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IronMan e Yoga – Podcast #19

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Filosofia do Yoga | 15 fev 2021 | Daniel De Nardi


Quais as relações entre IronMan e Yoga ?

O primeiro livro escrito sobre Yoga, fala de conceitos como a disciplina (abhyasa) e vairagya (desapego, no sentido de abrir mão do que não é importante). Esse podcast apresenta um caso prático desse treinamento com a preparação para uma prova de grande resistência como o IronMan.

Links do podcast #19

  • Carruagens de Fogo, filme completo

  • A Preparação – Podcast #9, fala de Jim Collins, o escritor do livro lido no início do podcast

  • Livro lido no início do podcast

  • Podcast com a trilha sonora do cinema, Nino Rota

Suspeitando do EU alheio – Podcast #17

  • Artigo para o Blog do YogIN App, mostrando algo que falo no podcast em que tudo é uma questão para onde você vai canalizar sua atenção

SÉRIE DE ARTIGOS – COMO FUNCIONA A RESPIRAÇÃO? PARTE 3 – Yoga e ansiedade

 

  • Texto sobre o processo meditativo em longos períodos de treinos

ESPORTES E A MEDITAÇÃO

  • 1492 – trilha sonora do filme


  • Trilha sonora da série Reflexões de um YogIN Contemporâneo

Reflexões de um YogIN Contemporâneo – série de podcasts Yoga pro seu dia a dia [SÉRIE DE CONTEÚDOS]

 

Transcrição do Podcast

 

Yoga e Ironman #19

“Isso me lembra uma experiência pessoal em minha própria família, que busca uma diferença básica entre a bravata e a compreensão. A minha mulher, Joanne, começou a participar de maratonas e triatlos no início da década de 1980, à medida que acumulava experiência, tempos de trilhas, revezamentos de natação, resultados de corrida, ela começava a sentir o ímpeto do sucesso. Um dia, ela entrou numa corrida com várias das melhores triatletas do mundo e, apesar de um desempenho fraco na natação em que ela saiu da água muitas posições atrás das principais nadadoras, e de ter de empurrar um bicicleta pesada e pouco aerodinâmica na subida de um morro alto, conseguiu cruzar a linha de chegada entre as dez primeiras. Algumas semanas mais tarde, na mesa do café, Joanne desviou o olhar do seu jornal e comentou calma e tranquilamente: ‘acho que eu poderia vencer o Ironman’. O Ironman, o campeonato mundial de triatlos envolve 3800 metros de natação em mar aberto, 180km de ciclismo e tudo isso culminando com uma maratona de 42km na costa de Kona, no Havaí, região quente e galvanizada por lavas. ‘É claro que eu teria de sair do emprego, recusar as propostas de pós-graduação (ela havia sido admitida em pós-graduação em várias das melhores universidades) e me comprometer em tempo integral, mas…’. Suas palavras não denotavam bravata, publicidade, agitação ou pedida de socorro, ela não estava tentando me convencer, ela simplesmente observou que o que havia compreendido era um fato, uma verdade tão chocante quanto afirmar que as paredes estavam pintadas de branco. Ela tinha paixão, tinha a genética e se vencia corridas, tinha o modelo também, a meta de vencer o Ironman fluiu para a compreensão inicial do conceito de porco espinho que apresento agora neste livro. Então, ela decidiu que sim, que iria disputar o Ironman. Deixou o emprego, desistiu da pós-graduação, ela vendeu as fábricas, mas me manteve dentro do barco, e três anos mais tarde, no dia quente de outubro de 1985, ela cruzou a linha de chegado do Ironman do Havaí em primeiro lugar, Campeã Mundial. Joanne decidiu que iria vencer o Ironman, ela não sabia se iria se tornar a melhor triatleta do mundo, mas ela entendeu que podia, que aquilo estava dentro das possibilidades, que ela não estava vivendo uma ilusão. E esta distinção fez toda a diferença. É uma distinção que todos aqueles que desejam transformar algo bom em algo excelente e precisam captar, e aqueles que fracassam no projeto de se tornarem excelentes, em geral, nunca conseguem perceber.”

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi e estamos começando o 19º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”.

Então eu acabei de ler um livro de um escritor que eu gosto, ele faz pesquisas relacionadas a empresa, mas que são muito aplicáveis a nós seres humanos, porque empresas nada mais são do que grupos organizados com um objetivo em comum. Ele traz muitas reflexões interessantes, o nome dele é Jim Collins (eu também usei um outro livro dele no episódio nove, sobre preparação, que a gente leu e comentou), aqui ele está falando sobre vocação, buscar e batalhar por algo que faz sentido, que é a algo realmente importante pra você.

Acabei de voltar de Florianópolis, a minha voz está um pouco rouca, agora está bem melhor, mas na segunda-feira estava bem ruim, fui acompanhar dois amigos meus que participaram da prova do Ironman. Sempre quando eu volto dessa prova ela me traz muitas reflexões porque eu passei por esse processo, fiz o Ironman em 2014/2015. Tem muita gente que me pergunta como cheguei ao Ironman, como eu realizei esse grande projeto. De fato, exige um nível bastante grande de dedicação e de saber que algo é importante, ninguém consegue construir ou fazer um Ironman se não tiver um significado pessoal. Pode até ser exibicionismo, mas aquele exibicionismo precisa ser muito importante para a pessoa a ponto de ela treinar em um nível pesado para se isto, sendo que ela poderia fazer outras coisas que conseguir se exibir mais. Mas, então, é necessário uma questão pessoal envolvida. Acredito que tudo isso vem com o plano das ideias, vem a partir daquilo que a gente consome em termos de conteúdo que vão criando os nossos pensamentos e os nossos pensamentos e as nossas ideias.

Essa foi a primeira vez que eu li e comecei a visualizar uma prova de Ironman e vi que poderia ser alcançado por pessoas comuns, porque ela não era uma profissional, era a esposa do escritor que competia, mas que em determinado momento se propôs a ser excelente em algo, fazer algo muito importante, como essa prova. No meu caso também começou no plano das ideias porque eu já ouvia falar quando ele foi para Florianópolis, que foi a família de um amigo meu quem trouxe a competição da Bahia para Florianópolis e, a partir daí ela passou a ser realizada anualmente na cidade. Uma vez eu conversei com o organizador da prova, o Galvão, ele me mostrou uns vídeos, mas era algo muito distante da realidade, algo que eu não conseguia vislumbrar, até sentia vontade pelo desafio, mas não conseguia imaginar.

Depois, eu não lembrava mais o contato que tive com o Galvão. Em 2005 eu comecei a correr com um amigo meu que morava comigo na época, que já tinha corrido e me estimulou, fiz alguns amigos, mas não pensava em participar de nenhuma competição, já achava uma maratona algo muito distante, eu me sentia bem correndo 10, 12, 15 quilômetros no máximo. Acabei fazendo a minha primeira maratona em Porto Alegre, em 2010, continuei os meus treinos, e decidi que eu queria fazer um Iron. Então eu consegui completar um Ironman em 2014.

Pra mim, o que é mais valioso dessa reflexão é o que o Iron trouxe de fato pra minha vida, o que aquilo construiu em mim. Por que não é totalmente distante, o processo de conseguir terminar um Ironman bem (tem pessoas que se matam, se arrastam a provar inteira o que não é interessante, acho que deve ter uma preparação para fazer o que se tem predisposição, o processo de treinamento é o mais valioso e não terminar a prova em si), não é distante da proposta de Patanjali.

Como que funciona o treinamento para realizar uma prova como essa?

Como o próprio Jim Collins cita no livro, a prova consiste em 3800 metros de natação, na hora você acaba fazendo mais de quatro quilômetros. 180 quilômetros de bicicleta, para quem conhece Florianópolis é a distância de ir e voltar do aeroporto duas vezes, para quem mora em São Paulo, é a mesma distância de ir e voltar de Maresias e depois, no final há uma corrida de 42 quilômetros. Para construir isso, é necessário uma modificação no corpo para que o corpo resista a longos períodos de exercício sem interrupção, é um processo de transformação, é preciso repetir muito para que o corpo entenda que uma mudança estrutural é necessária. Isso se dá passo a passo.

O processo do Ironman ensina isso, que se você quer algo grande, como fazer a prova abaixo de 11 horas, por exemplo, é preciso uma construção diária e não no momento da realização da prova. Acordar a noite praticamente todos os dias da semana pra treinar, treinar durante a semana duas modalidades várias vezes e aos finais de semana treinar de forma prolongada, como aos finais de semana, geralmente, os competidores não trabalham, eles conseguem se dedicar e fazer treinamentos longos. Não pode sair à noite na sexta ou no sábado, porque haverá treinos longos no dia seguinte. Para conseguir isso é preciso ter muito claro o que se quer, saber que terá de abrir mão de muita coisa para conseguir algo maior, algo que escolheu.

Isso está escrito no Yoga Sutra, de Patanjali, e agora eu vou citar mais uma vez a tradução do Carlos Eduardo Barbosa, ele fala sobre disciplina, isso é interessante no Ironman, todos tem condições de terminar a prova, tudo é uma questão de decisão pessoal. Claro que uma pessoa que nunca praticou esporte terá mais dificuldade e irá demorar mais, tanto no treinamento ou na prova. Mas é acessível a todos, é uma questão de decisão, dedicação em um ano totalmente focado. Fazendo isso, qualquer pessoa tem acesso, não são todos que chegarão entre os primeiros, não são todos que que irão conseguir uma vaga para o mundial (em Kona), porque está ligado a vocação, mas terminar a prova, que é o principal objetivo, está acessível a todos, o que determina de fato é a disciplina.

No terceiro sutra Patanjali fala sobre dois conceitos que são base para o yoga que são Abhyasa e Vairagya. Abhyasa é a disciplina, você repetir algo até atingir a excelência. Vairagya é o desapego, para que saiba o que é importante pra você para que consiga abrir mão do que for irrelevante. Se quer terminar a prova bem é necessário fazer um desapego do que não for importante. Na frase doze Patanjali começa a falar sobre o recolhimento, no caso dele é o recolhimento das atividades da mente para que se encontre a essência, nesse caso do esporte é de se recolher para cumprir o que acha importante. “Seu recolhimento, ou seja o Nirodha, advém da disciplina e do desapego, a disciplina é o esforço em se manter nele”, você escolher e repetir, neste caso ele fala sobre se manter no recolhimento. Então ele fala sobre o processo meditativo, quando você se recolhe, escolher sustentar a atenção, esse é o primeiro conceito que é Abhyasa. Abhyasa e Vairagya são essenciais dentro do processo do yoga.

“O desapego é o sinal da vontade perfeita daquele que está indiferente aos objetos já vistos ou dos quais se ouviu falar”, então o desapego é saber o que se quer, saber o que é importante pra si e seguir o rumo porque essa é a vontade. Em decorrência a isso, do desapego, é a indiferença as qualidades matérias nas quais a essência se revela, então quando você abre mão dessas tentações de sentidos, você traz algo muito seu, a sua vontade verdadeira. E, então, você tem um conhecimento intenso que ele chama de Samprajñãta, que surge a partir de suposição, avaliação, sensação de realidade. Então voltando ao texto, o Jim Collins fala que a esposa não quis convencer, dar um discurso, ela simplesmente percebeu que aquilo era importante pra ela, “Suas palavras não denotavam bravata, publicidade, agitação ou pedido de socorro, ela não estava tentando me convencer, ela simplesmente observou que o que havia compreendido era um fato, uma verdade tão chocante quanto afirmar que as paredes estavam pintadas de branco.”, então esse conhecimento intenso, é o 17 de Patanjali, surge a partir de suposição, de avaliação, de sensação de realidade. Então ela não estava viajando num sonho absurdo, ela estava conectada com a realidade e percepção da própria individualidade, conhecendo as limitações e as potencialidades dela ela percebeu que poderia ser campeã. Assim, como no meu caso, eu comecei a construir a partir do momento em que eu vi que no plano das ideias era viável, depois eu fui aumentando a minha carga de treino, em seguida eu percebi que era possível terminar um Ironman, mas pra isso houve todo esse processo de abrir mão daquilo que não era importante pra mim, ou que eu tinha decidido de fato abrir mão, para algo maior. Trazendo para Patanjali, para meditação, é entrar na meditação e saber que todos os pensamentos que vem naquele momentos são estão relacionados aos sentidos e não a essência, se você se ligar a ele vai continuar mantendo a mente no funcionamento dela, não vai trazer algo diferente ou a essência, vai continuar fazendo as conexões já conhecidas. Lembre-se sempre, repetir, sustentar a disciplina ou a Abhyasa e por outro lado é o Vairagya, o desapego do que não for importante. Então, escolha bem os seus objetivos, siga na trilha sempre com Abhyasa e Vairagya.

A música é Carruagens de Fogo, que é um filme lindíssimo, todos devem conhecer essa música, mas o filme em si(…) eu vou deixar aqui o trailer do YouTube, é sobre uma competição, a Olimpíadas de Paris de 1924. Ele ganhou o Oscar de melhor filme em 1981 e a música ganhou, também, de melhor trilha sonora. Aqui a gente mais um exemplo assim como vimos no episódio 17, que é o Nino Rota que compõe para o cinema. Aqui é Vangelis que também compor trilhas para o cinema como no caso dessa música e do famoso filme 1942.


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Daniel De Nardi>

Daniel De Nardi

Daniel é Professor de Yoga há mais de 20 anos. Pesquisador do Yoga e das raízes dessa Filosofia Milenar. É autor de diversos livros: "Aprenda a Meditar com o Yoga", "As Origens da Meditação e do Yoga", "Asana - Posturas do Yoga", "Como a Meditação funciona?", "O Yoga do Autoconhecimento", "Pra que Meditar?", dentre outros. Também é responsável por produzir a série de podcasts "Reflexões de um YogIN Contemporâneo" do YogIN Cast, o canal de podcasts de Yoga mais acessado do Brasil. Instagram: @reflexoesdeumyogin

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A experiência prática da Meditação Esse ano, faz 20 anos que comecei a meditar. Foi em 96 que comecei a me aventurar na experiência de aquietar a mente. Antes mesmo de começar o Yoga, já lia e fazia alguns exercícios de meditação. Foi um treinamento que valeu a pena. Me trouxe muita coisa bacana pra minha vida. Dentre elas, reduzir minha dispersão quando preciso fazer alguma tarefa que exige atenção máxima, como escrever, ler ou ver algum filme. Sinto que essa capacidade de abstração dos sentidos, como o sábio Patañjáli, pai do Yoga dizia, me ajuda a explorar melhor tudo me interessa. Uma das coisas que esse tempo de prática me ensinou, é que nosso cérebro tem um princípio de conservação de energia. Esse instinto de sobrevivência dificulta muito qualquer tipo de mudança, mesmo começar um exercício que faz bem para nós como a meditação. O cérebro não quer fazer coisas diferentes, vai resistir até onde conseguir e criará desculpas para que você não mude seus hábitos. Ele não quer gastar energia, logo prefere que você continue lendo os mesmos tipos de livros, assistindo filmes com temas parecidos e também mantendo os exercícios físicos que você está acostumado a fazer. Nem isso o seu cérebro quer que você mude. Ele sempre trabalha pra fazer as coisas com o mínimo gasto de energia, logo mudar é forçar o cérebro a sair da sua zona de conforto e isso faz bem para sua capacidade de adaptação. Se você já teve alguma experiência com Meditação, provavelmente achou desconfortável e se nunca teve, pode esperar por uma experiência árdua. No começo é difícil mesmo. Você luta contra instintos de preservação da sua vida (pode acontecer até mesmo de você abrir os olhos no meio do exercício com medo que algo aconteça enquanto você está de olhos fechados). A proposta da meditação é algo que desafia o cérebro a mudar. Ficar atento a uma só imagem, força seu cérebro a não dispersar a atenção, algo que ele está acostumado e adora fazer. Por isso, ele não vai facilitar a vida e tentará buscar sensações e memórias que façam você parar com o exercício, abrir os olhos e voltar a olhar para as atualizções do seu celular. Persista. Não embarque nessa necessidade de dispersão, pois ela não é tão necessária assim, espcialmente enquanto você estiver meditando. Se deseja vencer, pelo menos alguma parte, dos seus turbilhões mentais, persista. Da mesma forma que cérebro rejeita a mudança, a medida que ele vai aprendendo a permanecer mais tempo focado no mesmo pensamento, a experiência da meditação trasforma-se completamente. Se você já praticou corrida sabe do que estou falando, no início parece insuportável, com o tempo pode até viciar. Meditar é conseguir dar mais atenção a você mesmo. Pense se você ficasse olhando para uma flor durante 5 minutos, sem pensar em mais nada, quantas informações você teria sobre ela que você nem sabia? Agora pensa fazer 5 ou 10, ou 15 ou 20 minutos deste mesmo exercício com você mesmo. Quanto você também não sabe sobre você?