue externa-lo com palavras estará mais próximo de vencê-lo, se esse for seu objetivo.

O filme A Chegada, do diretor Denis Villenueve (que já produziu obras-primas como Incêndios e irá dirigir a nova versão de Blade Runner em 2017) quebra todos os paradigmas da forma como nos comunicamos e como isso interfere na forma de vermos o mundo. O tema de A Chegada passa pela comunicação entre Nações e como o comportamento influencia a forma como cada indivíduo expressa o que sente.

Não vou dar spoilers neste texto, mas recomendo de verdade.

Assista e tire suas próprias conclusões.

Separei um podcast sobre o filme que traz reflexões interessantes. Eu, preferi ouvir após ver o filme, mas se você não se importa com spoilers aperte o botão.

 

Depois deixe seu comentário sobre o filme, agradeço desde já a participação.

Podcast com esse texto narrado

 

 


Compartilhar: Compartilhar no http://WhatsAppCompartilhar no http://FacebookCompartilhar no http://Twitter

Daniel De Nardi>

Daniel De Nardi

Daniel é Professor de Yoga há mais de 20 anos. Pesquisador do Yoga e das raízes dessa Filosofia Milenar. É autor de diversos livros: "Aprenda a Meditar com o Yoga", "As Origens da Meditação e do Yoga", "Asana - Posturas do Yoga", "Como a Meditação funciona?", "O Yoga do Autoconhecimento", "Pra que Meditar?", dentre outros. Também é responsável por produzir a série de podcasts "Reflexões de um YogIN Contemporâneo" do YogIN Cast, o canal de podcasts de Yoga mais acessado do Brasil. Instagram: @reflexoesdeumyogin

2 comentários

    YogIN App Denise sILVA |

    muito bom o texto.

    YogIN App Denise sILVA |

    muito bom o seu texto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Filosofia do Yoga | 20 set 2020 | Daniel De Nardi
Karma e Reencarnação

Karma e Reencarnação O hinduísmo passou por fortes rupturas ao longo da sua história, tais como a transferência de poder religioso quando Lutero traduz a Bíblia para o alemão. A Igreja Católica detinha o conhecimento da língua, o latim, e para acessar os ensinamentos de Deus, era necessário uma intermediação dos seus representantes diretos da Igreja. Ao traduzir a Bíblia, Lutero libera aquele conhecimento a qualquer um que soubesse ler. Entretanto, assunto como o perdão e a fé continuaram sendo debates centrais em todas as derivações religiosas que decorreram daquele rompimento. No hinduísmo, o tema do karma e reencarnação continuam sendo centrais desde suas primeiras escrituras. A casta mais alta da Índia é a dos sacerdotes que conhecem os rituais hindus, os brâmanes. Por muito tempo, os brâmanes se posicionaram como os únicos detentores da verdade. No século VII, pensadores e revolucionários indianos começam a questionar a implacabilidade dos Vedas. Esse grupo, os tântricos, criaram seus próprios textos, sua simbologia e trocaram muita informação com jainistas, budistas e ayurvedicos. Nesse caldeirão cultural surge o Hatha Yoga como uma releitura tântrica do Yoga de Patanjali. Nessa releitura, os YogINs tiram a verdade infalível dos textos e a trazem para o corpo. O que sinto e não o que está escrito é que tem valor. Desde aquela época, os YogINs observaram algo que vem sendo comprovado pela neuro ciência, o corpo tem memórias sensoriais. O corpo acumula muita informação sobre nós mesmos e pode nos ensinar sobre traumas e comportamentos condicionados. Além disso, o corpo também envia sinais. quando por exemplo tomamos algum tipo de atitude que sabemos que não é correta ou emocionalmente conflitante, o corpo responde com sintomas de desconforto ou algum tipo de doença. Para os YogINs essas são demonstração de algum tipo de desequilíbrio, energético, emocional ou mental. Tente se lembrar de ter ficado gripado quando estava numa fase muito feliz. Os asanas (posturas) começaram a ser mais explorados pelo Hatha Yoga pois entendeu-se que aumentando a observação das sensações corporais pode-se perceber antes pequenos desequilíbrios e poupar o corpo de desenvolver algo mais grave. Ao longo dos meus 20 anos de ensino e prática de Yoga, pude observar em mim e confirmar com meus alunos essa relação desequilíbrios/doenças e há estudos demonstrando quadros de tristeza com redução do sistema imunológico. O karma é visto no hinduísmo como um conceito de causa e efeito, uma lei universal na qual quando você causa algum tipo de sensação seja angústia ou felicidade aquilo de alguma forma retornará a você. Tem relação também com as respostas do corpo, dependendo do que você gera, terá o retorno. Só que o karma, dependendo da visão filosófica pode ou não ser transmitido para outra vida. A ideia de negar a reencarnação é chamativa, pois é uma ideologia na qual não se tem provas para afirmar. Seria mais racional pensar que o que se tem nessa vida foi o que se plantou, o karma é implacável. Só que quando  vejo casos de crianças, sem nenhuma chance de ter tomado uma atitude tão conflitante a ponto de gerar doenças devastadoras como o câncer, não consigo negar que possa existir reencarnação. Também é cruel pensar que aquela criança, de alguma forma tem que aprender algo dentro do seu caminho de libertação. Acredito que por mais adversa que seja a condição que fomos colocados no mundo, o caminho da liberdade depende apenas de cada um. É claro que o ser humano precisa de condições básicas para desenvolver seu pleno potencial. Não devemos nos cansar de ir ao encontro de própria identidade. Para o hinduismo, é o encontro com a essência (purúsha) que encerra o ciclo de reencarnações, interrompendo o karma e todo o sofrimento residual.    

Filosofia do Yoga | 19 set 2020 | Daniel De Nardi
Dharma e Yoga

Dharma e Yoga - Vídeo sobre a busca do propósito. O Dharma é conceito muito caro ao Yoga. A busca sobre seu papel no mundo e a expressão do EU através da ação é assunto presente em textos antigos como o Bhagavad Gíta. Como o Yoga pode ajudar você a entender melhor o seu Dharma é o assunto desse vídeo. https://youtu.be/H6uD6jMPtsI   Se preferir ouvir como podcast, clique abaixo ;) https://soundcloud.com/yogin-cast/o-que-e-o-dharma Se quiser saber mais sobre o assunto, conheça o novo curso do YogIN App que trata desse assunto. https://yoginapp.com/curso/refletindo-sobre-os-medos-que-nos-travam-dvesha-abhinivesha   Bons estudos!  

yoga para crianças
Dicas de Yoga | 18 set 2020 | Daniel De Nardi
O QI pode aumentar com a prática do Yoga?

Você conhece o Quora? O Quora é uma rede social de perguntas fundada por dois ex-funcionários do Facebook na qual você pode fazer qualquer tipo de questionamento e ser respondido por grandes pensadores como o fundador da Wikipedia, um professor de Harvard ou outro especialista do Silicon Valley. Recentemente, o próprio Obama respondeu perguntas sobre o programa nuclear do Irã. As respostas mais votadas vão subindo no ranking e se tornam \"the answer\" para aquela questão.   Um usuário perguntou - Como eu aumento meu QI? Houve mais de 100 respostas e a mais votada, com 2.500 votos, foi do empreendedor Corobi Soyn que elencava 30 itens. Obviamente apareceu: aumento de leitura, sugestão de sempre tomar notas, hidratar-se, ver menos TV, etc. O que mais chamou a atenção foi a quantidade de técnicas do Yoga que também foram citadas.   Medite ‰- Quando você medita, acalma o cérebro. Essa paz e tranquilidade são cruciais para a construção do intelecto. Exercite-se ‰- Exercícios mantém seu corpo aperfeiçoado e energizado; isto é um ótimo caminho para aumentar sua produtividade e inteligência. Simplifique mentalmente – Inteligência é a habilidade de adquirir e aplicar conhecimentos e habilidades. Tente organizar seus pensamentos e processar as informações uma de cada vez. Você verá que ficará não apenas mais produtivo, mas com uma melhor capacidade mental. Respire ‰- Oxigênio é crucial para o cérebro e ele não consegue sobreviver muito tempo sem ele. Você deve praticar técnicas de respiração e dar ao cérebro o quanto oxigênio ele precisar.      \"Você não precisa saber as respostas. Ninguém é esperto o suficiente para fazer todas as perguntas.\" Autor desconhecido Faça pausas ‰- Seu cérebro é como um músculo e trabalhá-lo demais pode causar problemas. Faça pausas periódicas para manter seu cérebro fresco e produtivo. E nunca se esqueça de dormir. Foco ‰- Inteligência é largamente baseada em quanto foco você consegue ter num determinado período de tempo. Pratique foco nas tarefas cotidianas e lute contra as dispersões. Não desista ‰- Qualquer um pode tornar-se mais esperto e melhorar sua inteligência então, nunca desista e continue tentando. Para concluir com minhas palavras - o Yoga pode ajudá-lo muito nesse processo. Mais uma vez,  é praticar para crer.  

Gunas: tamas rajas e satva
Filosofia do Yoga | 17 set 2020 | Equipe YogIN App
Os Três Gunas – Rajas, Tamas e Sattva

Gunas Gunas são as qualidades da matéria e segundo a visão indiana são divididas em 3 tipos: Tamas, Rajas e Sattva ou Inércia, Agitação e Harmonia. ”Sattva adere à felicidade, Rajas à ação, enquanto Tamas, verdadeiramente encobrindo o conhecimento, adere à negligência.” BHAGAVAD-GITA (14:9). Os três Gunas - Sattva, Rajas e Tamas - são considerados como as qualidades fundamentais da natureza, ou Prakriti. Na  interpretação hindu da criação e da dissolução do universo, diz-se que de tempos em tempos o universo se dissolve e depois é recriado. Quando ele está em sua fase não-definida, não manifestada, ele permanece em um estado latente no decorrer de um certo período. Durante este tempo, os Gunas encontram-se em um estado de absoluto equilíbrio, e Prakriti ou a natureza material, não se manifesta. Enquanto os Gunas permanecem não definidos, Prakriti continua indefinido e o universo existe apenas em um estado potencial. Tudo que existe é consciência, o Ser Puro ilimitado (Purusha) e não-manifestado, Brahma, o Absoluto Imutável, que não tem começo nem fim. Logo que o equilíbrio é perturbado, tem início a recriação do universo. A partir da consciência imutável, o universo, em constante transformação, é mais uma vez criado. Os Gunas participam de uma enorme variedade de combinações e permutações, em que um ou outro predomina sobre os restantes. Isso dá origem à interminável variedade de fenômenos físicos e mentais que formam o mundo que vivenciamos. Os Gunas, ou atributos da substância universal, são muito bem explicados no Bhagavad Gita: \"...  Sattva, iluminação, Rajas, atividade, e Tamas, passividade - são os três poderes que nascem da Natureza e prendem o espírito infinito a este mundo finito. Desses três, Sattva, por ser puro e luminoso, possui o som de dar alegria e beatitude à alma livre de pecado e fascinada pela verdade. Rajas, porém, a paixão que cria cobiça, empolga a alma pelo apego às obras. Tamas nasce da ignorância e é causa da auto-ilusão em todas as coisas - um nada que domina o mundo inteiro e liga a alma pela inércia da passividade.\" Podemos ter uma característica da nossa personalidade predominante de sermos mais rajasicos, mais ativos, ou tamasicos, mais parados, mas é importante que haja equilíbrio entre essas forças da Natureza em nossas vidas, se uma delas estiver predominante nascem os desequilíbrios. Temos inclusive alimentos que ajudam a regular essas forças, muito conectados com os doshas na Ayurveda. O importante é o auto estudo, swádhyaya é dele que nascerá a percepção de que força está predominante e se você deve parar e meditar ou fazer um pranayama que pacifique trazendo sattva (equilíbrio) ou; se você está tamasico e precisa de asanas revigorantes como invertidas e pranayamas acelerados como bhastrika para atingir esse equilíbrio. Deixe sua consciência ser seu Mestre, apenas proporcione a pausa para ouvi-la. Em síntese as características de cada guna (qualidade, atributo): • Sattva  - qualidade de inteligência, virtude, harmonia e equilíbrio;  - possui a qualidade da leveza e da luminosidade;  - fornece felicidade, contentamento e paz;  - promove introspecção, auto-conhecimento e espiritualidade;  - Sattva puro leva à transcendência  - tem movimento centrípeto (para dentro) e ascendente (para cima).   • Rajas  -  possui a qualidade da agitação, atividade e desequilíbrio;  - é motivado pela ação que busca um fim que leva ao poder;  - é um movimento para fora;  - a ação é egoísta ou \"umbigocêntrica\";  - a busca é pelo prazer nas paixões, nos sentidos;  - pode gerar emoções desequilibradas e levar a conflitos.   • Tamas  - tem qualidade de inércia, embotamento, escuridão e ignorância;  - funciona como a gravidade, com movimento descendente;  - promove ilusão, sono e perda da consciência;  - é pesada, obscura e estagnada;  - promove fadiga, falta de energia e depressão. A prática do Yoga estimula atitudes mais satvicas, voltadas para o equilíbrio entre a inércia (sattva) e a agitação (rajas). Quando terminamos uma aula de Yoga e sentimos aquela sensação de paz e equilíbrio é a qualidade de sattva expandida no nosso corpo. Experimente observar melhor essa sensação na sua próxima aula de Yoga. Namaste! Quer saber mais sobre Energia e seus canais no nosos Corpo (nadis) ? Clique na IMAGEM ABAIXO   https://yoginapp.com/nadis-e-polaridades-o-prana-a-energia-vital/   Conheça o Canal do YouTube do YogIN App