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Ouvindo o bobo da corte – Podcast #14

Ouvindo o bobo da corte – Reflexões de um YogIN Contemporâneo, Podcast #14 –

Neste episódio vamos falar sobre auto-estudo e isso passa por feedbacks sinceros e abertura para ouvir, os outros e a voz do coração.

E o bobo?

O bobo é um personagem de Rei Lear, obra de Shakespeare na qual, para mudar, o rei tem que ouvi-lo.

Entenda o que está por trás disso tudo e como o Yoga entra nessa história.

Aproveite o Podcast!

 

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Transcrição do Podcast

 

Ouvindo o Bobo da Corte #14

 

A música é de Prokofiev, ela se chama Romeu e Julieta porque hoje nós vamos falar de Shakespeare.

Por que é importante a gente estudar e entender, pelo menos ter uma base, do que foi construído em termos de literatura antiga e a construção de textos antigos? É difícil, hoje a gente arranjar tempo pra ler grandes obras como as de Shakespeare e de outros autores clássicos, é importante a gente valorizar essas obras, quando você tem um contato mais próximo com elas você percebe que, no fundo, elas estão abordando aspectos humanos que a sociedade de hoje, com todo o sistema de tecnologia, está passando pelos mesmos problemas que foram retratados nas obras clássicas. Então os clássicos podem te dar mais profundidade sobre determinadas questões, no sentido de ter sido abordado de outra maneira.

Shakespeare, por exemplo, é difícil de ler, eu nunca li nenhuma obra dele, já vi peças e já li críticos falando sobre, mas acabei assistindo no teatro. A primeira obra de Shakespeare que vi foi no cinema foi Rei Lear – aqui em São Paulo tem um evento anual chamado Mostra de Cinema, em que se concentra em duas ou três semanas filmes do mundo todo, passando em diversas salas, quase por 24 horas sem parar, a cidade fica praticamente respirando cinema, ali você vê muita coisa ruim, obviamente, mas muita coisa boa e muitas coisas inusitadas –, o filme foi filmado no século XIX, para a exibição pintaram a película e remasterizaram. O filme tinha efeitos especiais bem precários e foi apresentado ao som de uma orquestra tocando ao vivo (uma pequena orquestra de câmara, cinco músicos, dois violoncelos, um violino, violão também, não lembro ao certo) juntamente com o filme na sala de cinema. Foi uma experiência interessante, a história não deu pra captar totalmente, mas a experiência em si foi bem interessante.

O nosso objetivo não é fazer uma análise profunda de Shakespeare, até porque eu não seria capaz disso, tampouco de Rei Lear, porém a obra traz um componente importante para a nossa discussão. Como eu disse anteriormente, alguns assuntos de hoje já foram tratados em outras épocas, Rei Lear foi escrito por volta de 1600, portanto é uma obra muito antiga, e trata de um rei tentando comprar o amor das filhas dele, isso é algo que já acontecia, acontece nos tempos de hoje e continuará acontecendo. Além de ser um debate de como a gente lida e quais as consequências disso, no caso dele tudo não acabou muito bem. O elemento que é importante nesta obra para o nosso debate é que ele leva um golpe das filhas dele, sai do reino e permanece apenas com o Bobo da Corte ao seu lado e mais um outro personagem. O ponto principal é o papel do Bobo, que não é só na obra de Shakespeare que ele está presente, esse personagem é muito presente na Idade Média, na época dos grandes reinados porque o rei era muito protegido dos feedbacks devido a sua posição social, o seu status impedia de saber a verdade, principalmente em relação aos erros que cometia, então, quem trazia a verdade é o Bobo da Corte que com ludicidade trazia as verdades necessárias para o rei (até porque a figura do rei sempre foi bajulada, além das conspirações criadas contra ele).

O humor, de fato, é uma forma de trazer a verdade, de a gente aliviar um pouco a dor da verdade, que não é agradável de receber, a verdade é muito importante, o yôgin precisa saber lidar com a verdade porque só com ela a gente consegue construir algo sólido, você não consegue construir algo baseado na mentira, na enganação e no próprio escudo da Índia está la “Satyameva Jayate” (A verdade no final triunfará) uma frase da Mandukya Upanishad que está no brasão da Índia. É importante ter essa busca pela verdade e o humor é uma forma de a gente deixa-lo mais suave, uma forma de a gente encarar e receber o feedback, mas não levar só para o lado da brincadeira, isso é importante também, não se ofender e receber o feedback de uma maneira leve, mas se modificar com aquilo, pegar aquela informação e fazer ela gerar algum tipo de construção, ter algum valor para a sua vida, porque apesar de ter sido uma brincadeira, é aquela história: toda a brincadeira tem um fundo de verdade.

Falamos do feedback, dessa questão lúdica do Bobo da Corte, mas na Índia existia um papel que era o Kavi, que era o poeta – o poeta era um Reesh, que é aquele que ouvia – e os poetas que começaram a escrever os primeiros Vedas, o poeta era visto como um grande sábio, porque ele deixava vir à tona a voz do coração, ele não era preocupado com o que os outros iam pensar ou com uma lógica perfeita do que ia dizer, mas ele estava preocupado em expressar a voz do coração. Ele chegava a esse status de Kavi, de poeta, nascendo numa família de Kavi, sabendo expressar essa voz interna, ou passando pelo ritual do Soma, ritual este que era associado ao yoga, no sentido de ter a intenção de pegar a energia dos vegetais a realizar uma ascensão, esse mesmo movimento de ascensão da mente era a busca do yoga desde as primeiras Upanishads, então o yoga está relacionado ao Soma, está relacionado ao ritual de ascensão da mente, e o Kavi era alcançado neste estado, quando você acalmava a mente e deixava a voz interna vir à tona.

Então você vê que a gente tem maneiras de receber informações internas ou desconhecidas por diferentes fontes. O humor, já citado, é um excelente ventilador de informação e feedback, e também essa voz que você atinge nos momentos em que a mente se aquieta. Quando a mente parava que o Kavi começava a recitar os seus poemas.

E sobre essa questão de feedback, a gente vai entender, um sistema já moderno, contemporâneo, este estudo é de 1955, chamado de Janela Johari. Alguns aqui já devem conhecer, quando eu vi esse conceito eu achei bastante interessante, pensei que era algo inspirado no Japão, tem Mata Hari que é a espiã da primeira Guerra, mas tem esse nome devido aos criadores Joseph Luft e Harrington Ingham, e eles tiveram a brilhante ideia de dar esse nome, Johari.

É uma ideia sobre o nosso conhecimento pessoal, e aqui entra um ponto muito importante dentro do yoga, porque o yoga é um processo de autoconhecimento, de estudo para a gente expressar aquilo que a gente tem de melhor, para expressar isso você tem que treinar, repetir a habilidade para que saia algo puramente seu. Como no caso da escrita, se eu chegar em você e falar “escreva agora o melhor texto da sua vida”, mas você não está habituado com a escrita como você vai conseguir expressar o seu melhor texto? Para isto é necessário que você passe por um treino de escrita, estudar e copiar outras pessoas, assimilar outras referências até que saia uma escrita realmente sua. Pra você expressar algo seu você precisa repetir muito e para que você repita muito, tem que ser algo que você goste.

Então, por isso que o Dharma é muito ligado com a nossa vocação, como a gente vai encontrar o nosso Dharma, como a gente vai encontra a nossa vocação? A mente, quando se aquieta, vai dando voz interna, vai dando voz que o Kavi ouvia, o poeta. Então essa voz vai nos dizendo verdades sobre nós mesmos, habilidades, e vai nos guiando para aquilo que é mais importante, aqui que nós temos que fazer. Então o Dharma ele é um conceito no sentido de aquilo que tem que ser feito, aquilo que tem que ser feito por você Quando é a sua própria Dharma.

Então, quando você reconhece a sua Dharma, e a quietude da mente ajuda nisso, você vai repetindo, pegando referências que você gosta, repetindo, copiando, melhorando, trazendo algo seu, modificando e este aprimoramento com muita repetição é que faz nascer algo puramente seu, que você diga “aqui está o meu melhor em termos te termos de texto”, no começo você não consegue, mas para repetir muito tem que ser algo relacionado a sua vocação. E você pode observar esta questão do Dharma, no sentido de quanto você aguenta fazer esse esforço, o quanto você aguenta fazer aquele tipo de tarefa, não é todo mundo que tem a mesma resistência para todas as tarefas, cada pessoa tem uma capacidade de suportar uma tarefa em diferentes graus, e isso já é uma boa avaliação de uma busca do que é importante realizar, o que eu te daria satisfação, sentido de vida, o que é importante você cumprir como a sua missão pessoal.

O yoga como esse processo de trazer o melhor de nós mesmos, ele tem de passar por um estudo de si, por uma repetição e uma observação constante e repetida, de “no fundo, o que sobra?” e esse é um questionamento do Rei Lear, ele passa por situações, perde o que tinha e o que sobrou do Rei Lear, quando você descobre o que de fato é você fica mais fácil você expressar a sua Dharma, que é a sua própria vocação, algo que só você pode fazer. Mas para você se tornar bom, precisa passar por um processo de autoavaliação e de avaliação externa, para conseguir isso você precisa passar por um processo de feedback, de aprimoramento, que são essenciais para a gente externalizar o nosso eu, para a gente trazer a voz do poeta, pra gente expressar o que um pessoa falaria brincando o que a gente não quer saber.

Para fazer este tipo de autoavaliação é que o Joseph e o Harrington criaram este quadra, a janela Johari, que seria uma janela, com quatro vidros. Então pensa numa janela nesta forma, e pensa no lado esquerdo superior da janela, é o primeiro quadrante: o conhecido, aquilo que você sabe de você mesmo, e que as pessoas sabem e que, numa primeira interação, você expressa aquilo que é de conhecimento comum; o segundo quadrante é o quadrante cego, que as pessoas estão vendo, mas você não, eles brincam que é o quadrante do mau hálito, porque quem tem geralmente não sabe, mas todos ao redor percebem aquilo – essa informação vem muito através do Bobo da Corte, pela brincadeira, de você mesmo se ridicularizar e brincar com você mesmo para trazer aquilo que você sabe que não são o seu melhor, o que te incomoda, deixar vir por meio do humor através de você mesmo ou por meio da interação social, se você for muito fechado pra isto, o seu quadrante dois será grande e as pessoas não terão abertura para chegar e falar com você, às vezes você estará passando vergonha, mas ninguém vai te alertar, é importante você aceitar o humor e outras formas de feedback, para diminuir o que é cego pra você, para diminuir este quadrado que não é estático, ele vai se modificando de acordo com a sua interação social, a ideia é você ter o máximo de transparência com você mesmo – ; o quadrante 3 é o quadrante oculto, são as coisas que você sabe, mas as outras pessoas não, esse quadrante pode ser desde habilidades que você domina e que muitas vezes você não tem coragem de manifestar, ou pode ser coisa que você não quer que as pessoas saibam, de fato todo mundo tem segredos que são da ordem privada  e não deseja compartilhar, e isso é a escolha de cada um, mas há coisas que você tem medo de manifestar, mas te traria benefícios, isso está na parte do oculto e está relacionado ao medo de você levá-lo ao quadrante 1, que é o quadrante sobre o conhecido, então essa transição não precisa acontecer de uma vez, se tem algo que você quer expressar, você pode fazer isso aos poucos, eu falo sobre isso no meu curso sobre medo (vou deixar o link aqui embaixo), sobre esses testes para deixar o que é importante acontecer; e, por fim, vem o quadrante 4, que é o quadrante do desconhecido, tanto pra você quanto para as pessoas, que também é uma área que você não precisa trazer o tempo todo “vou tomar droga trazer tudo o que está inconsciente”, como vai ficar depois a sua psique, o quadrante 4 não é “ deixa vir tudo e tal, vou passar por m experiência, sete dias numa montanha sem falar com ninguém, praticando oito horas de meditação por dia” não é por aí, as coisas tem o seu tempo, a informação interna precisa vir aos poucos, se ela vem de uma vez ela pode causa traumas que nem sempre são benéficos, então é mais importante a gente passar por esse processo de autoconhecimento gradualmente. O quadrante 3, que é o quadrante oculto, das coisas que você tem em potencial e não quer revelar, é a voz do poeta, do coração, é aquilo que você sabe que pode fazer, essa voz vindo à tona é a parte da busca yoga, que é a parte da realização do svadhama, então lide bem com o Bobo da Corte, lide bem com a sua voz de poeta, a voz que muitas vezes não faz sentido lógico, mas que é uma certeza sua, uma certeza que você sabe que vai cumprir, é uma certeza de vida.

Uma boa semana e até o próximo podcast.

Obs.: Eu ia colocar isso no final, mas no final da conversa em que o Lear fala com o Bobo, ele abriu-se e disse “Então me diz bobo, onde foi que eu errei” e aí vem a frase mais famosa desta obra que é “O que você errou Lear, foi ter ficado velho, antes de ficar sábio”.

 

Reflexões de um YogIN Contemporâneo – série de podcasts Yoga pro seu dia a dia [SÉRIE DE CONTEÚDOS]

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.