A ilusão dos sentidos – Podcast #46

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Podcast de Yoga | 19 dez 2020 | Daniel De Nardi


A ilusão dos sentidos – Podcast #46

A busca da espiritualidade indiana sempre buscou discernir o que é a verdadeira essência de cada indivíduo e o que ele pensa que é (corpo, sentidos e pensamentos). O podcast de hoje vai tentar explicar como os sentidos funcionam e porque não somos o que sentimos.

 

 

LINKS

 

“A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas.”

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

                                                         

 

 

Ebook Yoga

 

 

 

Memórias anteriores determinam decisões – audiobook Blink – https://twitter.com/danieldenardi/status/941251828926304256

 

 

Como a Memória é formada

 

 

 

Curso Yoga – Formação de Professores

Transcrição:

A Ilusão dos Sentidos – Podcast #46

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi. Esta música é de Villa Lobos, compositor brasileiro, “Bachianas Brasileiras”. Está começando o 46º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”.

Marcel Proust é considerado um dos principais escritores do século XX. A principal característica que Proust imprimiu em suas obras é um perfeito retrato das memórias. A sua obra mais famosa, “Em Busca do Tempo Perdido”, é um livro com seis volumes que vão recontando a vida que viveu na infância, uma vida de muitas dificuldades em termos de saúde. Proust era uma pessoa muito rica, muito abonada, se diferencia da maior parte dos escritores, então ele pôde viver uma vida com certa segurança financeira. Por outro lado, teve muitas dificuldades relacionada à saúde, morreu muito jovem, e retratou nesses livros de cerca de quinhentas páginas a sua memória.

O ponto é se tudo aquilo que Proust traz nos seus mínimos detalhes realmente aconteceu. Se aquilo é um retrato fidedigno do que aconteceu, ou se é o retrato de uma memória, de uma reinterpretação. E o que nos vamos descobrir hoje é que tanto o que imaginamos ser verdade pode ser um fato que o cérebro criou, dando uma ilusão ou uma falsa impressão da realidade.

A gente sempre houve afalar que somos nossas experiências, será que podemos acreditar no que a nossa memória recorda e no que estamos presenciando em termos de sentido? O podcast de hoje vai trazer um pouco dessa reflexão. Isso tudo começa porque estou desenvolvendo um livro que vai se transformar em audiobook chamado “Yoga do Auto Conhecimento”. Publiquei recentemente na parte de e-books do YogIN App, que vou deixar o link na descrição, três livros novos. Eles podem ser baixados gratuitamente, mas caso queiro ouvi-los, terá um custo no valor de R$18,00.

Os três livros são três capítulos que podem ser lidos à parte, sem nenhum prejuízo a compreensão, mas todos fazem parte do Yoga do Auto Conhecimento, que está para sair nos próximos dias. Dentro deste livro, eu trago uma ideia muito presente na inteligência indiana que diz que não somos o que o nosso corpo é, não somos o que pensamos e não somos nem o que sentimos, O que acredita-se ser a verdadeira essência, é a observação que está por trás, é a consciência onipresente que a tudo observa. E nesse livro, trago exemplos e uma explicação do porque não somos o corpo. Essa não é uma explicação difícil de entender, uma vez que se você perder você vai continuar sendo você mesmo em essência. Até se uma parte do cérebro for retirada, é possível uma reorganização dos neurônios de forma a organizar o que se é em essência. Então, nós não podemos ser o corpo porque o que nós somos é algo eterno e é algo muito expandido, mas pelas limitações, a gente acaba limitando a nossa expressão do eu com aquilo que a gente consegue perceber, mas isso é uma ilusão que vai gerando todo o sofrimento, que é, em boa parte, uma ilusão que precisa ser desfeita.

Então, se você é o corpo o que pode vir a ser? Os pensamentos? Também não. As sensações? Também não. No livro, eu explico que nós não somos as sensações dando o exemplo do Beethoven, que foi alguém que perdeu a audição, que era a coisa que mais valorizava, ele vivia para ouvir música, e para compor música. Mas, apesar disso, ele continuou compondo músicas maravilhosas, continuou sendo ele na essência. Isso é uma explicação que já dá para entender um pouco, que a gente não pode contar com os sentidos, mas a gente pode elaborar mais essa explicação.

Dentro deste livro, eu dou uma explicação ampla sobre os assunto, mas quando eu quero aprofundar, indico algum podcast que eu já tenha produzido, assim como artigo ou e-book. Então, o audiobook ou o livro tá muito completo no sentido de dar essas referências para quem quer se aprofundar.

O podcast de hoje é um aprofundamento desse capítulo do livro que fala que não somos aquilo que sentimos. A Índia tem essa preocupação em mostrar que não somos nem os sentidos, nem a decorrência do que sentimos, que são as memórias. Porque essas memórias podem ser construídas pela mente e não corresponder com a realidade.

Como é que a memória se forma no nosso cérebro? A gente tem uma sensação, por conta do computador ou de um sistema de biblioteca, que a memória é algo que está armazenado em determinado ponto do nosso cérebro, e que quando a gente precisa recorremos a ela, mas na realidade não é assim que funciona. Então, como a memória funciona? Toda vez que a gente está num ambiente e a gente cria uma impressão do ambiente, os nossos neurônios formam uma espécie de caminho, que gera associações e que acabam registrando momentos específicos não só com uma sensação, mas com uma série de detalhes.

Pesquisas realizadas com pessoas que presenciaram o ataque as Torres Gêmeas, no 11/9, relatam que ela conseguem detalhar o cheiro da fumaça. Aquele momento foi tão marcante na vida delas que o cérebro passou a registrar tudo o que acontecia no momento. Muitas vezes uma outra sensação pode recriar um fato específico ocorrido. Quando a gente marca uma impressão, quando temos uma sensação, ela é marcada não apenas como algo único (como, por exemplo, o sabor de um sorvete), mas com um ambiente como um todo.

Quem tem o hábito de ouvir podcast, muitas vezes está buscando algo que ouviu ou aprendeu em um determinado podcast e se lembra do local em que se estava quando ouviu esta relação. Isso é muito natural porque o que marca uma sensação, como já expliquei, é tudo o que estava acontecendo naquele momento.

Isso responde, por exemplo, o que seria um Deja Vu. Por que, às vezes, pensamos “Acho que isso eu já vivi”? Por que um determinado fator pode resgatar a memória e o corpo consegue refazer, reconstruir de uma maneira como se se vivesse algo novamente. Usando o exemplo de um sorvete: eu tomo um sorvete e, então, o meu cérebro vem a sensação que agora eu vou tomar água e eu e vou estar naquele ambiente, então ele projeta o futuro, só que na verdade você está vivendo este momento que não necessariamente tem uma correspondência, mas o cérebro, pela água, traz outras sensações e ele dá uma outra sensação de que o futuro será uma correspondência com o que já aconteceu.  O Deja vu acende essas ligações que a gente fez nos neurônios e dá a sensação de que a quilo que aconteceu no passado vai acontecer novamente, você tem a sensação que se sabe qual vai ser o futuro, mas no fundo você está apenas reacendendo uma percepção que já está marcada no seu cérebro. As memórias ativam sensações que não são necessariamente reais.

Tive um namoro em que comecei a tomar suco de tomate, pelo fato de ela tomar, até que nunca mais tomei. Recentemente, estava no supermercado e acabei comprando o suco. Já em casa, quando servi o suco, senti uma saudade muito grande desta namorada, senti até uma carência de não estar com ela naquele momento. Parei para refletir se aquilo era real ou se simplesmente uma das percepções tinham reconstruindo uma sensação no meu cérebro e trazido à tona informações que realmente aconteceram, mas se eu parasse para analisar, eu não estava com nenhum tipo de saudade nem com nenhum tipo de vontade de vê-la. O suco simplesmente trouxe toda a história e as conexões que já existia. Como falei, um sentido pode reacender todas as relações neurais que você já teve e trazer a memória como se fosse algo verdadeiro.

Os sentidos, a memória, aquilo que a gente vivencia não estão, necessariamente, representando a nossa verdadeira essência, a nossa vontade de fazer ou agir de determinada forma em determinado momento. Poderia, simplesmente, ter achado que o meu namoro poderia continuar, que eu deveria ligar pra ela, mas foi tudo construção de uma percepção específica, que reacendeu determinadas sensações dentro do meu cérebro, e tais sensações não são necessariamente verdadeiras. Elas simplesmente foram acesas e ganharam um fogo por conta de um sentido que eu despertei.

Diferentes animais se guiam por diferentes sentidos, usa-se, prioritariamente, diferentes sentidos. A gente acha muito óbvio que se chegue em um ambiente, se olhe e se entenda o ambiente a partir da visão. Mas não são todos os animais que funcionam desta forma. O cachorro, por exemplo, se orienta prioritariamente pelo faro, quando ele chega no ambiente, ele cheira o local porque ele está reconhecendo. Animais como os golfinhos, se orientam pelo som, eles emitem o som e sabem qual é a sua vibração, como ele ressoa, e assim percebe-se distância e uma série de informações.

Cada animal tem o seu sentido prioritário, embora os outros sentidos também auxiliem. O sentido mais usado pelo ser humano é a visão, ela e muito presente para a nossa orientação do mundo, então ele acaba sendo o sentido mais forte e mais expressivo para nós.

O pesquisadores da Universidade de Washington tentaram entender qual era a capacidade do ser humano de ver, qual era o processamento do sentido da visão. Primeiro, é importante entendermos que a memória não é uma questão de espaço, ela é uma questão de processamento. E é bom entender isso agora usando realmente a analogia do computador. O computador tem duas memórias, assim como nós, que é a memória de longo prazo, que é o disco rígido, e a memória de curto prazo que é a memória RAM. O ser humano tem memórias de longo prazo, que são coisas muito maçantes, que a ligação neural fica muito presente que qualquer um dos sentidos pode reacendê-la, mas também tem memórias de curto prazo que ocorre, por exemplo, com pequenas coisas vistas rapidamente no dia-a-dia e se for marcante, ficará na memória eternamente.

O que dificulta o nosso acesso não é a falta de espaço, isso sempre teremos. Você pode estudar todos os dias 15 horas por setenta anos que ainda assim se terá espaço dentro da memória, isso significa que é infinito. Ninguém consegue estudar 15 horas por dia. O espaço existe, talvez o que não tenha é a capacidade de processamento, que seria trazer a informação neural à tona. Isso é o que dificulta porque quando a memória é antiga e não tem relevância, é como se você criasse um caminho, e ele te trouxesse a sensação, mas com o passar do tempo, a memória antiga vai criando um “mato” nesse caminho e é difícil passar por ali, então se esquece como chegar. Vemos isso claramente com o aprendizado, quando se está aprendendo algo novo, há uma espécie de treinamento para que o cérebro faço um caminho. Digamos que se esteja aprendendo uma nova língua, o cérebro começa a criar relações com a língua que você já conhece, ou com outra língua ou com objetos…ele está criando um caminho. Se você está praticando regularmente essa língua, o caminho está aberto. E caso fique dez anos sem falar você não irá perder, haverá apenas uma dificuldade de encontrar o caminho, uma dificuldade em acessá-lo. É como se no caminho tivesse crescido “matos”, então é difícil acessar, muitas vezes se tem que ir pelo lado para encontrar um atalho.

Esses aminhos que a gente vai criando dentro do cérebro dependem de uma prática, de uma repetição, e isso e a capacidade de processamento. Se algo está muito presente na sua vida, o cérebro precisa de pouco para processar, mas para resgatar uma habilidade que existia quando se tinha quinze anos, o cérebro precisa de mais capacidade de processamento.  

Esses pesquisadores da Universidade de Washington chegaram a conclusão de que nós temos na nossa visão 341 megapixels de capacidade, o que é muita coisa. Um iphone, por exemplo, tem cerca de 10 megapixels. Eles fizeram esse cálculo percebendo que o olho humano em cada ângulo consegue detectar 150 porções, um pixel é uma “luzinha”, então nove megapixels são milhares de luzinhas dando uma definição maior. Em cada ângulo da nossa visão a gente consegue detectar 154 pixels ou unidades mínimas, como a gente consegue 120° de visão, seja na vertical ou na horizontal, se multiplicar esses dois valores se chega a 341 megapixels.

Mas existe um problema, o que faz o foco da nossa visão, que fica bem no centro do olho e é chamado de fobia, só tem 7 megapixels. Ela tem uma capacidade menor que um celular. Mas onde estão os outros megapixels existententes na visão? A fobia se movimenta o tempo todo, ela faz 150 mil movimentos por dia, toda vez que ela capta uma informação, o tempo que essa informação demora para chegar no nosso cérebro e pra ser processada é de 0,2 segundos. Então você fica 0,1 segundo sem informação porque a recebe em 0,2, depois a processa e emite a primeira informação. Então você olha algo, o cérebro absorve e decodifica. Se multiplicarmos o número de movimentos com o tempo em que ficamos sem receber informação, chegamos a 4 horas. O que significa que em 4 hora do seu dia você vive uma espécie de “apagão”, só que o cérebro não deixa essa sensação porque ele reconstrói a imagem baseado em padrões que ele já possui, dando a sensação de que aquilo é um filme contínuo totalmente correspondido com a realidade, mas não é. Então, quando você vê uma bola se deslocando, você não está, necessariamente, acompanhando todo o movimento do objeto, na metade do tempo o seu cérebro está construindo aquela trajetória baseada na experiência que ele já tem. Logo, tudo o que vemos tem uma ilusão de ótica junto que o nosso próprio cérebro produz pra gente não ficar sem informações. Se não, em 4 horas do nosso dia tudo ficaria preto, não iriamos ver nada. Esse é o tempo da informação de fora ser processada e decodificada pelo cérebro em forma de imagem ou como som.

O cérebro reproduz essas imagens baseado em memórias antigas. O que a gente constrói e o que a gente vê em boa parte não é a realidade, mas é a construção de memórias antigas que dão a sensação de um filme, de algo contínuo, mas o que está acontecendo é uma interrupção contínua. Entre o processo de informar e decodificar, o cérebro insere imagens que não existem, mas que preenchem esses espaços vazios. Isso pode criar falsas imagens e falsas lembranças. Quando vivemos uma situação, a gente tende a criar aquelas imagens asseado no que repertório que já temos, para “tapar o buraco” de algo que a gente não tenha captado e que é importante. Os testemunhos não um valor de verdade porque sabemos que a memória engana, ela tem muita ilusão de ótica, o que demostra que se ela é uma ilusão, se ela não corresponde à realidade, ela não pode ser a essência de cada indivíduo.

A única coisa que tem como verdadeira é a consciência que observa, não são sentidos, não são sensações, não são movimentos da memória, nem mesmo o corpo e os seus pensamentos, o eu é a natureza observadora.

Agora nós ficaremos com uma música de Heitor Villa Lobos. Quem conhece um pouco de música clássica, deve ter até estranhado porque fiz 45 episódios, citei outros brasileiros, não tão famosos como Egberto Gismonti e Carlos Gomes, e não citei o maior (ou pelo menos o mais conhecido) compositor brasileiro que é Heitor Villa Lobos. Hoje você vão ficar com uma música chamada “Bachianas Brasileiras”. Villa-Lobos é o compositor brasileiro mais conhecido e tocado fora do país. Quem está acompanhando pelo aplicativo, vai ver uma apresentação feita em Berlim, num festival de música, a Alemanha é um dos centros de música mais importantes do mundo e gerou grandes gênios como Bach e Beethoven.

Para finalizar, gostaria de deixar um agradecimento para todos os alunos que participaram da finalização do curso de formação de 2017, do segundo curso que o YogIN App organizou. A gente fez uma avaliação neste final de semana no espaço Luna, aqui em São Paulo, mais de 40 professores fizeram a avaliação teórica e prática com várias horas de avaliação, a gente filmou tudo e agora está disponibilizando para esse alunos. Esse curso tem a proposta de ser praticamente 90%  online, a gente entrega esse conteúdo, e temos dois encontros presenciais para ter o contato, corrigir e para ver as aulas de quem passou pelo curso, para dar feedbacks verdadeiros que eles irão usar no dia-a-dia quando eles tiverem dando aula e poderem, quem quiser,  se aprofundar no yoga Vou deixar o link do curso para quem tiver interesse, já abrimos as inscrições e temos mais de 15 pessoas na próxima turma, e a gente vai começar dia 05 de março a quinta edição do curso de formação, a gente vai acrescentar ainda mais material, quem fez os cursos anteriores pode ver este material novo, então vai ter muita coisa bacana no curso de formação, mas o curso em s já está agradando muito, as pessoas gostam e tem elogiado bastante e eu fico muito feliz com isso porque o nosso trabalho do yoga é ampliar, não queremos apenas que a pessoa pratique yoga, como yogINs, temos a vontade de transmitir teoria, o que faço nos podcasts e no curso, além do acompanhamento diário com quem tem dúvida através do grupo no Facebook. Vou deixar o link.

Fique agora com Bachianas Brasileira de Heitor Villa Lobos.  

 

 


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Daniel De Nardi>

Daniel De Nardi

Sou Professor de Yoga há mais de 25 anos certificado pelo Yoga Alliance E-RYT 500, reconhecida como uma marca registrada de treinamento de Yoga de alta qualidade, seguro, acessível e equitativo. Também sou o fundador do YogIN App Escola de Yoga Online que se divide em: YogIN App Studio - Aulas de Yoga Online YogIN App Academy - Cursos de Yoga Online Tenho interesse no estudo do Yoga e das raízes dessa Filosofia Milenar. Sou autor dos livros: Asana: Posturas do Yoga Como o Conhecimento Liberta do Sofrimento Sámkhya: Ancestral Filosofia Moderna O Yoga do Autoconhecimento As origens do Yoga e da Meditação Pra que Meditar? Como Funciona a Meditação O Yoga e o Stress Produzo a série de podcasts "Reflexões de um YogIN Contemporâneo" do YogIN Cast, o canal de podcasts de Yoga mais acessado do Brasil. Instagram: @reflexoesdeumyogin

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