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Podcast de Yoga | 4 jul 2021 | Daniel De Nardi

O Futuro da Inteligência Artificial – A Superinteligência de Bostrom – Episódio 02

A Superinteligência de Bostrom A série \"O Futuro da Inteligência Artificial\" apresentará previsões de especialistas para o que vai acontecer relacionado à Tecnologia nos próximos 100 anos. O episódio 2 mostra a previsão do filósofo Nick Bostrom, mentor de Elon Musck (fundador da Tesla e SpaceX). Bostrom prevê o desenvolvimento de um sistema que será melhor que os seres humanos em todas as suas habilidades, isso ele chama de Superinteligência. LINKS Lista de Espera da Curso de Formção de Yoga Online do YogIN App   \"A essência humana no anonimato\" podcast que apresenta a Teoria de Realidade Simulada, de Nick Bostrom   \"A fusão Homem Máquina de Harari\" Podcast de abertura da série \"O Futuro da Inteligência Artificial\"   Perfil do Podcast no Instagram   Playlist com as músicas dos episódios   https://open.spotify.com/playlist/2YCabHrhxWDjZAYxdVwusa?

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Podcast de Yoga | 17 jun 2021 | Daniel De Nardi

O Futuro da Inteligência Artificial – Robôs serão sempre robôs por Kai-fu Lee – Episódio 03

Robôs serão sempre robôs Este é o último episódio da série \"O Futuro da Inteligência Artificial\" e trará a visão de um desenvolvedor de Inteligência Artificial e dono de um fundo de StartUps chinesas de A.I. - Kai-Fu Lee foi responsável por criar a equipe da Srí na Apple, depois fez trabalhos para Microsoft na em Inteligência Artificial e depois liderou a operação do Google na China. Kai-Fu Lee tem uma perspectiva menos alrmista no que se refere ao domínio das máquinas sobre nós, mas faz apontamentos de reduções drásticas nos empregos a medida que a Inteligência Artificial for aumentando suas capacidades. Este episódio da série vai fazer um resumo do livro \"Inteligência Artificial\" do desenvolvedor de A.I Kai fu Lee. Ele é também dono de um fundo de investimentos em startups de Inteligência Artificial chibesas. Como uma pessoa que conhece esse movimento de dentro, será uma voz importante dessa série sobre \"O Futuro da Inteligência Artificial\".   A música é trilha sonora do filme \"Her\", cantada pela Scarlett Johansson, na voz da secretária virtual. O ator principal deste filme é Joaquin Phoenix, que provavelmente ganhará o Oscar em 2020 no papel de Coringa. Phoenix já foi indicado algumas vezes, mas nunca levou.  Dois dos livros que veremos neste episódio, tratam o filme \"Her\" como uma projeção muito provável de futuro uso da A.I.  A A.I. tornou-se um dos focos dos meus estudos desde que li Homo Deus de do historiador Yuval Harari. Nessa obra entendi o impacto que a Inteligência Artificial, especialmente após a machine learning tem em nossas vidas. Quem não entender minimamente da evolução da Inteligência de máquinas não terá capacidade de analisar as relações humanas, tampouco prever as transformações que essa ferramenta pode proporcionar.  Nick Bostrom, o segundo autor apresentado na série acredita que \"A máquina superinteligente será a última invenção da humanidade\" uma frase que pode ter ambos sentidos. Tal como uma inteligência que fizesse 100% da administração pública sem nenhum custo até um sistema que possa interferir deliberadamente no comportamento dos humanos. LINKS Lista de Espera para o Curso de Formação de Professores de Yoga Online   Kai Fu Lee explica a revolução de A.I na China - Programa do Bial   \"A fusão Homem Máquina de Harari\" Episódio 01 série \"O Futuro da Inteligência Artificial\"   \"A Superinteligência de Bostrom\" Episódio 02 da série \"O Futuro da Inteligência Artificial\"   Entrevista de Kai Fu Lee no Programa do Bial Notícias sobre Kai-fu Lee   Documentário Kasparov X Deep Blue da IBM   Perfil do Podcast no Instagram   Playlist no Spotify com todas as músicas das trilhas sonoras   https://open.spotify.com/playlist/2YCabHrhxWDjZAYxdVwusa?si=0meOIvhWQHWzf1lTGT886g    O início da explosão de A.I. na China Sputnik é o nome da primeira série de satélites artificiais soviéticos, feita para estudar as capacidades de lançamento de cargas para o espaço e para estudar os efeitos da ausência de peso e da radiação sobre os organismos vivos. Serviu também de preparação do primeiro voo espacial tripulado. Quando os americanos viram o lançamento do Sputnik, aceleraram o desenvolvimento da sua tecnologia com apoio do governo e chegaram antes à lua.  O autor de Inteligência Artificial, Kai-fu Lee, criador da equipe da Siri na Apple e ex CEO do Google China afirma que o momento dessa virada com relação à Inteligência Artificial na China foi a partir de um jogo chamado Go. Um xadrez chinês, mas que tem mais possibilidade de jogadas que todos os átomos da Terra, algo como 10 elevado a mais de 100. Kai-fu Lee tem uma visão diferente sobre A.I. que Harari e Bostrom e os considera apenas estudiosos, mas não autoridades que podem opinar pois não entendem da parte prática desses desenvolvimentos. Lee acredita sim que as máquinas poderão fazer praticamente todas as nossas tarefas, o que acarretará problemas sérios de desemprego, mas ele não acha que robôs jamais terão o nível de bom senso de uma criança ou nem sequer chegar perto do Amor. O que ele considera o grande diferencial humano, que nenhuma máquina conseguirá reproduzir. Lerei o início de cada capítulo do livro usando a trilha sonora do filme Her e comentarei em seguida.        O MOMENTO SPUTNIK DA CHINAO ADOLESCENTE CHINÊS com óculos de armação quadrada parecia ser o herói improvável da última resistência da humanidade. Vestido com um terno preto, camisa branca e gravata preta, Ke Jie se afundou em sua cadeira, esfregando as têmporas, intrigado com o problema à sua frente. Normalmente cheio de uma confiança que beirava a arrogância, o garoto de dezenove anos se contorcia na cadeira de couro. Mude o local e ele poderia ser outro garoto na escola sofrendo com uma prova impossível de geometria. Mas naquela tarde de maio de 2017, ele estava envolvido na luta contra uma das máquinas mais inteligentes do mundo, o AlphaGo, uma usina de inteligência artificial apoiada pela, pode-se dizer, maior empresa de tecnologia do mundo: o Google. O campo de batalha era um tabuleiro de dezenove por dezenove linhas, cheio de pequenas pedras pretas e brancas — as matérias-primas do enganosamente complexo jogo Go. Durante a partida, dois jogadores alternam-se, colocando pedras no tabuleiro e tentando cercar as peças do oponente. Nenhum humano na Terra poderia fazer isso melhor do que Ke Jie, mas, naquele momento, ele enfrentava um jogador do Go que estava em um nível que ninguém jamais havia visto. Inventado, acredita-se, há mais de 2.500 anos, o Go tem a história mais longa que qualquer jogo de tabuleiro jogado ainda hoje. Na antiga China, representava uma das quatro formas de arte que todo acadêmico chinês deveria dominar. Acreditava-se que o jogo, como o zen, levava seus jogadores a um refinamento e a uma sabedoria intelectual. Enquanto jogos como o xadrez ocidental eram considerados grosseiramente táticos, o Go é baseado no posicionamento paciente e no lento cerco, o que o transformou em uma forma de arte, um estado de espírito. A profundidade da história do Go acompanha a complexidade do jogo em si. As regras básicas podem ser explicadas em apenas nove sentenças, mas o número de posições possíveis em um tabuleiro de Go excede o de átomos no universo conhecido. A complexidade da árvore de decisão transformou a derrota do campeão mundial de Go em uma espécie de monte Everest para a comunidade de inteligência artificial — um problema cujo tamanho tinha impedido todas as tentativas de conquistá-lo. Aqueles com uma inclinação poética diziam que tal feito não poderia ser realizado porque as máquinas não tinham o elemento humano, uma sensação quase mística pelo jogo. Os engenheiros simplesmente achavam que o tabuleiro oferecia possibilidades demais para que um computador pudesse avaliar. Mas, nesse dia, o AlphaGo não estava apenas vencendo Ke Jie — estava dando uma surra nele. Ao longo de três maratonas de mais de três horas cada, Ke jogou tudo que conhecia contra o programa de computador. Testou diferentes abordagens: conservador, agressivo, defensivo e imprevisível. Nada parecia funcionar. O AlphaGo não deu nenhuma abertura a Ke. Ao contrário, lentamente foi deixando-o sem saída. Comentário Isso despertou uma esperança em Kai que foi ver o menino chorando, na sua visão isso nunca será alcançado pelos computadores.  Durante o livro ele tira um sarro das teorias do Nick Bostrom, pois na visão dele as coisas não irão crescer progressivamente até tomarem tudo como prevê o filósofo sueco. Na visão de Kai Fu Lee que é um desenvolvedor de software e que sempre trabalhou diretamente com isso, diferentemente de Nick que só estudou, o que houve recentemente que descongelou uma era de paralisia no desenvolvimento da A.I. foi a descoberta da machine learning. Na opinião, um salto como o do machine learning não acontecerá no próximo século, o que desmontaria toda a projeção de Nick.   IMITADORES NO COLISEU  ELES O CHAMAVAM DE THE CLONER, Wang Xing deixou sua marca no início da internet chinesa como um plagiador em série, uma imagem espelhada bizarra dos reverenciados empreendedores em larga escala do Vale do Silício. Em 2003, 2005, 2007 e, novamente, em 2010, Wang pegou a melhor startup do ano dos Estados Unidos e a copiou para os usuários chineses. Tudo começou quando ele tropeçou na rede social pioneira Friendster durante o doutorado em engenharia na Universidade de Delaware. O conceito de uma rede virtual de amizades instantaneamente se uniu ao histórico de Wang em redes de computadores, e ele abandonou seu programa de doutorado para voltar à China e recriar o Friendster. Nesse primeiro projeto, optou por não clonar o design exato do site. Em vez disso, ele e alguns amigos simplesmente adotaram o conceito central da rede social digital e construíram sua própria interface de usuário em torno dele. O resultado foi, nas palavras de Wang, “feio”, e o site não decolou. Dois anos mais tarde, o Facebook estava invadindo todas as universidades com seu design limpo e segmentação de nicho focada em estudantes. Wang adotou os dois quando criou o Xiaonei (No Campus). A rede era exclusiva para universitários chineses e a interface do usuário era uma cópia exata do site de Mark Zuckerberg. Wang recriou meticulosamente home page, perfis, barras de ferramentas e esquemas de cores da startup de Palo Alto. A mídia chinesa informou que a primeira versão do Xiaonei chegou ao ponto de pôr a tagline do próprio Facebook, “A Mark Zuckerberg production”, no final de cada página.2 O Xiaonei foi um sucesso, mas Wang o vendeu cedo demais. Como o site cresceu muito depressa, ele não conseguiu levantar dinheiro suficiente para pagar os custos dos servidores e foi forçado a vendê-lo. Sob nova propriedade, uma versão reformulada do Xiaonei — agora chamado Renren (Todo Mundo) — acabou levantando 740 milhões de dólares durante sua estreia em 2011 na Bolsa de Valores de Nova York. Em 2007, Wang fez tudo de novo, criando uma cópia precisa do recém-criado Twitter. O clone era tão bom que, se o idioma e a URL fossem alterados, os usuários poderiam facilmente ser enganados e pensar que estavam no Twitter original. O site chinês, chamado Fanfou, prosperou por um tempo, mas logo foi fechado por conteúdo politicamente sensível. Então, três anos depois, Wang pegou o modelo de negócios do Groupon e o transformou no site chinês de compras coletivas Meituan. Para a elite do Vale do Silício, Wang era um sem vergonha. Na mitologia do Vale, poucas coisas são mais estigmatizadas do que imitar cegamente o estabelecido. Era precisamente esse tipo de empreendedorismo imitador que impediria o crescimento da China, assim dizia a sabedoria convencional, e impediria que o país construísse empresas de tecnologia de fato inovadoras que pudessem “mudar o mundo”. Até alguns empreendedores chineses sentiram que a clonagem “pixel por pixel” de Wang do Facebook e do Twitter tinha ido longe demais. Sim, as empresas chinesas com frequência imitavam seus pares norte-americanos, mas era possível pelo menos localizar ou adicionar um toque de seu próprio estilo. Mas Wang não pediu desculpas por seus sites imitadores. Copiar era uma peça do quebra-cabeça, ele disse, mas também era sua escolha de quais sites copiar e sua execução nas frentes técnica e de negócios. No final, foi Wang quem riu por último. No fim de 2017, a capitalização de mercado do Groupon tinha encolhido para 2,58 bilhões de dólares, com suas ações sendo negociadas a menos de um quinto do preço de sua oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) de ações em 2011. A antiga queridinha do mundo das startups norte-americanas estava estagnada havia anos e demorou a reagir quando a mania das compras coletivas esfriou. Enquanto isso, o Meituan de Wang Xing tinha triunfado em um ambiente brutalmente competitivo, vencendo milhares de sites similares de compras coletivas e dominando o setor. Em seguida, começou a se ramificar em dezenas de novas linhas de negócios. Tornou-se, então, a quarta startup mais valiosa do mundo, avaliada em 30 bilhões de dólares, e Wang vê o Alibaba e a Amazon como seus principais concorrentes no futuro. Analisando o sucesso de Wang, os observadores ocidentais cometem um erro fundamental. Acreditam que o Meituan triunfou ao adotar uma ótima ideia americana e simplesmente copiá-la na protegida internet chinesa, um espaço seguro onde as fracas empresas locais podem sobreviver por causa de uma concorrência muito menos intensa. Esse tipo de análise, no entanto, é o resultado de um profundo desconhecimento da dinâmica em jogo no mercado chinês, e revela um egocentrismo que define que toda a inovação da internet acontece no Vale do Silício. Ao criar seus primeiros clones do Facebook e do Twitter, Wang estava, na verdade, confiando inteiramente no manual do Vale do Silício. Essa primeira fase da era imitadora — startups chinesas clonando sites do Vale do Silício — ajudou a desenvolver a engenharia básica e as habilidades de empreendedorismo digital que estavam totalmente ultrapssadas quando comparadas aos USA.   Comentário Na China a imitação não é mal vista, e é reconhecida como grande habilidade. Isso ajudou bastante eles a desenvolverem a base para a A.I.   O UNIVERSO ALTERNATIVO DA INTERNET NA CHINA  GUO HONG É UM FUNDADOR DE STARTUPS. Preso no corpo de um funcionário do governo. De meia-idade, Guo está sempre usando um terno escuro modesto e óculos de lentes grossas. Ao fazer pose para fotos oficiais em cerimônias de inauguração, não parece diferente das dezenas de outras autoridades da cidade de Pequim, vestidas de maneira idêntica, que aparecem para cortar fitas e fazer discursos. Durante as duas décadas anteriores a 2010, a China foi governada por engenheiros. O funcionalismo chinês estava cheio de homens que tinham estudado a ciência de construir coisas físicas, e utilizaram esse conhecimento para transformar a China de uma sociedade agrícola pobre em um país de fábricas agitadas e cidades enormes. Mas Guo representava um novo tipo de funcionário para uma nova era — na qual a China precisava tanto construir coisas quanto criar ideias. Coloque Guo sozinho em uma sala com outros empresários ou tecnólogos e ele, de repente, ganha vida. Repleto de ideias, fala rápido e escuta atentamente. Tem um apetite voraz pela novidade tecnológica e pela capacidade de visualizar como as startups podem aproveitar essas tendências. Guo pensa de forma pouco convencional e, em seguida, parte para a ação. Ele é o tipo de criador a quem os investidores de capital de risco adoram dar dinheiro. Todos esses hábitos vieram a calhar quando Guo decidiu transformar sua fatia de Pequim no Vale do Silício chinês, um foco de inovação no país. O ano era 2010, e Guo era responsável pela influente zona de tecnologia Zhongguancun, no noroeste de Pequim, uma área que havia muito tempo era vista como a resposta da China ao Vale do Silício, mas não tinha realmente merecido o título. Zhongguancun estava repleta de mercados de eletrônicos que vendiam smartphones de baixo custo e softwares pirateados, mas oferecia poucas startups inovadoras. Guo queria mudar isso. Para dar início a esse processo, nos reunimos nos escritórios da minha recém-fundada empresa, a Sinovation Ventures. Depois de passar uma década representando as empresas de tecnologia norte-americanas mais poderosas na China, no outono de 2009 deixei o Google China para estabelecer a Sinovation, uma incubadora em estágio inicial e um fundo de investimento para startups chinesas. Fiz esse movimento porque senti uma nova energia borbulhando no ecossistema de startups chinês. A era dos imitadores tinha forjado empreendedores de alto nível e eles estavam apenas começando a aplicar suas habilidades para resolver problemas exclusivamente chineses. A rápida transição da China para a internet móvel e os agitados centros urbanos criaram um ambiente totalmente diferente, no qual produtos inovadores e novos modelos de negócios poderiam prosperar.      Comentário O governo investiu muito nessa iniciativa e embora minha visão liberal rejeite esse tipo de iniciativa, é fato que economicamente, funcionou.   UM CONTO DE DOIS PAÍSES  EM 1999, OS PESQUISADORES CHINESES ainda estavam no escuro quando se tratava de estudar a inteligência artificial — literalmente. Vou explicar. Naquele ano, visitei a Universidade de Ciência e Tecnologia da China para dar uma palestra sobre nosso trabalho em reconhecimento de fala e imagem na Microsoft Research. A universidade era uma das melhores escolas de engenharia da China, mas estava localizada na cidade de Hefei, no sul do país, um lugar remoto em comparação com Pequim. Na noite da palestra, os alunos se espremeram no auditório, e aqueles que não tinham conseguido entrar ficaram pressionados contra as janelas, na esperança de ouvir um pouco através do vidro. O interesse era tão intenso que por fim pedi aos organizadores que permitissem que os alunos preenchessem os corredores e até se sentassem no palco ao meu redor. Eles ouviram atentamente enquanto eu estabelecia os fundamentos do reconhecimento de fala, da síntese de fala, dos gráficos 3-D e da visão computacional. Rabiscaram notas e me encheram de perguntas sobre princípios subjacentes e aplicações práticas. Era evidente que a China estava mais de uma década atrás dos Estados Unidos na pesquisa de IA, mas esses estudantes eram como esponjas para qualquer conhecimento do mundo exterior. A animação na sala era palpável. A palestra durou muito, e já estava escuro quando saí do auditório e fui em direção ao portão principal da universidade. Os dormitórios estudantis cobriam os dois lados do caminho, mas o campus estava quieto e a rua, vazia. E então, de repente, não estavam mais. Como se houvesse tocado um sinal, longas filas de estudantes começaram a sair dos dormitórios ao meu redor para a rua. Fiquei lá, perplexo, observando o que parecia ser um exercício anti-incêndio em câmera lenta, tudo isso em total silêncio. Apenas quando se sentaram na calçada e abriram seus livros que percebi o que estava acontecendo: os dormitórios apagavam todas as luzes às 23 horas em ponto, e assim a maioria dos estudantes saía para continuar seus estudos debaixo da iluminação pública. Fiquei olhando enquanto centenas das mentes jovens e brilhantes dos futuros engenheiros da China se amontoavam debaixo da suave luz amarelada. Não sabia disso na época, mas o futuro fundador de uma das mais importantes empresas de IA da China estava lá, esforçando-se para ter algumas horas extras de estudo na noite escura de Hefei. Muitos dos livros didáticos que esses alunos liam estavam desatualizados ou mal traduzidos. Mas eles eram os melhores que os estudantes podiam encontrar, e esses jovens acadêmicos buscavam cada gota de conhecimento que eles continham. O acesso à internet na escola era um bem escasso, e estudar no exterior só era possível se os alunos ganhassem uma bolsa integral. As páginas marcadas desses livros e as palestras ocasionais de um acadêmico visitante eram a única janela que tinham para o estado da pesquisa global de IA. Ah, como as coisas mudaram.    Comentário O Esforço é capaz de tirar grandes diferenças.   O MATERIAL DE UMA SUPERPOTÊNCIA DE IA  Como expus anteriormente, a criação de uma superpotência de IA para o século XXI exige quatro blocos de construção principais: dados abundantes, empreendedores tenazes, cientistas de IA bem treinados e um ambiente político favorável. Já vimos como o ecossistema de gladiadores das startups chinesas treinou uma geração de empresários sagazes e como o universo alternativo da internet na China criou o ecossistema de dados mais rico do mundo. Este capítulo avalia o equilíbrio de poder entre os dois ingredientes restantes — conhecimento em IA e apoio do governo. Acredito que na era da implementação da IA, a vantagem do Vale do Silício por sua elite especializada não será tão importante. E no domínio crucial do apoio governamental, a cultura política técnico-utilitária da China abrirá caminho para uma implementação mais rápida de tecnologias revolucionárias. À medida que a inteligência artificial se infiltrar na economia mais ampla, recompensará a quantidade de sólidos engenheiros de inteligência artificial sobre a qualidade dos pesquisadores de elite. A verdadeira força econômica na era da implementação da IA não virá apenas de um punhado de cientistas de elite que ampliam os limites com suas pesquisas. Virá de um exército de engenheiros bem treinados que se juntarão a empreendedores para transformar essas descobertas em empresas revolucionárias. A China está exatamente treinando esse exército. Nas duas décadas desde a minha palestra em Hefei, a comunidade de inteligência artificial da China eliminou a distância que tinha com os Estados Unidos. Enquanto os Estados Unidos ainda dominam quando se trata de pesquisadores superestrelas, as empresas e instituições de pesquisa chinesas se encheram do tipo de engenheiro bem treinado que pode impulsionar essa era de implementação da IA. Fez isso juntando a extraordinária fome de conhecimento que presenciei em Hefei com uma explosão no acesso à pesquisa global de ponta. Os estudantes chineses de IA não estão mais se esforçando no escuro para ler livros didáticos desatualizados. Estão aproveitando a cultura de pesquisa aberta da IA para absorver conhecimento direto da fonte e em tempo real. Isso significa dissecar as publicações acadêmicas on-line mais recentes, debater as abordagens dos principais cientistas de IA nos grupos de WeChat e transmitir suas palestras em smartphones. Essa rica conectividade permite que a comunidade de IA da China se aproxime da elite intelectual, treinando uma geração de pesquisadores chineses interessados que agora contribuem para o campo em um alto nível. Também permite que startups chinesas apliquem algoritmos de código aberto de ponta a produtos de IA práticos: drones autônomos, sistemas “pague com seu rosto” e eletrodomésticos inteligentes. Essas startups estão agora brigando por uma fatia da paisagem de IA cada vez mais dominada por um punhado de grandes atores: os chamados Sete Gigantes da era da IA, que incluem Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Baidu, Alibaba e Tencent. Esses gigantes corporativos estão quase igualmente divididos entre os Estados Unidos e a China, fazendo movimentos ousados para dominar a economia da IA. Estão usando bilhões de dólares em dinheiro e estonteantes estoques de dados para engolir todo talento disponível em IA. Além disso, estão trabalhando para construir as “redes de energia” para a era da IA: redes de computação controladas de forma privada que distribuem o aprendizado de máquina em toda a economia, com os gigantes corporativos agindo como “utilitários”. É um fenômeno preocupante para aqueles que valorizam um ecossistema aberto de IA e também representa um bloco de obstáculo potencial para a ascensão da China como superpotência da IA.   Comentário O fato da China ter entrada depois na era da tecnologia faz eles não temerem liberar dados, desde que ganhem conveniência.   AS QUATRO ONDAS DA IA FOI NO ANO DE 2017 que ouvi pela primeira vez Donald Trump falar chinês fluentemente. Durante a primeira viagem do presidente dos Estados Unidos à China, ele apareceu em uma telona e fez seu discurso inteiro em chinês. A Inteligência Artificial traduzia simultâneo usando as palavras mais adequadas ao movimento da boca do presidente americano.   Comentário Kai-fu Lee foi o primeiro chinês a trabalhar com reconhecimento de voz em A.I. criou a equipe da Apple que hoje desenvolve a Siri.   UTOPIA, DISTOPIA E A VERDADEIRA CRISE DA IA  TODOS OS PRODUTOS E SERVIÇOS de IA descritos no capítulo anterior podem ser obtidos com base nas tecnologias atuais. Colocá-los no mercado não requer grandes inovações na pesquisa de IA, apenas o trabalho básico de implementação cotidiana: coleta de dados, modificação de fórmulas, iteração de algoritmos em experimentos e combinações diferentes, prototipagem de produtos e experimentação de modelos de negócios. Mas a era da implementação fez mais do que tornar possíveis esses produtos práticos. Também incendiou a imaginação popular no que se trata de IA. Alimentou a crença de que estamos prestes a alcançar o que alguns consideram o Santo Graal da pesquisa de IA, a inteligência geral artificial (AGI) — máquinas pensantes com a capacidade de realizar qualquer tarefa intelectual que um ser humano pode fazer — e muito mais. Alguns preveem que, com o surgimento da AGI, as máquinas que poderão melhorar a si mesmas desencadearão um crescimento descontrolado na inteligência de computadores. Muitas vezes chamada de “a singularidade”, ou superinteligência artificial, esse futuro envolve computadores cuja capacidade de entender e manipular o mundo supera a nossa, comparável à diferença de inteligência entre seres humanos e, digamos, insetos. Essas previsões estonteantes dividiram grande parte da comunidade intelectual em dois campos: os utópicos e os distópicos. Os utópicos veem a aurora da AGI e a singularidade subsequente como a fronteira final do desenvolvimento humano, uma oportunidade para expandir nossa própria consciência e conquistar a imortalidade. Ray Kurzweil — o excêntrico inventor, futurista e guru-residente do Google — prevê um futuro radical, no qual os seres humanos e as máquinas se fundirão totalmente. Vamos subir nossas mentes para a nuvem, ele prevê, e constantemente renovar nossos corpos através de nanorrobôs inteligentes lançados em nossa corrente sanguínea. Kurzweil prevê que até 2029 teremos computadores com inteligência comparável à dos humanos (isto é, AGI), e que alcançaremos a singularidade até 2045.1 Outros pensadores utópicos veem a AGI como algo que nos permitirá decodificar rapidamente os mistérios do universo físico. O fundador da DeepMind, Demis Hassabis, prevê que a criação da superinteligência permitirá que a civilização humana resolva problemas insolúveis, produzindo soluções inconcebivelmente brilhantes para o aquecimento global e doenças antes incuráveis. Com computadores superinteligentes que entendem o universo em níveis que os seres humanos não podem sequer conceber, essas máquinas podem se tornar não apenas ferramentas para aliviar os fardos da humanidade; elas se aproximam da onisciência e da onipotência de um deus. Nem todo mundo, no entanto, é tão otimista. Elon Musk chamou a superinteligência de “o maior risco que enfrentamos como civilização”,2 comparando sua criação à “convocação de um demônio”.3 Celebridades intelectuais, como o falecido cosmólogo Stephen Hawking, juntaram-se a Musk no campo distópico, sendo que muitos deles foram inspirados pelo trabalho do filósofo de Oxford Nick Bostrom, cujo livro Superintelligence, de 2014, capturou a imaginação de muitos futuristas. Na maior parte, os membros do campo distópico não estão preocupados com um domínio da IA, como imaginado em filmes como a série Terminator, com robôs semelhantes a humanos “se transformando em perversos” e caçando pessoas para destruir a humanidade e alcançar o poder. A superinteligência seria o produto da criação humana, não da evolução natural, e, portanto, não teria os mesmos instintos de sobrevivência, reprodução ou dominação que motivam os humanos ou os animais. Em vez disso, é provável que apenas procurasse atingir os objetivos dados da maneira mais eficiente possível. O medo é de que, se os seres humanos representarem um obstáculo para alcançar um desses objetivos — reverter o aquecimento global, por exemplo —, um agente superinteligente possa facilmente, até de forma acidental, nos apagar da face da Terra. Para um programa de computador cuja imaginação intelectual superasse a nossa, isso não exigiria nada tão violento quanto robôs armados. O profundo conhecimento da superinteligência de química, física e nanotecnologia permitiria maneiras muito mais engenhosas de atingir instantaneamente seus objetivos. Pesquisadores se referem a isso como o “problema de controle” ou “problema de alinhamento de valor”, e é algo que preocupa até mesmo os otimistas da AGI. Embora os cronogramas para essas capacidades variem amplamente, o livro de Bostrom apresenta pesquisas com investigadores de IA, dando uma previsão mediana de 2040 para a criação da AGI, com a superinteligência provavelmente sendo alcançada dentro de três décadas. VERIFICAÇÃO DE REALIDADE  Quando as visões utópicas e distópicas do futuro superinteligente são discutidas publicamente, inspiram tanto admiração quanto um sentimento de medo nas audiências. Essas fortes emoções então confundem as linhas em nossa mente, separando esses futuros fantásticos de nossa atual era de implementação da IA. O resultado é uma confusão popular generalizada sobre onde estamos hoje e para onde as coisas estão indo. Para ser claro, nenhum dos cenários descritos acima — as mentes digitais imortais ou as superinteligências onipotentes — são possíveis com base nas tecnologias de hoje. Ainda não há algoritmos conhecidos de AGI ou uma rota de engenharia clara para chegar lá. A singularidade não é algo que pode ocorrer espontaneamente, com veículos autônomos baseados em aprendizado profundo de repente “acordando” e percebendo que podem se unir para formar uma rede superinteligente. Chegar à AGI exigiria uma série de inovações científicas fundamentais em inteligência artificial, de avanços na escala do aprendizado profundo, ou até algo maior. Essas inovações precisariam remover as principais restrições dos programas de “IA restrita” que executamos hoje e capacitá-los com uma ampla gama de novas habilidades: aprendizado multidomínio; aprendizagem independente do domínio; compreensão de linguagem natural; raciocínio de senso comum, planejamento e aprendizado com um pequeno número de exemplos. Dar o próximo passo para robôs emocionalmente inteligentes pode exigir autoconsciência, humor, amor, empatia e apreciação pela beleza. Estes são os principais obstáculos que separam o que a IA faz hoje — encontrar correlações em dados e fazer previsões — e inteligência geral artificial. Qualquer uma dessas novas habilidades pode exigir múltiplos avanços gigantescos; a AGI implica resolver todos eles. O erro de muitas previsões da AGI é simplesmente pegar a rápida taxa de avanço da década passada e extrapolá-la para a frente ou lançá-la exponencialmente para cima, em uma bola de neve incontrolável de inteligência computacional. O aprendizado profundo representa um grande avanço no aprendizado de máquina, um movimento para um novo patamar com uma variedade de usos no mundo real: a era da implementação. Porém, não há provas de que essa mudança ascendente represente o começo do crescimento exponencial que inevitavelmente levará à AGI e, em seguida, à superinteligência, a um ritmo cada vez maior. A ciência é difícil e os avanços científicos fundamentais são ainda mais difíceis. Descobertas como o aprendizado profundo que realmente elevem o padrão da inteligência de máquina são raras e estão, com frequência, separadas por décadas, até por mais tempo. Implementações e melhorias nesses avanços são abundantes, e pesquisadores em lugares como a DeepMind demonstraram poderosas novas abordagens para coisas como aprendizado por reforço. Mas, nos doze anos desde o artigo de Geoffrey Hinton e seus colegas sobre o aprendizado profundo,5 não vi nada que representasse uma mudança similar na inteligência das máquinas. Sim, os cientistas de IA pesquisados por Bostrom previram uma data mediana de 2040 para a AGI, mas acredito que os cientistas tendem a ser excessivamente otimistas a respeito do prazo no qual uma demonstração acadêmica se tornará um produto no mundo real. No final dos anos 1980, eu era o principal pesquisador mundial em reconhecimento de fala de IA, e entrei para a Apple porque acreditava que a tecnologia seria popular em cinco anos. No final, eu errei por duas décadas. Não posso garantir que os cientistas definitivamente não farão os avanços que trariam a AGI e, em seguida, a superinteligência. Na verdade, acredito que devemos esperar melhorias contínuas na tecnologia atual. Mas acredito que ainda estamos a muitas décadas, senão séculos, distantes dessa realidade. Há também uma possibilidade real de que a AGI seja algo que os seres humanos nunca alcançarão. A inteligência geral artificial significaria uma tremenda mudança na relação entre humanos e máquinas — o que muitos preveem que seria o evento mais significativo na história da humanidade. É um marco que acredito que não devemos ultrapassar a menos que resolvamos, em primeiro lugar, todos os problemas de controle e segurança. Mas pela relativamente lenta taxa de avanços científicos fundamentais, eu e outros especialistas em IA, entre eles Andrew Ng e Rodney Brooks, acreditamos que a AGI continua mais distante do que se imagina. Isso significa que não vejo nada além de progresso material estável e glorioso florescimento humano em nosso futuro de IA? De modo nenhum. Ao contrário, acredito que a civilização em breve enfrentará um tipo diferente de crise induzida pela IA. Essa crise não terá o drama apocalíptico de um sucesso de bilheteria de Hollywood, mas, mesmo assim, vai destruir nossos sistemas econômicos e políticos e até chegar a questionar o que significa ser humano no século XXI. Resumindo, é a futura crise de empregos e de desigualdade. Nossas capacidades atuais de IA não podem criar uma superinteligência que destrua nossa civilização. Mas meu medo é de que nós, seres humanos, podemos ser mais do que capazes de realizar essa tarefa.    Comentário O que é humano é único? Qual sua opinião?   PEQUIM DOBRÁVEL: VISÕES DE FICÇÃO CIENTÍFICA E ECONOMIA COM A IA  Quando o relógio bate seis da manhã, a cidade se devora. Edifícios densamente compactados de concreto e aço dobram-se na altura do quadril e giram em suas espinhas. Varandas e toldos externos são virados para dentro, criando exteriores suaves e hermeticamente fechados. Os arranha-céus se dividem em componentes, embaralhando e se consolidando em Cubos de Rubik de proporções industriais. Dentro desses blocos estão os moradores do Terceiro Espaço de Pequim, a subclasse econômica que trabalha durante a noite e dorme durante o dia. À medida que a paisagem urbana se dobra, uma colcha de retalhos de quadrados na superfície da Terra começa sua rotação de 180 graus, virando-se para esconder essas estruturas consolidadas no subsolo. Quando o outro lado desses quadrados se vira para fora, revela uma cidade separada. Os primeiros raios do alvorecer surgem no horizonte quando essa nova cidade se levanta. Ruas arborizadas, vastos parques públicos e lindas casas unifamiliares começam a se desdobrar, espalhando-se para fora até cobrirem completamente a superfície. Os moradores do Primeiro Espaço despertam de seu sono, espreguiçando-se e olhando para um mundo próprio. Essas são as visões de Hao Jingfang, uma escritora chinesa de ficção científica e pesquisadora de economia. O romance de Hao, Folding Beijing [Pequim dobrável],6 ganhou o prestigioso Prêmio Hugo em 2016 por sua impressionante representação de uma cidade na qual as classes econômicas são separadas em mundos diferentes. Em uma Pequim futurista, a cidade está dividida em três castas econômicas que dividem o tempo na superfície da cidade. Cinco milhões de habitantes do elitista Primeiro Espaço desfrutam de um ciclo de 24 horas, começando às seis da manhã, um dia e uma noite em uma cidade limpa, hipermoderna e organizada. Quando o Primeiro Espaço se dobra internamente, os 20 milhões de moradores do Segundo Espaço ganham dezesseis horas para trabalhar em uma paisagem urbana um pouco menos glamorosa. Finalmente, os habitantes do Terceiro Espaço — 50 milhões de trabalhadores de saneamento, fornecedores de alimentos e funcionários subalternos — surgem para um turno de oito horas, das dez da noite às seis da manhã, trabalhando no escuro entre os arranha-céus e as montanhas de lixo. Os trabalhos de triagem de lixo que são um pilar do Terceiro Espaço poderiam ser inteiramente automatizados, mas são feitos por humanos para dar emprego aos desafortunados habitantes condenados a essa vida.  Comentário A China como Estado estimulará a implementação do A.I.   A SABEDORIA DO CÂNCER AS QUESTÕES PROFUNDAS levantadas pelo nosso futuro com a IA — perguntas sobre a relação entre trabalho, valor e o que significa ser humano — me afetaram de uma forma muito próxima. Durante a maior parte da minha vida adulta, fui motivado por uma ética de trabalho quase fanática. Dediquei quase todo meu tempo e energia ao meu trabalho, deixando muito pouco para a família ou os amigos. Meu sentido de autoestima derivava das minhas conquistas no trabalho, de minha capacidade de criar valor econômico e de expandir minha própria influência no mundo. Passei minha carreira de pesquisador trabalhando para construir algoritmos de inteligência artificial cada vez mais poderosos. Ao fazer isso, comecei a ver minha própria vida como uma espécie de algoritmo de otimização com objetivos claros: maximizar a influência pessoal e minimizar qualquer coisa que não contribuísse para essa meta. Procurei quantificar tudo na minha vida, equilibrando essas “entradas” e ajustando o algoritmo. Não negligenciei inteiramente minha esposa ou minhas filhas, mas sempre procurei passar tempo suficiente com elas para que não se queixassem. Assim que sentia que havia chegado a esse limite, voltava ao trabalho, respondendo a e-mails, lançando produtos, financiando empresas e fazendo discursos. Mesmo nas profundezas do sono, meu corpo naturalmente acordava duas vezes toda noite — às duas e às cinco da manhã — para responder a e-mails dos Estados Unidos. Essa dedicação obsessiva ao trabalho foi recompensada. Tornei-me um dos maiores pesquisadores de IA do mundo, fundei o melhor instituto de pesquisa em ciência da computação na Ásia, comecei o Google China, criei meu próprio fundo de capital de risco, escrevi vários livros que venderam bem em chinês e me tornei uma das personalidades mais seguidas em redes sociais na China. Por qualquer métrica objetiva, meu chamado algoritmo pessoal foi um grande sucesso. Então as coisas chegaram a um impasse. Em setembro de 2013, fui diagnosticado com linfoma estágio IV. Em um instante, meu mundo de algoritmos mentais e realizações pessoais desabou. Nenhuma dessas coisas poderia me salvar agora, ou me dar conforto e algum tipo de sentido. Como tantas pessoas forçadas a de súbito enfrentar sua própria mortalidade, fui tomado pelo medo por meu futuro e por um arrependimento profundo e doloroso pela maneira como tinha vivido minha vida. Ano após ano, tinha ignorado a oportunidade de passar tempo e compartilhar amor com as pessoas mais próximas de mim. Minha família não me deu nada além de afeto e amor, e eu tinha respondido com cálculos frios. Na verdade, hipnotizado pela minha busca por criar máquinas que pensassem como seres humanos, tinha me tornado um homem que pensava como uma máquina. Meu câncer entraria em remissão, poupando minha vida, mas as epifanias desencadeadas por esse confronto pessoal com a morte permaneceriam comigo. Elas me levaram a reorganizar minhas prioridades e a mudar totalmente minha vida. Passo muito mais tempo com minha esposa e minhas filhas, e me mudei para ficar mais perto da minha mãe idosa. Reduzi drasticamente minha presença nas redes sociais, dedicando esse tempo a encontrar e a tentar ajudar os jovens que me procuram. Pedi perdão àqueles que ofendi e procurei ser um colaborador mais gentil e empático. Acima de tudo, parei de ver minha vida como um algoritmo para otimizar minha influência. Em vez disso, tento gastar minha energia fazendo a única coisa que descobri que realmente traz sentido à vida de uma pessoa: compartilhar amor com aqueles que nos rodeiam. Essa experiência de proximidade com a morte também me deu uma nova visão de como os humanos podem coexistir com a inteligência artificial. Sim, essa tecnologia criará um enorme valor econômico e destruirá um número impressionante de empregos. Se permanecermos presos em uma mentalidade que iguala nosso valor econômico ao nosso valor como seres humanos, essa transição para a era da IA devastará nossas sociedades e causará estragos em nosso equilíbrio emocional. Mas há outro caminho, uma oportunidade de usar a inteligência artificial para redobrar o que nos torna realmente humanos. Esse caminho não será fácil, mas acredito que representa nossa maior esperança de não apenas sobreviver na era da IA, mas de fato prosperar. É uma jornada que tomei em minha própria vida, que mudou meu foco das máquinas de volta para as pessoas, e da inteligência de volta para o amor. 16 DE DEZEMBRO DE 1991 O caos rotineiro de um parto girava ao meu redor. Enfermeiros e médicos com as roupas apropriadas entravam e saíam da sala, verificando as medições e trocando o soro. Minha esposa, Shen-Ling, estava deitada no leito do hospital, lutando contra o ato físico e o mental mais exaustivo que um ser humano pode realizar: trazer outro ser humano ao mundo. Era 16 de dezembro de 1991 e eu ia me tornar pai pela primeira vez. Nosso médico me disse que seria um parto complexo porque o bebê estava ao contrário, com a cabeça voltada para a barriga, em vez de para baixo. Isso significava que Shen-Ling poderia precisar de uma cesariana. Eu caminhava de um lado para outro, ansioso, ainda mais no limite do que a maioria dos outros pais esperando o grande dia. Eu estava preocupado com Shen-Ling e com a saúde do bebê, mas minha mente não estava inteiramente naquela sala de parto. Isso porque era o dia em que eu deveria fazer uma apresentação para John Sculley, meu CEO na Apple e um dos homens mais poderosos do mundo da tecnologia. Um ano antes, eu tinha entrado na Apple como cientista-chefe de reconhecimento de fala, e essa apresentação era minha chance de ganhar o endosso de Sculley para nossa proposta de incluir a síntese de fala em todos os computadores Macintosh e o reconhecimento de fala em todos os novos tipos de Mac. O parto da minha esposa continuava, e eu ficava olhando para o relógio. Esperava desesperadamente que ela tivesse o bebê logo para que eu estivesse lá na hora do nascimento e voltasse a tempo para a reunião. Enquanto caminhava pela sala, meus colegas de trabalho telefonaram e perguntaram se devíamos cancelar a reunião ou, talvez, que meu braço direito fizesse a apresentação para Sculley. “Não”, disse a eles. “Acho que consigo.” Mas à medida que o parto se arrastava, parecia cada vez mais improvável que isso acontecesse, e eu estava genuinamente dividido sobre o que deveria fazer: ficar ao lado de minha esposa ou correr para uma reunião importante. Diante de um “problema” como esse, minha mente bem treinada de engenheiro girava em alta velocidade. Eu pesava todas as opções em termos de entradas e saídas, maximizando meu impacto em resultados mensuráveis. Testemunhar o nascimento da minha primeira filha seria ótimo, mas ela nasceria se eu estivesse lá ou não. Por outro lado, se eu faltasse à apresentação para Sculley, isso poderia ter um impacto substancial e quantificável. Talvez o software não respondesse bem à voz do meu substituto — eu tinha um jeito para conseguir um melhor desempenho que ele —, e Sculley poderia arquivar indefinidamente a pesquisa de reconhecimento de fala. Ou talvez ele pudesse dar luz verde ao projeto, mas depois pôr outra pessoa a cargo. Imaginei que o destino da pesquisa de inteligência artificial estivesse em jogo, e maximizar as chances de sucesso significava simplesmente que eu deveria estar naquela sala para a apresentação. Eu estava no meio desses cálculos mentais quando o médico me informou que iriam realizar uma cesariana imediatamente. Acompanhei minha esposa até uma sala de cirurgia e, em uma hora, estávamos segurando nossa filhinha. Passamos alguns momentos juntos, e com pouco tempo sobrando, fui para a apresentação. Tudo terminou muito bem. Sculley deu luz verde ao projeto e exigiu uma campanha publicitária completa em torno do que eu havia criado. Essa campanha levou a uma bem-sucedida palestra TED. Comentário O maior desenvolvedor de A.I. do mundo parando de frente com sua humanidade.   UM PROJETO PARA A COEXISTÊNCIA ENTRE OS HUMANOS E A IA Enquanto eu estava passando pela quimioterapia para tratar meu câncer em Taiwan, um velho amigo que é um empreendedor em série me procurou com um problema em sua última startup. Ele tinha fundado e vendido várias empresas bem-sucedidas de tecnologia, mas, à medida que envelhecia, queria fazer algo mais significativo, ou seja, queria criar um produto que servisse às pessoas, o que as startups de tecnologia muitas vezes ignoravam. Tanto meu amigo quanto eu estávamos entrando na idade em que nossos pais precisavam de mais ajuda para cuidar de suas rotinas diárias, e ele decidiu criar um produto que tornasse a vida mais fácil para os idosos. O que ele inventou foi uma grande tela sensível ao toque montada em um suporte que poderia ser instalada ao lado da cama de uma pessoa idosa. Na tela, havia alguns aplicativos simples e práticos conectados a serviços que os idosos poderiam usar: pedir comida, passar suas novelas favoritas na TV, ligar para o médico e muito mais. As pessoas mais velhas muitas vezes lutam para navegar pelas complexidades da internet ou para manipular os pequenos botões de um smartphone, então meu amigo fez tudo o mais simples possível. Todos os aplicativos exigiam apenas alguns cliques, e ele até incluía um botão que permitia que os usuários idosos ligassem diretamente para um agente de atendimento ao cliente para orientá-los no uso do dispositivo. Parecia um produto maravilhoso com um mercado real no momento. Infelizmente, há muitos filhos adultos na China e em outros lugares que estão ocupados demais com o trabalho para se dedicar ao cuidado dos pais idosos. Eles podem sentir culpa pela importância da piedade filial, mas, mesmo assim, simplesmente não conseguem encontrar tempo para cuidar dos pais da maneira adequada. A tela sensível ao toque seria um ótimo substituto. Porém, depois de implementar uma versão de teste de seu produto, meu amigo descobriu que ele tinha um problema. De todas as funções disponíveis no aparelho, a que, de longe, foi mais usada foi a que pedia ajuda. Os idosos queriam o contato humano. Comentário Por isso, disse que o A.I. mudará nossa forma de agir no mundo.   NOSSA HISTÓRIA GLOBAL COM A IA EM 12 DE JUNHO DE 2005, Steve Jobs se aproximou de um microfone no Stanford Stadium e fez um dos mais memoráveis discursos de formatura já proferidos. Na conversa, ele repassou sua carreira cheia de zigue-zagues, do abandono da faculdade à cofundação da Apple, de sua saída pouco amigável daquela empresa à fundação da Pixar e, finalmente, seu triunfante retorno à Apple uma década mais tarde. Falando para uma multidão de estudantes ambiciosos de Stanford, muitos dos quais estavam ansiosamente planejando sua própria ascensão aos picos do Vale do Silício, Jobs advertiu contra a tentativa de traçar a vida e a carreira com antecedência. “Você não pode conectar os pontos olhando para a frente”, disse Jobs aos alunos. “Você só pode conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos de alguma forma se conectarão no seu futuro.”1 A sabedoria de Jobs ecoou em mim desde que a ouvi pela primeira vez, mas nunca tanto quanto hoje. Ao escrever este livro, tive a oportunidade de conectar os pontos de quatro décadas de trabalho, crescimento e evolução. Essa jornada abrangeu empresas e culturas, de pesquisador de IA e executivo de negócios a capitalista de risco, autor e sobrevivente de câncer. Incluiu questões globais e profundamente pessoais: a ascensão da inteligência artificial, os destinos entrelaçados dos lugares que chamei de lar e minha própria evolução de um workaholic a pai, marido e ser humano mais amoroso. Todas essas experiências se juntaram para moldar minha visão do nosso futuro global com a IA, conectar os pontos olhando para trás e usar essas constelações como orientação daqui para a frente. Minha experiência em tecnologia e experiência em negócios tem cristalizado como essas tecnologias estão se desenvolvendo na China e nos Estados Unidos. Meu súbito confronto com o câncer me levou a entender por que devemos usar essas tecnologias para promover uma sociedade mais amorosa. Finalmente, minha experiência de mudança e transição entre duas culturas diferentes imprimiu em mim o valor do progresso compartilhado e a necessidade de entendimento mútuo além das fronteiras nacionais.    UM FUTURO DA IA SEM UMA CORRIDA DA IA  Ao escrever sobre o desenvolvimento global da inteligência artificial, é fácil cair em metáforas militares e em uma mentalidade de soma zero. Muitos comparam a “corrida da IA” de hoje com a corrida espacial dos anos 19602 ou, pior ainda, à corrida armamentista da Guerra Fria que criou armas cada vez mais poderosas de destruição em massa.3 Até hoje, a palavra “superpotências” ainda é muito utilizada, uma expressão que muitos associam à rivalidade geopolítica. Eu uso esse termo, no entanto, especificamente para refletir o equilíbrio tecnológico das capacidades da IA, não para sugerir uma guerra até as últimas consequências pela supremacia militar. Mas essas distinções são facilmente borradas por aqueles mais interessados em posturas políticas do que no desenvolvimento humano. Se não formos cuidadosos, essa retórica unilateral em torno de uma “corrida da IA” nos enfraquecerá no planejamento e na modelagem de nosso futuro junto com a IA. Uma corrida tem apenas um vencedor: a vitória da China é a derrota dos Estados Unidos e vice-versa. Não existe a noção de progresso compartilhado ou prosperidade mútua — apenas um desejo de ficar à frente do outro país, independentemente dos custos. Essa mentalidade levou muitos comentaristas nos Estados Unidos a usarem o progresso em IA da China como um chicote retórico para estimular os líderes norte-americanos a agir. Argumentam que os Estados Unidos estão em risco de perder sua vantagem na tecnologia que irá alimentar a competição militar do século XXI. Mas isso não é uma nova Guerra Fria. Hoje, a IA tem inúmeras aplicações militares em potencial, mas seu verdadeiro valor não está na destruição, mas na criação. Se entendida e aproveitada adequadamente, pode na verdade nos ajudar a gerar valor econômico e prosperidade em uma escala nunca vista na história da humanidade. Nesse sentido, nosso atual boom de IA tem muito mais a ver com o surgimento da Revolução Industrial ou com a invenção da eletricidade do que com a corrida armamentista da Guerra Fria. Sim, empresas chinesas e norte-americanas competirão entre si.