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Solitude e Kaivalya – Podcast #50

Solitude e Kaivalya – Podcast #50

Nesse episódio fala-se sobre a importância de momentos de isolamento para o processo de autoconhecimento.

 

 

 

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Kaivalya

From Wikipedia, the free encyclopedia
Kaivalya (कैवल्य), is the ultimate goal of Raja yoga and means “solitude”, “detachment” or “isolation”, a vrddhi-derivation from kevala “alone, isolated”. It is the isolation of purusha from prakṛti, and subsequent liberation from rebirth.

 

 

Ouvindo o bobo da corte – Podcast #14

 

 

 

 

 

 

O Yoga do Autoconhecimento – Audiobook

Transcrição:

Solitude e Kaivalya – Podcast #50

 

Essa música é a 5º Sinfonia de Sibelius e ela vai abrir o 50º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”, um podcast semanal a respeito de espiritualidade e com algumas curiosidades do dia-a-dia essenciais para vivermos melhor.

O episódio de hoje fala sobre isolamento, kaivalya, que é uma palavra bastante conhecida no meio do yoga, o primeiro livro de yoga, o Yoga Sutra, tem quatro capítulos e como se fosse quatro níveis de evolução. O quarto e último capítulo, que seria o objetivo final, chama-se Kaivalya, que significa isolamento. Neste caso a gente pode ampliar esta visão de isolamento e ela não seria o isolamento de indivíduo, aquele isolamento que Patanjali se refere, que é aquele ainda maior da consciência, se distanciando da matéria. Hoje, nós vamos falar sobre esse isolamento específico, que quando sem tem momentos de solitude, que é muito diferente de solidão. Solitude é a solidão voluntária; a solidão, é quando ninguém quer ficar perto de você e acaba ficando completamente isolado. A solitude é um momento de opção feita quando é necessário se retirar.

Os antigos iogues eras considerado saniassem, que são os renunciantes, aqueles que abrem mão de tudo o que existe no meio social para se dedicar apenas a vida espiritual, apenas a busca da essência. Esses homens são bastante comuns até hoje na Índia, alguns são charlatães querendo ganhar uns trocados, mas existem renunciantes de verdade, essas pessoas são mais raras, geralmente de uma casta elevada ou de um extrato social mais alto, ele teve que abrir mão de algumas coisas para se dedicar a vida de retirante.

Shiva era considerado um saniassem, ele ia aos povoados, às cidades e às pequenas aldeias ensinar o que ele aprendeu nesses retiros. Isso é bastante comum na literatura indiana, esse momento de retiro para reflexão ou para um entendimento mais profundo e um retorno para transmitir o conhecimento. O famoso livro de Nietzsche, “Assim Falou Zaratustra”, conta a história de um homem que também se retira nas montanhas e volta como um grande sábio e começa a ensinar através da poesia, da mesma forma fazia os rishis, os primeiros sábios que escreveram os vedas ou que ditaram os vedas, porque naquela época no era comum nem os sábios saberem escrever.

Esses retirantes saiam da sociedade, viviam uma época fora, numa floresta ou em alguma montanha ou se isolavam em alguma caverna e voltavam depois para transmitir os seus insights.

A solitude é ideal para o auto estudo, essencial para o auto aprendizado. É claro que aprendemos muito quando estamos com os outros, isso é notável, nitidamente você recebe feedback das pessoas queridas, elas querem o seu melhor. Claro que nós não temos que seguir todas as orientações, mas é sempre bom levar em conta um feedback, mesmo que aquilo incomode, mas o fato é que a reflexão profunda, a verdadeira essência é encontrada quando você está consigo mesmo. Ninguém vai poder te indicar qual é a sua verdadeira direção na vida, para isto, precisa de momentos de introspecção que a meditação e o yoga possibilitam, mas vale a pena exercer momentos de solitude no seu dia-a-dia ou na sua semana ou no seu mês, eventualmente até viajar sozinho para ver que tipo de reflexão aquilo irá causar. Os momentos em que a gente está sozinho, a gente cresce e aprende muito com a gente mesmo, eles são essenciais para entender a verdadeira natureza, para entender que determinados comportamentos só existem com o objetivo de agradar aos outros ou porque se está em um ambiente que influencia este tipo de atitude, mas ele muitas vezes não é um comportamento seu. Não estou falando de um isolamento a ponto de entrar num estado de depressão, inclusive Sibelius, que é o autor da música que abriu este podcast e que irá tocar no final, tinha uma casa em que se isolava. Ele era da Finlândia e na década de 40 e 50, pós Guerra, ele se isolava para compor. Sibelius, inevitavelmente, tinha um ouvido muito aguçado como tem os bons compositores, e ele ficava irritado com o barulho do encanamento da casa dele, ele se incomodava com o barulho que a água fazia ao percorrer a tubulação. Chegou a confessar a um crítico, em uma entrevista, que o seu isolamento e solidão estavam o deixando ele maluco.

O ponto aqui é falar sobre equilíbrio, claro que pode ser clichê, mas a sociedade como um todo, até com a questão das redes sociais, que aproxima muito as pessoas, o momento de kaivalya não existe mais nos dias de hoje. As pessoas não cogitam viajar sozinhas ou passar um final de semana sem ninguém.   O fato é que todos os dias, para a maior parte das pessoas, você terá que cruzar ou encontrar com outras pessoas, isso é o natural hoje da vida em sociedade. Fazer o movimento contrário não de forma extrema, mas apenas alguns dias de isolamento podem ser muito bons para a sua auto percepção, para o seu autoconhecimento.

Nesse final de ano eu fiquei assistindo a um educador que gosto bastante chamado Murilo Gun e ele está no processo de escrever o seu próximo livro, e eu estava finalizando o meu livro também, e a escrita é uma das atividades mais difíceis que tem porque não se consegue escrever nada bom quando não se está no máximo da energia e de concentração. Por exemplo, e possível ajustar imagens quando se está cansado, ou até mesmo fazer a correção de um texto, mas escrever e criar é praticamente impossível. A escrita exige que o momento seja de concentração máxima, de isolamento, você não consegue meditar conversando com outras pessoas. A escrita exige um grau de concentração equiparável ao da meditação, além disso é necessário externalizar uma informação, não apenas absorver, porque o estudo precisa do máximo de atenção, mas o estudo só é mais passivo, você só está absorvendo, diferente da criação, em que se externaliza algo valioso. E então, Murilo Gun estava travado no processo de criação do livro dele, e no final do ano ele alugou um apartamento em um hotel, aqui em São Paulo, cidade que, aliás, ele mora, e ficou quatro dias se dedicando a escrita.

No caso do Murilo a necessidade era a escrita, mas cada um tem a sua necessidade e está em um momento diferente em que precisa fazer algo e o período também é algo para se encaixar no momento de vida de cada um, o ponto é que depois do período de isolamento, Murilo começou a produzir muito mais do que ele tinha produzido em vários meses. O mesmo vale para o autoconhecimento, para o auto estudo, dois dias sem conversar com ninguém, absolutamente focado em si mesmo, fazendo o que se acha importante, coisas que exijam atenção e quietude, isso faz bem a todos nós.

Nesse final de ano eu passei um tempo com a minha família, mas também precisei de um momento de isolamento porque eu estava no processo final de escrita do meu livro e agora finalmente acabou, estou realmente realizado porque ficou muito bom, do jeito que eu esperava. Até comentei com o meu irmão que acredito ter colocado tudo o que eu sabia e agora tenho que voltar a pesquisar e estudar porque a produção de conteúdo é necessário um aprofundamento, não adianta só colocar pra fora, é preciso consumir e ter vivência do que se está transmitindo. Então agora vou finalizar o processo do audiobook, vou grava-lo, e espero a ajuda de vocês que estão ouvindo o podcast (vou deixar o link para quem se interessar).

Quem quiser adquirir, será entregue o audiobook e links de tudo o que é falado no livro, é um material muito rico, quem gosta de se aprofundar no yoga vai gostar bastante deste audiobook que se chama “O Yoga do Autoconhecimento”, aguardo o feedback e deixe os seus comentários e diga o que você achou.

Uma boa semana e até a próxima!

Satya mevajayate  

 

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.