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Ioga Brasileira, Yoga e Política – Podcast #44

Ioga Brasileira, Yoga e Política – Podcast #44

O canal Porta dos Fundos, produziu um vídeo chamado Ioga Brasileira que mostra uma aula de Yoga na qual a professora usa as técnicas para falar de política. O vídeo brinca com a ideia de que até numa aula de Yoga onde as pessoas vão para relaxar, fala-se o tempo todo de política.

Em muitos momentos da sua história, o Yoga associou-se ou modificou-se conforme acontecimentos políticos. Entenda como isso aconteceu no #44 º episódio da série Reflexões de um YogIN Contemporâneo.

Bons estudos e Namastê!

 

 

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Transcrição:

Ioga Brasileira, Yoga e Política – Podcast #44

 

O meu nome é Daniel De Nardi e está começando o 44º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”, um podcast semanal a respeito de yoga e espiritualidade.

Você está ouvindo a música do francês Camille Saint-Saëns, O Carnaval dos Animais.

O canal do YouTube Porta dos Fundos publicou recentemente um vídeo chamado Ioga Brasileira, este vídeo é um sketch que apresenta uma aula de yoga em que a professora fica falando muito sobre política e, nesse caso, falando mal do PT.

(Trecho do vídeo)

É como se a prática do yoga fosse o momento para se extirpar a maldade que o PT fez nesses treze anos de poder, depois mostra o outro lado também, falando que o PSDB esqueceu o povo, aquela dualidade política que é bem tradicional nos discursos e que é apresentada o yoga como um ambiente em que não poderia haver este tipo de politização, até mesmo nesses ambientes existe este tipo de politização. O vídeo é engraçadinho, não é muito engraçado, mas ele traz um tema importante em relação a história do yoga como um todo eu é essa relação do yoga com a política.

Ao longo dos anos, como o yoga sempre foi uma linha de pensamento e de práticas que não eram da cultura tradicional, ele sempre foi um coisa mais underground, ele foi permeado por disputas políticas e por ambientes em que a política também se envolvia. A gente pode citar muitos casos aqui, mas o primeiro deles é que embora haja citações do yoga no Rigveda, o yoga passa a ganhar estrutura mesmo nas Upanishads, então os vedas são textos mais antigos do hinduísmo, com mais de cinco mil anos, e com mais ou menos três mil nos começaram a surgir as primeira Upanishads, que são textos que, de alguma forma, reinterpreta o que é dito nos vedas e de alguma forma, também, contestam isso. As Upanishads começaram a crescer como um movimento de contestação e o yoga se reforça dentro delas.

Então, esse já é um primeiro momento em que a prática e a filosofia do yoga estão ligadas a um movimento político. O segundo momento, que a gente viu aqui em alguns episódios falando sobre o tantra, é que o yoga se envolveu muito no processo do movimento Gupta, do movimento tântrico, de expansão da cultura. Foi no processo de valorização do corpo que o próprio Hatha yoga começou a ter mais força e o yoga começou a ser mais conhecido. Aqui a gente está vendo dois movimentos em que o yoga está relacionado à política e está relacionado a uma parte de contestação do stablishment. O primeiro momento são as Upanishads, que reforçam de ideia do yoga que já elaboram o yoga como uma técnica, um processo de diminuir a agitação mental, e as Upanishads contestam os vedas. Do outro lado, temos mais ou menos no século III d.C. um outro movimento, que é o movimento do tantra, que cresce muito a partir desta época e que também reforça o yoga. Inclusive, uma valorização do corpo no sentido de um expressão e de uma manifestação divina, o nosso corpo tem tudo que existe de mais perfeito no universo. Essa era a visão do Tantra, o Yoga também se aliou a essa visão e já são dois momentos bem marcantes para a história do yoga como um todo e para a história da Índia.

E agora nós vamos falar de um terceiro movimento, político também e ideológico, que aconteceu na Índia, que foi o Adshan Karashaya, ele é considerado o maior reformador recente do hinduísmo. E quando se fala em recente, estamos falando do ano de 788 da nossa era, e ele morreu em 820 d.C., vivendo apenas 32 anos e morrendo na cidade de [inint 6:06], que é uma cidade nos Himalaias. Provavelmente ele morreu de frio ou de fome fazendo peregrinações.

Então essa época, final do século VIII, em torno de 780 e início do século IX na Índia, o país começou a enfraquecer a visão do hinduísmo, que havia sido bastante reforçada pela dinastia Gupta, no século III, mas ela começa a enfraquecer a partir da queda deste império, mais ou menos em 700 d.C. e com a entrada dos muçulmanos, que passam a invadir e impor sua cultura. Além disso, o próprio budismo estava muito forte nesta época, e o jhaianismo. O hinduísmo, nesta época de Adisham Karashaya, não tinha muita força, mas existiam pesquisadores, estudiosos e sábios chamado Mi mansas, ele realizavam estudos e difundiam ideias contidas nos primeiros textos do yoga, além de manter o conceito do hinduísmo presente na sociedade, porque ela tinha perdido muito a força, como falei, os textos do budismo, do jhayanismo e do islamismo estavam ganhando mais força.

O que Shankarashaya fez foi usar a força desse mi mansas e organizar em vários grupos, sistematizando o que seria o hinduísmo. Então, ele criou o Vedanta (que significa “depois dos vedas”) e as Upanishads foram escritas depois dos vedas. A gente pode, então, dizer que existe três momentos do Vedanta. O Vedanta como estudo das próprias Upanishads é o primeiro momento, o segundo é o da reorganização e integração do yoga por Schankaracharya, e aqui temos o yoga fundido a movimentos políticos e de caráter ideológico.

Schankaracharya é um personagem bastante contestado, os tântricos costumam criticá-lo muito porque ele pôs essa visão do hinduísmo de uma forma muito bruta, muitas vezes impondo por meio de guerras. Por outro lado ele fez esse trabalho de valorizar todas as culturas hindus locais, então o que ele fez foi que toda a forma, toda a manifestação de divindade de Schankaracharya passou a ser válida dentro do hinduísmo. Existiam muitos deuses (deus Surya, que é o sol; Ganesha, o deus Krishina), e o que Schankaracharya fez foi mostrar que todas as divindades poderiam ser reconhecidas e que tudo teria o seu valor e seria uma representação da divindade suprema, verdadeira.

Isso foi bom para a valorização de cada cultura local, cada pessoa teve a liberdade de escolher aquilo que ela achava mais importante em termos de espiritualidade. Por outro ado, Schankaracharya deu um reforço no sentido de que isso não havia no movimento tântrico e não tem nas Upanishads que é a desvalorização do corpo, ver o corpo como um empecilho para a elevação espiritual. Isso ficou muito marcante nesse segundo momento do Vedanta e hoje em dia acaba sendo diluído. Essa parte de mortização do corpo, se for um Vedanta mais tradicional, ele irá manter, como por exemplo aqueles rituais ou aqueles retirantes que ficam muito tempo com a mão para o alto, é uma forma de dizer que o corpo não tem valor.

Mas o vir para o ocidente, não foi bem visto este tipo de pensamento, então houve uma atenuação deste Vedanta, hoje não há essa visão de que o corpo nos impede de uma vida mais espiritual. O yoga, assim como o hinduísmo era um assunto que havia caído em desuso, Schankaracharya trouxe ele à tona quando classificou o yoga como uma das visões importantes que se poderia entender o universo ou entender o hinduísmo.

Schankaracharya era um retirante, ele era um Saniássin que são pessoas que abrem mão dos seus bens materiais para seguir uma vida de peregrinação e de busca espiritual. Eles visitam locais e divulgam as suas ideias recebendo contribuições para viverem, isso é muito comum na Índia e começou a ser ainda mais valorizado a partir de Schankaracharya. Ele começou a valorizar esses retirantes, esses “homens santos”. Há sempre muitos charlatães, quando se vê um Sadhu, existe a ideia de que ele é uma ser iluminado, mas não, nem sempre, às vezes é o modo de vida dele, em outros ele abriu mesmo mão de um padrão social para fazer esta busca que é vista como algo correto e produtivo. Nem todos abrem mão dos bens, mas muitos praticam o saniassem (abrir mão do bem material por algo maior).

Existe uma passagem conhecida na vida de Schankaracharya em que estava em Varanasi – a  cidade mais antiga da Índia, que foi um centro de cultura e de proliferação das culturas do hinduísmo, dos vedas e das próprias Upanishads, então é um ambiente que pra Índia tem muito valor, lá acontece muitos eventos como o Kumbamela (que é um encontro e Sadhu de toda a Índia) – e um Tchandala   (nome dado ao indivíduo pertencente ao grupo de casta indiana responsável pelo cuidado com cadáveres, considerado o mais baixo na linhagem de castas) caminhou para perto dele que olhou com certo asco e, por mais que ele tentasse afastar o Tchandala, este se aproximava mais (quem estiver acompanhando o podcast pelo YogIN App, conseguirá ver um trecho de um filme que tem exatamente esta cena) e o questiona dizendo que se, na visão de Schankaracharya, todo o ser tem uma divindade, no fundo, todos são iguais. Schankaracharya reconhece esse argumento, afinal a sua ideia era valorizar todos os deuses e a todos os indivíduos como seres independentes que tinham dento de si a divindade.

A partir do argumento deste Tchandala, Schankaracharya o reverencia tocando em seus pés com a testa (símbolo de que reconhecimento e igualdade), um ato que evidencia o fato de que todos os seres são iguais.

A música que nós começamos o podcast de hoje é do Camille Saint-Saëns que começou a compor muito cedo, nasceu em 1835 e morreu em 1921, teve uma vida longa. Ele foi um grande estudioso da música, da história da música. No início do ´século XX começou a ter movimentos culturais nas França que Camilli não quis participar, dentre eles o movimento Impressionista, que é um movimento liderado especialmente pelo Debussy e o movimento (que eu não gosto) Dodecafonismo, que quebra a estrutura natural que a gente tem e usa uma outra estrutura nem sempre agradável aos ouvidos, tendo como objetivo produzir angústia, desconforto, não é um tipo de música que me agrada, muito menos a Sensei.

Camille Sensei continuou a compor músicas mais românticas, com expressão, como movimento, com melodia, uma música agradável. Como conservador, Sensei acreditava que a mudança na música deveria ser aos poucos, que cada um iria trazendo algo um pouco mais elaborado. Ele foi professor de um outro músico chamado Faurret que foi o professor de Ravel, então o Bolero de Ravel, de certa forma, é um desdobramento do estilo de Sensei.

Ele tem músicas belíssimas, nem todas são famosas, mas a mais conhecida é esta que vamos ouvir, chamada “O Carnaval dos animais”. Esta música lembra um livro bastante conhecido no meio para falar sobre política que é a “Revolução dos Bichos”, de George Orwell (de 1945). Orwell escreveu, também o clássico “1984”, uma analogia ao controle que o governo poderia ter.

A “Revolução dos Bichos” é um livro bastante interessante porque ele mostra de uma forma muito simples o que se passa no meio político. A história é de uma fazenda em que todos os animais passam a ser explorados pelo dono. Um dia eles fazem uma reunião, liderada pelos porcos, que eram considerados os animais mais inteligentes, que mostram o descontentamento com o Sr. Jones (o fazendeiro). Eles decidem expulsar Jones da fazenda e, na ausência de outra liderança para cuidar da fazenda, ela passaria a ser cuidada pelos porcos que lideraram a reunião e era os mais inteligentes. Inicialmente todos ficam felizes, criam sete normas e decidem que cada um iria trabalhar em pró do grupo.

Os porcos passaram a acreditar, que pelo fato de estarem no poder, precisavam comer melhor, afinal a inteligência dele acabava exigindo isso. Eles começaram a adaptar as normas, não era permitido beber, mas como se consideravam os mais inteligentes, adaptaram esta norma também. Assim, ele foram manipulando as próprias regras e começam a exercer um poder sobre os outros animais através de ameaças. As coisas vão se agravando e fugindo do controle e o final do livro mostra que poder assola a qualquer um, mesmo a um oprimido.

O ponto aqui é que sempre quando alguém tiver poder na política, ele não será um abnegado, agindo pelo bem da humanidade, o que a gente tem que esperar é que a pessoa vai agir de maneira totalmente individualista, sendo assim a melhor forma de resolver esta questão é dar menos poder ao governo. Como, no caso do livro, cada bicho decidir a quantidade necessária de comida para si, não os porcos ou o Sr. Jones. Porque quem estiver no poder vai se aproveitar para o benefício próprio e como no governo todo mundo paga, não é justo que a pessoa ganhe benefícios sem o mérito dela, simplesmente porque ela está em uma posição privilegiada, assim como os porcos podiam manipular as leis os políticos fazem manobras que a gente não consegue entender por não estar lá dentro.

Uma boa audição! Com vocês, “O Carnaval dos Animais”.

Uma novidade, a partir da semana que vem vai entrar no ar um novo podcast chamado “Yoga Falado”, com textos que escrevemos para facilitar para quem não tem tempo para ler. Caso você tenha sugestão de textos para que a gente lei, pode deixar nos comentários.

Hariom

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.