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Por um Yoga menos esquizofrênico – Podcast #15

Por um Yoga menos esquizofrênico – Podcast #15 – Reflexões de um YogIN Contemporâneo

Neste podcast vamos debater o Yoga como profissão – afinal o que faz profissionalmente um professor de Yoga?
Podcast com respostas ao Doutor Roberto Simões sobre Foramção de Professores e aulas de Yoga.

 


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PODCAST COMENTADO

PDF YOGA SUTRA – Tradução Carlos Eduardo Barbosa

 

Transcrição do Podcast

Por um Yoga Menos Esquizofrênico #15

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi e estamos começando o 15º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”, um podcast semanal a respeito do yoga e dos acontecimentos do dia-a-dia.

Esta história eu aprendi com um estudioso e professor de cultura sânscrita, Carlos Eduardo Barbosa. Ele é professor de yoga, tem uma rica tradução do livro Yoga Sutra e é alguém que vale a pena conhecer o trabalho, estudar e saber as opiniões sobre o yoga.

A Índia antiga, de 2000 a.C., na época em que começaram a construir as primeiras Upanishads, que são textos que vem a seguir dos vedas, a gente tem as primeiras construções dos Vedas, do Rigveda, em seguida começam a construir as Upanishads e o Rigveda continua sendo escrito, mas as Upanishads ganham mais importância e depois vão se desdobrando em outros textos. Então mais ou menos nessa época era muito comum o debate dentro das aldeias, existiam, inclusive, dois tipos de intelectuais: os Sramanas que eram os intelectuais locais (professores, sábios, sacerdotes), pessoas que ensinavam determinadas ideias, filosofias e técnicas (entrava a meditação, de certa forma); os (inint) [01:42] que eram intelectuais viajantes, quando chegavam na tribo, desafiavam os Sramanas para um debate público.

Esse debate público era feito como um ritual, existiam regras, até formas de você identificar o vencedor. Quem ganhava, recebia o reconhecimento da população e bens materiais, mas o que era mais importante para o desenvolvimento do yoga eram as ideias que passaram para frente. Uma das regras do debate era que quem perdesse deveria aceitar e assimilar a ideia do adversário e propaga-la. Isso fez com que houvesse na Índia, como um todo, desde aquela época até Patanjali (1500 anos depois) diversos debates, Patanjali sistematiza o que desses debatias tinha de fundamentos do yoga, e escreve o Yoga Sutra que não será debatido hoje, apenas para você ver como a construção das ideias influenciou a formação do yoga. O que a gente pratica hoje é influenciado por esses debates, então o debate faz bem para as ideias, tudo o que a gente questiona, a gente acaba aprofundando. O debate é construtivo e é muito importante para a construção dos significados, inclusive um dos papeis da filosofia é trazer os significados dos conceitos. E é isso que a gente vai fazer hoje, eu me propus a responder alguns questionamento que o Roberto faz no podcast dele.

Roberto: “E nos últimos dez anos me dedico ao yoga no mestrado e doutorado e Ciência da Religião, se escrevo estas parcas linhas aqui ou falo com vocês, é pelo amor que nutro a cultura yoga. O que desprezo é o silencio que o microuniverso yoga brasileiro está mergulhado algumas décadas, preferia muito mais o tempo em que os yogues no Brasil deixavam claro as suas ideologias sem medo de serem exposto, ou perderem alunos e dinheiro. E reservavam a quietude apenas para as suas práticas meditativas.”

Comentário: Eu tenho um imenso respeito por ele, como já falei em outros podcasts, eu aprendo muito com ele, inclusive não vai ser possível comentar o todo o podcast, a maior parte do que ele fala eu concordo. Porém, destaquei alguns pontos que acho importantes, tanto no que concordo quanto no que eu discordo. A ideia é que a gente cresça, é dar um esclarecimento para o leitor, não só sobre o yoga, mas em relação a outros assuntos e, também, dar pra você uma base conceitual para que você crie as suas ideias, o seu próprio significado para a prática, ou filosofia, do yoga como um todo. Isso é muito engrandecedor.

Eu não falei para o Roberto que eu faria isso, a minha ideia é que o debate seja o mais transparente possível. Conheço o Roberto pessoalmente, não profundamente, ele não é o meu amigo particular, mas tem um curso dele no YogIN App que é o Neurofisiologia da Meditação, é excelente e eu indico para todos que acompanham este podcast porque ele tem uma linha de raciocínio e comprovação científica. O Roberto é um cientista, é doutor pela PUC em Ciências da Religião, então o curso é rico e traz uma visão cientifica do que hoje se pode provar a respeito da meditação e o que os estados de consciência podem ser. Vou deixar o link na descrição, vamos ver as principais questões a serem debatidas e eu vou fazendo alguns cortes. Como disse, não avisei a ele, para ter o debate o mais limpo possível, se ele achar que vale a pena responder…a ideia não é fazer um vencedor, mas trazer um outro ponto de vista em relação a alguns conceitos e opiniões. Como vimos, os Sramanas e os (inint) [07:00] debateram e fizeram o yoga crescer em termos de conceito, fez com que o yoga se tornasse mais relevante na vida das pessoas, porque, obviamente, as pessoas adotavam aqueles conceitos que tinhas mais sentido para a vida delas, com o que tinha sentido na vida delas. O intelectual apresentava as ideias e as pessoas adotavam aquilo que tinha sentido. Então aqui não é uma disputa, são dois pontos de vista sobre alguns assuntos para você pensar, procurar entender, o mais importante é você ter a sua própria opinião, ter diferentes referências, que são essenciais para a gente construir, admirar quem fez grandes construções e fez obras importantes na área que você está estudando, mas não ser uma cópia exata daquilo (você pode copiar um momento, mas a criação será a partir de cada um, a partir do que cada um tem).

Certamente o Roberto é uma das minha referências hoje, como eu entendo o yoga vem muito do que eu estudei com ele (e com alguns outros professores também), o que demonstra que não será um a tarefa simples contrapor as ideia que ele vai colocar no podcast.

Roberto: Yoga esquizofrênico, o que são os yogues no Brasil profissionalmente falando? Professores, terapeutas ou guias espirituais? São, estas, perguntas interessantes a se fazer e elas não são retóricas, há realmente um silêncio, um vácuo sobre o assunto. A resposta geral é esquizofrênica: “somos tudo isso e nada ao mesmo tempo”. Bem, vamos tentar dialogar sobre a questão nos próximos minutos. Se o yogue for profissionalmente categorizado como professor, ele ensina o que especificamente? Uma filosofia prática, que visa dar sentido à vida das pessoas com promessa de uma vida boa? Essa resposta, talvez, é a mais articulada mas, ao mesmo tempo, mais vaga possível.

Comentário: Não deixar a questão muito vaga porque quem está procurando não consegue entender. E pra quem está exercendo a profissão, é muito importante que tenha muito claro qual é o objetivo dela. Acho que o yoga pode ser isso que ele mencionou, uma filosofia que dá sentido às pessoas, mas não é necessariamente isso que a gente ensina, muitas vezes na aula você vai ensinar meditação, a pessoa tem um intuito de aquietar a mente (que no meu ponto de vista é um dos principais objetivos do yoga) ou ela tem um intuito de fazer um alongamento para se sentir mais relaxada. Isso tudo, de fato, pode ser entendido como o que um professor de yoga faz, então, a profissão seria professor, mas um professor de uma prática livre, de uma profissão livre que, ainda, não está vinculada a nenhum órgão fiscalizador do governo (o que acho favorável e positivo, vou abordar isso mais pra frente). Mas o que de fato um professor de yoga faz? Ele ensina as técnicas, alguns alunos tem um interesse de conhecer profundamente com objetivo de fazer uma revisão de sua verdade pessoal. O papel que eu considero não é fazer um papel de coaching, o meu trabalho é – com as técnicas – trazer uma reflexão, uma percepção que o próprio aluno vai fazer e deixar vir à tona. A técnica é o que eu ensino e isso é o que vai gerar, potencialmente, as reflexões e as mudanças que cada aluno está preparado para fazer ou está com vontade de fazer. Então eu não vejo o yoga como um guia espiritual, que indica comportamentos para o aluno, vejo como um professor que traz técnica e reflexões. Um professor que tem uma profundidade filosófica para conseguir explicar e trazer reflexões para além da técnica, mas que esteja relacionada com a técnica com a proposta do yoga que é, no meu ponto de vistam um aquietamento da mente e a permissão de informações internas, que a gente não deixa vir à tona e que a diferentes técnicas trazem isso, o que acaba trazendo autoconhecimento, reflexões pessoais, modificações e melhorias na vida.

Roberto: Uma prática regular de yoga, aquela que você paga, de 150 a 400 reais por mês por duas ou três vezes por semana, envolve 60 a 90 por cento de posturas físicas, se tiver sorte, e 10% de relaxamento e meditação, que não deixa de ser física.

Comentário: Eu não pude evitar o merchandising e falar que concordo com tudo isso e no YogIN App a gente tem planos a partir de 29 reais e você pode fazer quantas vezes quiser. Essa é a grande vantagem de praticar on line é que o material está lá, num acervo, e ele pode ser revisitado pelo aluno quantas vezes quiser. A ideia não é criar um fanatismo, mas uma opção de repetir aulas que o aluno gosta. Então, muitas vezes você faz um aula de yoga e você pensa “puts, como eu poderia registrar isso, como eu poderia refazer essa aula” e não é possível se o professor não gravou, infelizmente ele perdeu a aula pra sempre. Isso me deixava muito frustrado, muitas vezes eu ministrava aulas e falava “essa aula eu mesmo queria fazer”, só que agora com o YogIN App a gente tem a opção de aulas gravadas que podem ser praticadas pelo aluno de qualquer plano, as aulas são livres para todos os planos, por quantas vezes ele quiser

Roberto: Se mesmo assim você bater da tecla do yogue ser professor, o órgão, aliança, escola que o fiscaliza, deve estar vinculado ao ministério da educação.

Comentário: Por que deve ser vinculado ao Ministério da Educação. Vou dar alguns exemplos do que hoje está acontecendo na prática. Então você pega, por exemplo, professores de inglês que vendem seus cursos online, ou que dão aulas particulares. Esse professor, precisa, realmente passar por uma universidade, como a USP, fazer letras para dar aula de inglês? Ou se ele for praticando e tiver um feedback positivo dos alunos e ir aprimorando a técnica dele isso não tem muito mais valor que um professor da USP dizendo que leu muito Mark Twain e que merece um canudo como um professor de inglês agora formado pela USP ou qualquer outra universidade.

Roberto: Mas ninguém fiscaliza o conteúdo, as disciplinas ministradas ou algum tipo de conselho que chancela esses profissionais no mercado.

Comentário: Os órgãos fiscalizadores não garantes a qualidade dos serviços, ele podem ajudar nesse processo, mas eles não garantem. O ideal seria que a gente tivesse vários órgãos reguladores e as pessoas pudessem ter uma confianças em relação a eles e não apenas a órgãos do governo que é o que tem a maior tendência de ter uma desvio na avaliação, desvio ideológico, de interesses pessoais. Quando você tem vários tipos de fiscalização, você deixa que as próprias pessoas optem por qual delas tem mais valor. Por exemplo, existem várias empresas que fazem avaliação de risco, então você tem uma determinada empresa de grande porte, digamos que seja a Petrobrás, e então várias empresas fazem uma avaliação para esse risco, o bom é que tenha várias agencias para que se confie em alguma delas, a partir do momento em que você tem apenas uma agencia do governo a chance de esta passar uma mensagem errada ou de você não confiar nela é maior. Isso, de certa forma, acontece no yoga e é muito favorável e existem vários selos dentro do mercado para fazer a formação de yoga no Brasil e esse selo são as pessoas que acabam avaliando se tem valor ou não. No meu ponto de vista, um site como o Reclame aqui ´muito mais valioso do que a chancela do governo dizendo “você está aprovado”, um site como esse diz muito mais sobre o que, de fato, a pessoa está entregando de serviço do que aquele TCC que você apresentou. O Reclame Aqui, o Google, o depoimento das pessoas que estão fazendo esse curso tem muito mais valor do que uma chancela. Quando você coloca o governo para fiscalizar uma determinada profissão, a chance dela engessar e ficar mais inacessível devido as regras desnecessárias inseridas, limita o acesso de quem quer ensinar a respeito do yoga, além de ficar mais caro tanto para quem quer aprender quanto para quem quer ensinar.

Vamos ao meu caso como um exemplo: eu não tenho o terceiro grau e sou professor de yoga há 20 anos. Eu estudei o yoga, estudo até hoje, sei que é uma matéria que conheço, até pelo tempo em que estou estudando, mas se hoje legalizasse e fosse reconhecido pelo MEC eu teria de parar de dar aulas, ir para a universidade para que ela me diga que posso ser professor de Yoga. Isso é mais correto ou o meu aluno que faz a minha aula e que no final do ano me fala “Daniel, tá valendo tanto a pena o que a gente está praticando e o que isso está trazendo pra minha vida, que eu vou querer pagar de novo pra você, porque realmente o que você me ensina tem um valor pra mim, eu vou deixar de sair pra jantar para fazer a sua aula, isso pra mim é mais valioso do que a chancela do governo dizendo o que é certo ou o que é errado em qualquer profissão que seja.

Algumas profissões, como a de um neurocirurgião, terão de passar por uma avaliação mais profunda, assim como um engenheiro. Mas não acho que este caso se estenda para o yoga, acho que hoje ele está mais acessível para você encontrar informações sobre o profissional através das redes sociais, você tem muito mais condições de avaliar o profissional, provavelmente terá algo gravado online dele para que você possa praticar e experimentar e ver se está de acordo do que uma chancela de um órgão do governo.

Roberto: Existe um consenso velado entre os professores de yoga no Brasil, e aqueles que formam estes que os próprios consumidores da pratica de yoga tem um discernimento para eleger uma boa escola e um professor de yoga.

Comentário: Eu acho que não tem nada velado, isso está bem claro e eu acredito que as pessoas que acompanham o blog e o YogIN App tem capacidade de avaliar se o curso vai ter valor na vida delas ou não, isso não é oculto de forma alguma. Acho que quem acompanha o nosso conteúdo tem condições de avaliar se o professor tem capacidade de transmitir conhecimento ou não, acho que elas estão mais capacitadas para esta avaliação do que um reitor da USP dizendo se o curso é válido ou não, a gente vê milhares de cursos avaliados pelo MEC que não prestam pra nada, como eu falei, hoje como nós temos essa ventilação de informação no mercado, então se acontece alguma falcatrua as pessoas tem acesso a informação.

Roberto: Entramos aqui no mercado neoliberal sem regras, onde se apresenta o que se vende no mercado com o melhor custo-benefício e estratégias de marketing.

Comentário: Pra gente entender esta frase é importante que a gente entenda o que está atrás do conceito e de como as pessoas entendem os conceito, porque eles acabam definindo a leitura da realidade. Então vou definir o que eu entendo por mercado e por marketing, depois a gente pode retomar a frase citada pelo Roberto e ver isso é positivo ou negativo dentro da minha visão. Primeiro vamos sobre o que é o mercado, ele fala sobre a questão do livre mercado, o que a mídia como um todo tenta nos passar é que o mercado é meia dúzia de trilhardários que comandam o mundo e ditam o que as pessoas vão fazer ou comprar e que tem um poder absoluto sobre essas pessoas. Mas quem trabalha na prática com alguma venda de serviços sabe que não e bem assim, sabe que não é simples você influenciar uma grande quantidade de pessoas. E por que isso acontecer? Pela própria palavra mercado e de onde ela vem, o conceito de mercado é de fato do local onde as pessoas livremente fazem trocas voluntárias. O mercado era comum entre as antigas civilizações (como a Índia com uma cultura forte de mercado, a região toda da Mesopotâmia, o Egito…) tinha muito forte isso e se começou a fazer relações com a facilidade de transitar mercadorias com a prosperidade da população, e também quanto mais mercadorias eram trocadas, compradas e vendidas, menos risco existia entre os povos de eles se guerrilharem. Quanto mais relações econômicas você tem com determinado país menos conflitos você vai querer criar, para evitar um prejuízo econômico. O mercado expressa a vontade de cada um de nós, ele não é totalmente abstrato, o mercado é a decisão das pessoas, não é ditado por determinado grupo. Temos influências da narrativa? É óbvio que tem, mas no fundo o mercado é ditado mesmo pela vontade e decisão de cada indivíduo que vai fazendo com que cada indivíduo tenha um pequeno poder na sociedade, claro que quem tem mais influência na sociedade quando toma uma determinada decisão tenha um influência maior, isso é natural no caminho da força, mas todo mundo influencia uma determinada decisão. Então quando ele falam que bilionários tentaram controlar o preço do dólar, isso não é possível, as pessoas vão trocando voluntariamente e isso tem muito mais poder do que qualquer grupo econômico, nenhum grupo econômico tem força o suficiente para vencer a força da gente decidindo no mercado.

Então quando você ouve a palavra mercado, você tira da cabeça essa ideia de uma conspiração do mal e pensa o que é de fato a sua decisão, o mercado é você decidindo livremente pelo o que você quer comprar ou não. Você decide livremente sem você ser imposto. O imposto não é livre mercado, porque você é obrigado a pagar. Toda vez que você compra algo de forma voluntária, isso é o mercado, quando você decidiu que vai empregar um valor em espécie, em dinheiro, em algo porque aquilo tem um valor pra você. Então esta explicação já nos abre para a questão do marketing.

Quem fica muito tempo dentro das universidades ou estudando em livros acredita que se você tiver bastante dinheiro você conseguirá vender qualquer coisa, na prática isso não é assim porque as cosias tem um custo e as pessoas não aderem por uma influência exaustiva de marketing. O marketing nada mais é que do que a comunicação daquele produto, se essa comunicação for distorcida isso não tem sustentação, se eu vender pra você que aderindo ao YogIN App você irá flutuar, por mais que por um momento eu possa ter adesão, as pessoas vão descobrindo isso e irão denunciar que não funciona. Não adianta a empresa ter todo o dinheiro do mundo se ela não está entregando algum valor ao usuário final, não adianta eu anunciar que o yoga faz bem e que se você fizer uma prática no YogIN APP vai fazer muito bem pra você, se no final você não vai se sentir dessa forma. O marketing não é capaz de fazer a empresa, ele ajuda a comunicar, se o que você tem pra vender vale a pena para as pessoas e você tem um poder de comunicação, aquele seu serviço será bem entregue, mas mesmo que você tenha todo o dinheiro do mundo, como o Bill Gates, e seu serviço for ruim não adianta. O marketing não decide a força do mercado, o que decide a força é cada indivíduo que compra mais, indica para outras pessoas ou até não compra por não ter gostado. É isso que faz a diferença.

Então o mercado são as pessoas e o marketing é a comunicação. Se você concorda comigo no entendimento desses conceitos o estado em que o yoga está, num livre mercado, as pessoas pode escolher se pode fazer ou não, sem regras você não precisa passar por etapas para estudar ou comprar e uma coisa comandada pelo marketing eu não acredito, acredito que exista uma comunicação porque na prática não é simples anunciar e vender algo especialmente na internet, as pessoas precisam ver valor naquilo, se não elas não compram. Na internet não há compra impulsiva pelo fato das pessoas terem mais chances de consultar, se você entra numa loja isso não é possível. Quando a compra é feita pela internet a mais possibilidades de comparação do produto, então ela acaba sendo um mercado livre de regras que favorece quem compra.

Pela frase o que ele está colocando como o cenário atual, no meu ponto de vista, é o melhor cenário possível onde as pessoas podem optar livremente por um curso, investiga-lo na internet. Quem quiser se tornar professor não vai necessariamente ter que passar por um sistema pré determinado, burocrático, aparentemente o melhor sistema, mas não é exatamente o sistema daquelas pessoas que estiverem no dia a dia exercendo esta profissão.

Mas agora ela vai falar algo relevante porque eu concordo, acho que se você está tratando o yoga como uma cura, uma terapia, com o intuito de curar, você tem que fazer uma formação específica, porque de fato você precisa entregar de fato o que está propondo, e dentro da cultura e das leis atuais é necessário passar por uma fiscalização de um sistema, de um órgão de terapia, se você está se propondo a curar você precisa se submeter a algumas regras. E eu concordo com o que ele diz.

Roberto: As formações em yoga no Brasil não possuem o perfil de curso-terapia, até que algumas tem esse foco, mas não é a sua grande maioria e mais, o profissional por direito que pode utilizar do yoga como técnica terapêutica é o médico ou tem terapeuta ayurveda, vamos ser sinceros. E a formação da medicina ayurveda abrange bem mais do que identificar os chacras e saber se o dosha contém esse foco, mas não é a grande maioria. O yoga, então pode ser percebido como espiritualidade, um complexo sistema de ideia que proporciona um sentido de vida quem o segue a partir de narrativas cósmicas. Perfeito, maravilha, encontramos! Os alunos, paciente e agora discípulos, devotos (…)

Comentário: Acho que é uma vantagem o fato do Roberto fazer uma análise em relação ao yoga, ao que está acontecendo com o movimento dentro do Brasil e no mundo porque ele é um historiador e não trabalha direto com isso. E, então, ele consegue ter uma visão de fora e a gente que trabalha, está no dia-a-dia apresenta um outro ponto de vista. Por exemplo, eu não tenho nenhum devoto, nenhum discípulo, acho que na prática o aluno busca muito mais resolver uma questão de estresse ou agitação mental do que ele buscar um salvador da pátria, não vejo isso na relação dos meus alunos, e nem com os alunos mais próximos. Sei que existe, mas nunca nesse conjunto (paciente, devoto e discípulo), acho que é uma colocação um pouco exagerada para o momento, para a reflexão que ele está trazendo, mas na prática do dia a dia não é assim que acontece.

Roberto: Visam, mais que fortalecer os corpos ou curar os males do corpo físico, psíquico e energético, e do espírito, pois concordamos que esta é a tarefa do médico ou terapeuta ayurveda ascender em graus de melhor clareza espiritual em busca do autoconhecimento, entretanto, caracterizando o yoga como espiritualidade muitas vezes terapêuticas, assim como o espiritismo o é, seria ético cobrar por seus serviços dado o seu cunho agora de certa forma divino, sagrado, espiritual? A discussão pode nos conduzir para um sim, por que não? Haja a vista que umbandistas, evangélicos e candomblecistas também o fazem em troca de seus serviços espirituais, eles também cobram. Se você for para um centro de candomblé, um banho de Ebó tem um valor a ser cobrado, por que não teria, então uma consulta com um yogue pra ministrar um conjunto de posturas, pranayamas e crias durante um mês pra você se livrar, por exemplo, da depressão?

Comentário: Agora ele vai falar que essa definição que ele propôs deixaria os professores tradicionalistas bem irritados, ele vai explicar isso. Vou deixar essa parte para depois mostrar que eu concordo com ele. Acho muito importante a gente fazer uma divisão se yoga é uma religião ou não, para deixar claro o que as pessoas podem encontrar nele. Como ele falou, as pessoas preferem não entrar neste debate, não discutir e deixam uma definição muito ampla que na verdade não diz nada, isso acaba afastando muito as pessoas que pensam que o yoga é algo específico quando na verdade não é, eles não tem a definição. Vou fazer a minha definição aqui, mas primeiro vamos ver o que o Roberto tem a dizer e que eu concordo.

Roberto: Neste momento, yogues mais radicais podem dilerar, esbravejar que o yoga é tudo isso a nada ao mesmo tempo, igual no começo. Que o yoga é atemporal, inclassificável e ainda cair naquela retórica antiga que afirma: “não me interessa a discussão pois eu faço o meu yoga”. Algo como customizar várias crenças e amarrar em outros desvarios [inaudível]…“Na Índia o yoga é um sistema perfeito em si mesmo, com milênios de existência e passado de geração para geração, de mestre para discípulo” E quando esse tradicionalista se empolga e amarra com outra pérola das retóricas sofistas e yogues “sou um representante direto da linhagem espiritual e religiosa” aí ele cita uma sequência de nomes em sânscrito, uma língua morta, porém venerada por esses radicais e que, portanto, foge a qualquer pretensa pseudo caracterização ocidental.

Comentário: Então você acaba percebendo que isso é uma fuga do debate. A partir do momento em se fala “o meu yoga é uma revelação” não tem como investigar, argumentar, ampliar o próprio entendimento da questão porque você isola toda a história, isola todo o questionamento e até a parte cientifica da evolução dessa filosofia, dessa arte, dessa cultura, como queiram chamar e começa a citar vários termos em sânscrito para que a pessoa que está trocando com você não consiga entender e que o yoga não é pra ela. É muito importante a definição do termo.

Roberto: Mas esse é o viés terapêutico ou espiritualidade tal como terapêutica que os yogues brasileiros certamente não irão gostar de ser categorizados, pois abrirá um pretexto social para o mercado religioso e aí meus amigos o yoga precisará concorrer com outras propostas espirituais mais interessante e com muito mais tradição no país e aí, talvez esteja a razão da indefinição prorrogada e indefinida entre os yogues no Brasil. Qual o mercado os yogues trabalham? Docente, terapêutico ou espiritual?

Comentário: quem ministra yoga a princípio é um professor que está levando diferentes técnicas e propostas para as aulas que ele dá, como eu disse anteriormente, existem vários níveis, é muito difícil responder a isso de forma estanque porque quando as pessoas buscam o yoga e mesmo o que a gente oferece para os alunos tem vários níveis, tem aluno que vai querer simplesmente fazer uma meditação para se estressar menos, e você vai poder entregar isso de forma totalmente técnica sem nenhum envolvimento espiritual. Da mesma forma que haverá alunos que simplesmente querem ganhar alongamento devido as suas atividades externas ou porque sentem que alongando o músculo, o que de fato acontece, haverá um relaxamento mais profundo. Então você pode fazer também esse papel de professor levando a técnica, aquilo que você aprendeu em sua formação para o aluno.  

Existem alunos que querem algo mais profundo, que podemos chamar de filosofia, mas que podemos nomear de outra forma, doutrina, talvez, no sentido de ideias que serão apreendidas e darão um novo sentido à vida dela. Esse trabalho que pode ser chamado de terapêutico ou espiritual pode ser exercido pelo professor de yoga, isso não é um regra. Porém, para que possamos entender mais profundamente é interessante a gente definir um pouco mais o entendimento, e trago mais uma vez uma definição do Carlos que relaciona uma instituição religiosa com uma doutrina mística, então a ideia que ele propões [e que a instituição religiosa, por mais que haja o culto e uma busca, funciona no sentido de dar poder para ela ou para a ideia ou para os indivíduos que estão no comando, enquanto a doutrina mística busca um poder do indivíduo, ele que ganha uma capacidade maior, um poder maior com aqueles ensinamentos, então esse tipo de segmentação, de definição se encaixa muito mais no yoga que vem das Upanishads que como um todo tem essa ideia de quem por mais que haja milhares de anjos e deuses só há um Bhrama, que é o maior de todos e está no coração de cada um. Essa é a busca do yoga, esse poder que está dentro dele, que não depende de uma situação externa, mas de uma capacidade pessoal de ir atrás dessa voz do coração e você acha eu o yoga pode possibilitar isso, no acesso a voz do coração e trazer o que de melhor a gente tem? Acho que sim. Você acha que as religiões podem fazer isso? Em geral também acho que sim, não sou contra nenhuma religião, acho que cada um tem a sua importância, nada se sustenta por tanto tempo à toa, elas tem de fato importância para quem adere, mas a proposta que eu vejo e que é mais próxima do que eu acredito é que o poder está dentro de cada um. Como o yoga pode ajudar nisto? Os textos antigos diziam que quando a gente se aquietava e acalmava é que o encontro mais preciso com o nosso verdadeiro eu com a nossa força maior ou com o nosso self acontecia. O yoga pode contribuir com isso com as suas diferentes técnicas que, no meu ponto de vista, ajudam isso, ajudam a diminuir e acalmar, com isso traz à tona o que cada indivíduo tem de melhor. O indivíduo pode fazer isso, trazer isso de melhor sem nenhuma técnica, sem nenhuma religião? Pode, o yoga é uma técnica que contribui pra isso, e está comprovado ao longo da sua existência, mas ninguém depende dele para vier uma vida melhor. O yoga se propõe a ensinar algumas técnica, e quem quiser ir mais afundo, conceitos e ensinamentos que vão ajudar neste sentido, de ouvir a voz do coração e de trazer o que há de melhor pra fora.

Vou finalizar aqui o podcast, tem mais algumas coisas interessantes. Quem quiser ouvir os dois e acompanhar o trabalho do Roberto vale a pena, porque o ele é um professor excelente e a minha ideia de trazer o debate acho que ficou bem clara desde o início foi de mostrar o meu ponto de vista dos conceitos que ele levantou, acho que quanto mais esclarecidos em relação a eles a gente for melhor será a tomada de decisão de cada um e o meu outro objetivo é enriquecer o debate e o envolvimento das pessoas na discussão sobre o yoga, acho isso muito importante para o desenvolvimento da prática no Brasil. A gente tem um jeito bastante peculiar de abordar o yoga, algo bem brasileiro e a gente pode desenvolver isso através dos debates, então fica um convite para a gente aprofundar os estudos, os questionamentos, as práticas, o entendimento dessa filosofia preciosa que depende de nós para ir pra frente, para ser mais disseminada por aqueles que viram valor na prática do yoga. Então eu tenho esse entusiasmo porque eu vi isso na minha vida, pratico yoga desde os 16 anos e vi que me ajudou a trazer aquilo que há de mais precioso em mim, continuo na busca, mas sei que uma mente tranquila me mantem mais focado no que sei que é mais importante pra mim, quando estou com a mente tranquila consigo viver com mais satisfação porque sei que estou fazendo o que tem a ver comigo, aquilo que eu tenho que contribuir e deixar a marca do que acredito no mundo.

Vocês ouviram ao longo do podcast uma música do Debussy chamada Clair de Lune. O Debussy começou a expressar a arte dele junto com o movimento Impressionista e ele tentou criar na música um movimento semelhante. Os impressionistas diluíram as cores e os formatos das figuras no quadro, Debussy tenta fazer isso com a música no sentido de diluir a melodia que parece e=que está caminhando para um lado e depois segue para outro, não segue uma linha de começo, meio e fim.

Debussy foi considerado, na época dele, o melhor compositor vivo e isso incomodava muito um contemporâneo dele, Ravel. Apesar de terem criado o movimento juntos, a visão do Ravel era oposta, ele não acreditavam que as células musicais deveriam ser diluídas, mas repetidas e ganhando dimensão, volume e sonoridade que não aparecia no início, o oposto da ideia de Debussy. E você pode dizer quem estava certo? Não há, mas foi o contraponto da ideias que deu origem a algo tão maravilhoso como isso que você vão ouvir agora.  

 

 

 

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.