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SÁBIAS PALAVRAS – Podcast #94

SÁBIAS PALAVRAS – Podcast #94

Neste podcast falaremos sobre a força das palavras e o quanto elas podem moldar nosso mundo interno e externo.

 

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TRANSLITERAÇÃO

 

Boa parte da compreensão que temos do mundo vem  de imagens. A visão é o sentido que mais colhe informações para os nossos pensamentos. Quando lemos, estamos codificando uma imagem, que compreendemos que tem um som e que signifique algo. Isso cria nossos pensamentos e conduz nossas ações.

Não são só as palavras, mas imagens que mudam nosso comportamento.

Esse podcast começou a ser concebido na semana passada quando comecei a utilizar para prática de pranayama o um álbum do compositor Olafur Arnalds chamado … and they have escaped the weigth of darknewss em que a capa tem uma imagem que se parece com o os caracteres que os alienígenas do filme A Chegada usam para se comunicar com os humanos.

A imagem me lembrou do texto que escrevi quando vi esse filme.

Comecei a reler o texto e ele remetia a um outro texto que escrevi há mais tempo no meu blog. Em Para Onde nos Levam as Palavras, uso como exemplo da força que esses códigos possuem sobre o nosso comportamento, o musical My Fair Lady, que no cinema foi interpretado por Audrey Hepburn. Esse texto que abrirá a Reflexão de hoje.

Pesquisando sobre Olafur Arnalds descobri que não é dele a trilha sonora do filme, e o álbum que usa a imagem é de 2010, mas se parecem tanto, que certamente serviu de inspiração para o diretor de arte de A Chegada.

Olafur Arnalds é um jovem compositor islândes que já fez turnê com o Sigur Ross o que me deu a ideia do próximo podcast, mas isso vamos deixar para semana que vem.
Agora vamos falar das palavras.

Olafur Arnalds é um jovem compositor islândes que já fez turnê com a banda Sigur Ross e fez a trilha sonora de um musical em homenagem a Ernest Shackleton, isso me deu a ideia do próximo podcast, mas isso vamos deixar para semana que vem.
Agora vamos falar das palavras.

 

 

Para onde nos levam as palavras

My Fair Lady, interpretada no cinema pela musa Audrey Hepburn, surgiu muito antes como musical da Broadway. Os musicais assim como as óperas tem um grande obstáculo na construção de enredos – a música. O principal tema, ocupa muito espaço dentro da trama o que dificulta um enredo mais elaborado. Entretanto, My Fair Lady, com a simplicidade de um musical (queria por dos anos 30 para ficar igual a música do Legião Urbana mas não deu) do início do século XX consegue passar uma mensagem a um só tempo importante e profunda.

Na trama, Henry Higgins, um culto professor de fonética, conhece Eliza Doolettle, moradora de rua e vendedora de flores, e aposta com seu amigo que consegue transformá-la em uma dama (Fair Lady) em apenas 6 meses. Na sociedade de hoje, em que a classe emergente ocupa cada vez mais espaço na hierarquia social mesmo não tendo a bagagem que era exigida outrora, poderíamos questionar – Seis meses? Para que tanto, basta um banho de loja na Quinta Avenida e ela já estaria pronta. Para parecer uma dama sim, apenas um cartão de crédito ilimitado já seria suficiente para Doolete. No entanto, Henry sabia das coisas e como descobrimos ao longo da história, sua intenção não era apenas levá-la numa festa como um enfeite e enganar sua procedência. 


Por onde Higgins começou? Roupas, curso de etiqueta, restaurantes e lugares badalados? Não, nada disso – linguagem. Sim, as palavras que ela usaria e como pronunciaria tais palavras, isso a mudaria de fato. Mudaria a forma que ela veria o mundo, mudaria a forma como o mundo a veria. 


O professor não queria apenas que Eliza fala-se o inglês da nobreza britânica, mas desejava transformá-la. A forma como dizemos as coisas e que expressões usamos para dize-las fala muito mais sobre nós mesmos que aquilo que estamos dizendo. 


E mudar significa necessariamente modificar o padrão dos pensamentos. E as palavras são a matéria-prima dos pensamentos, logo, um vocabulário mais elaborado é o que permite uma linha de pensamento mais complexa. 

 

 “Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.” Vargas Llosa 

Como disse Vargas Llosa acima, a leitura, que vai nos acrescentando vocabulário e consequentemente clareza nos pensamentos e na comunicação, irá contribuir não apenas para nosso desenvolvimento profissional, mas como amantes, amigos, companheiros de conversa. As palavras são poderosas, elas mandam no mundo e mandam em nós também. Não despreze o poder das palavras elas mudam as pessoas. 

  

A transformação pela comunicação

Escrevi aqui no blog, um outro artigo sobre comunicação chamado Para onde nos levam as palavras, o título é ruim, mas a ideia central é boa e por isso vou aprofundá-la um pouco mais no texto de hoje usando como pano de fundo um outro filme. Se você ainda não leu  Para onde nos levam as palavras, vale a pena. O texto também se baseia num filme, My Fair Lady,  para explicar sobre a importância da comunicação e o poder que ela tem de transformação.

A comunicação é uma ferramenta muito importante para o autoconhecimento. Conseguir exprimir em palavras aquilo que se sente ou que se pensa é essencial para a auto compreensão. O ganhador do prêmio Nobel de Literatura, Vargas Llosa em seu artigo Em Defesa do Romance fala exatamente disso (a citação longa, foi inevitável)

 

Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os conhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.

 

Se você pensar numa divisão de mundo entre tangível (material) e intangível (ideias), a comunicação é a ponte entre esses dois universos. Sem um arsenal de palavras e construções verbais que consigam dar significado aos acontecimentos ou ideias, os dois mundo parecerão linhas paralelas que andam juntas, mas nunca se encontrarão. Sem conhecer esses códigos (palavras) a pessoa terá muita dificuldade para entender o que se passa com suas sensações e também de compreender fenômenos externos que também afetam sua vida.

Estudos da psicologia consideram que a formação do EU só começa a acontecer depois que o bebe pronuncia suas primeiras palavras. Antes disso, ele não consegue vivenciar sua individualidade. Sem as palavras ainda se sente totalmente parte da mãe.

 

A palavra, determina.

A comunicação é a ferramenta que faz ideias abstratas se tornarem realizações concretas. A palavra, seja ela pensada, escrita ou pronunciada que permite que os acontecimentos sejam compreendidos. A busca da auto compreensão passará necessariamente pelo desenvolvimento da linguagem. Dialogar com o corpo e compreender mais a fundo as sensações é algo que a prática do Yoga faz em todos os tipos de exercícios. O que é um asana se não uma forma de aprendizado do diálogo corporal.

No Hinduísmo há uma crença de que para que algo exista, precisa ter nome e forma. Isso inclui também conceitos abstratos que também precisam ser nomeados e representados como símbolos visuais.

O que é a sabedoria para os hindus? Saraswati.

A representação envolve a imagem numa ambientação de música, arte, iluminação e poder.

A linguagem visual constrói o conceito de forma mais clara, deixando pistas de como se chegar à sabedoria.

O processo é o mesmo com as palavras, elas criam conceitos na nossa cabeça que aproximam nosso imaginário daquilo que estamos percebendo. Quando você sente um medo e consegue externa-lo com palavras estará mais próximo de vencê-lo, se esse for seu objetivo.

O filme A Chegada, do diretor Denis Villenueve (que já produziu obras-primas como Incêndios e  Blade Runner 2, quebra todos os paradigmas da forma como nos comunicamos e como isso interfere na forma de vermos o mundo. O tema de A Chegada passa pela comunicação entre Nações e como o comportamento influencia a forma como cada indivíduo expressa o que sente.

 

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.