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O TEMPO – Podcast #05

O TEMPO – Podcast #05

Este é o 5º episódio da série de podcast – Reflexões de um YogIN Contemporâneo

No podcast de hoje, falo da relação do tempo com a consciência – o tempo passa para quem apenas observa?

 

 

 

 

 

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Transcrição do Podcast #05

 

O Tempo #5


Olá, meu nome é Daniel De Nardi, está começando agora o quinto episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo” e faz tempo que quero falar sobre o tempo.

Antes de começar a reflexão sobre o tempo, eu vou fazer um breve adendo a este podcast remetendo ao primeiro podcast que nós gravamos que é La la Land, o podcast fala sobre a Realização do Eu e porque eu vou começar falando sobre esse episódio? Porque estou gravando este podcast na terça e no último domingo aconteceu o Oscar em que a gente presenciou aquela cena da troca dos envelopes e, ali, foi um acontecimento que tem muito a ver com o que foi dito naquele podcast (agora vou fazer um spoiler, pra quem não viu o filme, pode pular esta parte), na final a Mia (Emma Stone) entra num bar de jazz que é o bar que o Ryan Gosling imaginou a sua vida toda e senta, com o atual marido para ouvir o Ryan Gosling tocar, enquanto ele toca começa uma construção da vida dele juntos, dá a sensação de que no final eles acabam juntos, de repente eles se dão conta do que a vida é, de fato, eles abrem os olhos e percebem que estão separados, mas cada um realizando a sua vida, a sua forma, mas no fundo houve uma realização pessoal, porque o sucesso era pessoal era de cada um, e a cena ao final do Oscar se parece com isso: La la Land ganhou o Oscar de melhor filme, tocou na estatueta, Damien Chazelle – que é o diretor – estava pronto para discursar, produtores já haviam discursado, e, de repente, aquilo se desfaz, o sonho acaba momentaneamente e eles tem que entregar o prêmio para o outro filme, Moonlight, que havia de fato ganhado porque houve uma confusão na troca dos envelopes. De fato, aquilo deve ter tocado muito e, se você olha de fora, La la Land teve uma perda enorme, mas como a gente discutiu nesse episódio, o importante era a experiência pessoal, o que eles queria e o que estavam vivendo, o símbolo de ganhar é secundário diante do trabalho todo que foi realizado, o fato de terem tirado o Oscar das mãos deles só engrandece o filme, tornando-o de fato imortal, o filme não foi feito com o intuito de ganhar a estatueta, Chazelle tinha outros intuitos, ele sonhava em fazer o filme há muito anos, então acabou sendo uma expressão de realização pessoal, mesmo sendo tirado o título,, mas ganhando uma dimensão muito maior e muito mais eterna, por conta daquele acontecimento, porque de fato se eles forem olhar para o que eles construíram é muito maior do que ganhar um título que as pessoas vão dizer que foi ganho. A construção é pessoal e a realização é muito maior mesmo tendo aquela cena engraçada e patética ao final do Oscar.

Aproveitando esse momento em que eu estou gravando, sexta feira foi Shivaratri. Shiva que é um dos deuses da cultura hindu, no original Shiva simplesmente significa fazer o bem, Shiva significa fazer o bem para o mundo, depois com o tempo, com toda a cultura indiana que vem trazendo historias e contando mitos, Shiva além da construção de puranas, que são outros textos que começaram a ser produzidos a partir do século VI d.C., Shiva ganha o que de fato ele é hoje, uma figura, uma representação, uma família, uma esposa, duas esposas, um filho, dois filhos, mas isso não existia originalmente, originalmente Shiva era apenas uma palavra para ase dizer o bem, então Shiva é aquilo que faz bem dentro de nós ou é a gente produzindo o bem e esse aspecto benigno dentro de nós é Shiva. Como figura mitológica, Shiva é considerado o patrono do yoga, o primeiro yôgin ou o yôgin perfeito e, por isso, ele aparece tanto nos kirtans sobre yoga, ele aparece tanto nas histórias, ele ensina yoga, a sua esposa Parvati, então Shiva é muito importante no universo do yoga, e sexta feira foi o dia de comemorar o Shivaratri, é a grande festa de Shiva pela Índia toda, uma grande festa que milhões de seguidores vão as ruas para comemorar, como é tradicional na cultura hindu, mais uma festa.

Bom, nós já estamos falando a algum tempo e não chegamos no objetivo principal desse podcast que é o tempo. O tempo é uma construção que vem sendo discutida, debatida e procurando o entendimento desde a mais remota antiguidade, os gregos já produziram o deus Cronos como uma representação do deus do tempo, na Índia o tempo fica a critério de Shiva.

Shiva, Shivaratri ou yôgin tem algumas relações desenhadas que remetem ao tempo, o primeiro é um hamaru, Shiva usa uma espécie de tamborzinho que ele marca o ritmo do universo, dando a impressão de que o universo é algo como uma repetição, uma cadência, algo que se repete que se reconstrói. Por outro lado, Shiva é mrityunjaya, que é o que conquistou a morte, então Shiva, por ele ter encontrado a sua real essência ele se torna eterno perante o mundo, então ele conquista a morte e ele é mrityunjaya. Além disso a figura mais relacionada ao tempo, que vai aparecer na capa desse podcast chandrashekaraya, a meia lua desenhada em Shiva, representando de fato a conquista do tempo. Shiva tem aquela meia lua que mostra que ele dominou o tempo.

Mas o que seria dominar o tempo?

Tudo o que a gente vem construindo aqui, quem ainda não assistiu, assista o segundo episódio, que fala sobre os três eu’s, que são três formas de a gente se manifestar, e a primeira é uma manifestação interna, pessoal, que vem da consciência; e tem a manifestação externa que vem da mente, do corpo.

O tempo acaba sendo uma construção desse universo externo, digo isso porque o tempo passa e faz com ele se relacione com as nossas sensações, então ele tá ligado com o eu da mente, com o eu do corpo, mas o tempo observado a partir do eu da consciência  não existe, o tempo é uma invenção humana no sentido de que se você atua nesse eu mais profundo, que simplesmente observa não há relação com o tempo, para aquele que simplesmente observa o tempo está parado e ele simplesmente está observando ele não está relacionando-se com o que aconteceu a algum tempo atrás. Quando você chega, por exemplo, numa meditação, em que você chega esse ponto de auto observação, de conexão com a consciência mais profunda, você vence essa relação com o tempo no sentido de você estar tão presente no momento que acaba se dissolvendo a relação com o futuro e com o passado, quando você está de fato presente em algo, você elimina a sua busca de memorias no passado e você elimina a sua projeção do futuro, no sentido de pensar no eu vai acontecer a partir daquele momento. Você está totalmente envolvido e engajado num outro estado de consciência.

O Carlos Eduardo Barbosa que é um professor que eu menciono bastante aqui, ele, inclusive, relaciona o primeiro estágio de samadhi a justamente isso, a um momento em que você tem toa a atenção em todo aquele momento presente, você está cem por cento envolvido naquele momento já é um estágio de samadhi que é o objetivo do yoga. Então o yoga, como um todo, tem uma relação com o tempo, tem uma relação com esse domínio de tempo que Shiva conseguiu, por isso ganha a meia lua em seu cabelo e o yôgin deve buscar  essa relação de vencer o tempo no sentido de estar presente naquilo que está fazendo, aquilo que aconteceu antes, o que vai acontecer depois não importa, o eu do coração, o eu mais profundo dos seus já explicados é o eu que simplesmente observa ele está presente e aquilo faz com que aja  justamente essa eliminação, há eliminação, também, do estado de ansiedade, porque a ansiedade é a busca pelo o que está por vir e há também a eliminação de um estado de saudosismo pensando que no passado a felicidade aconteceu, e a felicidade, a plenitude só pode estar no tempo presente, que é quando, de fato você consegue dominar o Cronos, dominar o tempo, você se torna mrityunjaya, aquele te dominou a própria morte porque você está num estado em que as cosias estão sendo observadas, e aquilo faz com que você busque encontre, se aproxime cada vez mais da sua real consciência. Quando você entra nesse estado em que a relação do tempo ela não é mais tão influenciada pelo o que está acontecendo, você está no estado as coisas vão acontecendo, mas você está num estado de observação, ali, pode-se dizer que você entrou num estado alterado de consciência, inclusive, dependendo do estado, podendo se dizer até um estado de samadhi, um estado em que você está pleno no que está fazendo, um estado em que você domine o tempo, em que você reconhece e vive o seu verdadeiro eu, o eu que está lá no fundo da sua consciência.

A reflexão de hoje fica por aqui e o exercício pra se praticar no dia a dia é observar o quanto o tempo todo você fica nessa vivência de buscar o futuro ou buscar satisfação no passado, o quanto de fato você está no tempo, o quanto você está presente na ação vivendo o presente, ganhando essa dimensão de dominar. Observe isso, a prática da meditação é um exercício desse domínio que pode acontecer em qualquer atividade que você está fazendo, sem pensar no que pode vir, sem pensar no que aconteceu, ali você é mrityunjaya, ali você domina a morte. Então esse vai ser o exercício, de prestar a atenção se está sentido a passagem do tempo, dentro desse estado não há a projeção do tempo a simplesmente a vivência da observação.

Pra finalizar, eu vou deixar a música aqui, como a gente está falando do Oscar eu vou dar uma sugestão, de um filme que eu também vi recentemente antes do Oscar acontecer, que foi Elle, é um filme francês. O filme em si é muito interessante, vale a pena assistir, a Isabelle Rupert concorreu ao Oscar de melhor atriz, inclusive perdeu para Emma Stone, que a gente comentou hoje aqui. Além da histórica ser fascinante, tem duas músicas que dentro das minha músicas favoritas, duas delas aparecem, vai ser muito difícil pra quem não conhece as músicas é a música do podcast 3 e a música de hoje, então pra quem não conhece a música talvez seja difícil reconhece-la durante o filme, mas o filme por ele mesmo já vale a pena, agora se você conseguir identificar as duas músicas, acho que vai dar uma satisfação de um conhecimento maior de música erudita, ela é usada em diferentes situações, inclusive, como trilhas sonoras de filme. As músicas que aparecem nesse filme é a do podcast 3, que é concerto para piano do Rachmanioff, concerto nº2, e a música de hoje que é a sinfonia pastoral do Beethoven, então fiquem com ela. Pra quem não costuma ouvir a música até o final do podcast a gente se despede por aqui, uma boa semana e nos vemos na próxima reflexão.

Reflexão de um YogIN Contemporâneo com Daniel De Nardi, om namah shivaya!

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.