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Filosofia do Yoga | 12 maio 2021 | Cherrine Cardoso

O compromisso com o Satya

O compromisso com o Satya Todos mentimos. Isto é fato. Mentimos para os outros, em níveis/graus e intensidades diferentes, mas sem dúvida, a pior mentira é aquela que proclamamos contra nós mesmos. Alguns de forma compulsiva e descarada, o que nos faz perceber que estes ainda estão em estados de muita inconsciência e ignorância. Outros, de forma mascarada pelo ego, dizendo ser omissão o que bem se vê como uma mentira mesmo. E aquela mentira que escapa, mas faz o emissor de tal se sentir culpado segundos depois, por já estar mais atento às suas próprias ações.   O próprio Dani De Nardi tem um podcast (e a transcrição dele) aqui neste blog falando sobre este tão nobre valor yogín, que é Satya (a verdade ou o não mentir). Uma das observações feitas por ele que mais tem a ver com a reflexão que venho fazer hoje aqui é: \"O brasão da Índia tem a frase: \"Satyameva jayatê\", da Mundaka Upanishad, que significa \"no final a verdade triunfará\", porque se você constrói algo em cima da mentira, aquilo se desmancha\". Ou seja, demore o tempo que for, uma mentira será sempre desmascarada pela verdade, que tarda mais chega.   Neste caminho ao autoconhecimento, todos, sem exceções, falharemos com os preceitos éticos de Patáñjali, que há milênios atrás nos deixou como um legado estes 10 yamas e nyamas, onde vemos entre eles o Satya. E estes dez mandamentos comportamentais, não à toa, seguem sendo atemporais. Se ele previu, lá na antiguidade, que para que humanos pudessem se ver yogíns seria necessário antes lapidar o ahamkara (seu ego), ele já sabia que de nada adiantaria praticar horas a fio ásanas e pránáyámas se não houvesse uma base comportamental sólida que permitisse à este praticante acessar as outras partes de uma prática. E assim, quem sabe, atingindo seus outros níveis de consciência. Afinal, como ser mais consciente se não há nem observância sobre seu próprio comportamento?   O compromisso com a verdade anda muito em voga. Nos vemos mais intolerantes com quem mente, com quem é negligente com a transparência, com pessoas que fazem uso da inverdade para manipular, coagir ou se beneficiar em cima de outras pessoas. E não pense você que mentir é algo feito só com palavras. Mentimos com atitude corporal, mentimos em pensamento.   new RDStationForms(\'newsletter-yogin-formulario-1c3fb174b015350a9cd5-html\', \'UA-68279709-2\').createForm(); E se fora do Yoga isso já se tornou algo fácil de ler e perceber, no mundo do Yoga mais ainda. As pessoas que despertam, despertam junto a sensibilidade real para detectar uma falsa verdade e uma pessoa igualmente falsa. Não só por intuição, mas por percepção mesmo. Estar sutil nos permite detectar com mais rapidez aquele que falha com este preceito. Porém, igualmente, não nos cabe julgar e nem condenar, apenas atestar que mesmo dentro de uma filosofia tão completa e ampla de ensinamentos, ainda somos humanos em busca de sermos melhores; e muitas vezes, falharemos.   Mas, o que podemos aprender com esta percepção? Para além de que sim, mesmo em evolução ainda erraremos muito; sendo profissionais desta filosofia milenar temos que arcar com um compromisso ainda maior com estes preceitos. Temos que honrar tudo o que nos foi deixado como herança e fazer bom uso destes ensinamentos. Não só como um conteúdo a propagar em teoria, mas principalmente, colocando-o em prática.   E sim, é difícil. Mas também é difícil ficar de ponta cabeça, na invertida. Também é difícil entender que respirar não é só levar oxigênio para os pulmões. Que meditar é difícil para caramba, ainda mais em meio a caos de Maya (mundo ilusório) em que vivemos. Portanto, tudo é difícil até que se torne fácil. E tal como tudo na prática vai ficando mais incorporado com a disciplina, os preceitos éticos e morais também precisam desta constância. Ser verdadeiro se tornará um hábito, quanto mais for colocado na rotina do praticante.   E em tempos de redes sociais, de mídias imediatistas, precisamos como um dever ser ainda mais rigorosos com o que recebemos de imagem e palavras. Temos que deixar nosso filtro mais ativo. Temos que sim ligar nosso canal intuicional e ficarmos em atenção. Pois se vende e se compra de tudo hoje em dia. Do bom e do ruim. Não significa que usar mídias virtuais para propagar a cultura do Yoga seja ruim. Tanto que pelo advento da internet chega até nós grandes e valiosas formas de aprendizados e conhecimento, que sem dúvida nos favorece e muito o esgarçar dos nossos antolhos da ignorância. Mas até mesmo tudo o que recebemos deve passar por este filtro.   Daí você me pergunta: \"ok, bom saber, só que como eu consigo diferenciar uma pessoa verdadeira de uma pessoa mentirosa?\". Honestamente te digo: não é fácil. Um bom mentiroso faz facilmente muita gente cair na sua lábia! Mas fique atento. Atente para a forma como esta pessoa se comporta no dia a dia. E não será vendo o stories dela no instagram tá bem? Não! Ali é a máscara que a pessoa quer passar que você estará vendo. Se dê a oportunidade de conhecê-la na vida real.   Tem interesse? Procure estar onde esta pessoa esta. Se for um professor de Yoga, vá fazer uma aula com ele. Se for um político, se aproxime dele em algum lugar. Se for um escritor, tente acompanhá-lo em algum evento, em alguma oportunidade. A vida está sempre nos permitindo estes encontros e eles não são à toa. Eles acontecem para que possamos tirar nossas próprias conclusões.   Outro bom aspecto a ser observado. A verdade não deve ser para você a verdade de uma outra pessoa. Você não deve simplesmente passar para frente a visão ou insatisfação de alguém sobre outro alguém. Ouviu algo sobre alguma pessoa? Não espalhe. Investigue antes. Você tem todo o direito de ter suas próprias observações. E vai se espantar ao perceber que muitas vezes o que a outra pessoa fala sobre algo ou alguém, não é a mesma conclusão a que você chegará ao se permitir conhecer, ver, ouvir, tudo com suas próprias percepções.   Não existe verdade absoluta sobre nada, porque nem mesmo nós conhecemos nossas próprias. Até mesmo aquilo que você considera uma verdade hoje, pode deixar de ser para você mesmo daqui um ano, quando olhar para trás e rever seus conceitos. As vezes em segundos! Mas esta observância precisa se manter ativa. Satya é um dos compromissos mais nobres de um yogín, de um educador desta filosofia, de um admirador desta cultura. Sejamos comprometidos em sermos verdadeiros, transparentes, emanando apenas o que vá somar e agregar valor ao desenvolvimento nosso e do próximo, nunca o contrário. Já será um enorme desafio!