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A força das histórias – Podcast #26

A força das histórias – Podcast #26 da série Reflexões de um YogIN Contemporâneo

Esse podcast trata da força de transformação que as histórias tem no desenvolvimento dos indivíduos.

 

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Curso Yoga – Formação de Professores

 

O início do Yoga – Podcast #24

 

 

 

 

 

 

 

 

Transcrição do Podcast #26 –  A Força das Histórias

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi, você está ouvindo a 2ª Sinfonia de Gustav Mahler e esse é o 26º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”. Um podcast semanal a respeito do yoga e doa assuntos cotidianos.

O podcast de hoje se chama o Poder das Histórias, o que eu vou tentar mostrar aqui é a força que uma histórica bem contada ou uma história que aconteceu como um exemplo pode nos ensinar e nos transformar efetivamente. Mas antes eu queria falar que eu estou muito feliz, foram muito acontecimentos nesses últimos dias, de trás pra frente, o primeiro deles foi a finalização da terceira turma do curso de formação, então nós finalizamos mais um grupo de 25 pessoas, que estudaram, se prepararam, algumas delas fizera avaliação, outras não. E no dia 07/08 nós começamos a quarta turma, então a gente já vai fechando esta turma, quem tem interesse ainda tem algumas vagas, vou deixar o link na descrição. Dia 07 começa o curso de formação em yoga no YogIN App, eu não vou entrar em detalhes do curso hoje, mas quem tem interesse vale a pena dar uma pesquisada, falei sobre o curso em outros episódios e o que eu vou falar um pouco mais hoje é sobre um outro curso que a gente está desenvolvendo, esse curso já está pronto, o curso da formação, mas como já passaram mais de setenta pessoas por ele, e tem muitos professores que não tem interesse em fazer uma formação, por já terem feito, eles gostariam de se aprofundar, então nós estamos montando uma formação nível 2, ela vai contar com alguns professores do YogIN App e alguns professores convidados que serão: eu, a Mayara, a professora Sá Souza, a professora Renata Mousini, a professora Bianca Vita, a professora Eliana, nós vamos montar um currículo conforme o que acharmos mais importante para as pessoas que já fizeram um formação ou para aquelas que estão para começar a darem aulas e querem um segundo nível, essa formação nível 2 vai começar em setembro e é exclusiva para quem já tem formação em yoga. Quem não tem nenhuma formação, poder procurar uma escola na cidade onde mora ou fazer a formação nível 1 do YogIN App, porque essa vai ser bem mais avançada, só para quem está mais inteirado no assunto.

No podcast 24 eu tratei sobre o surgimento do yoga, então abordamos a época de Patanjali, mais ou mesmos 500 anos a.C., agora nós vamos estender um pouco mais ao longo da história, então vamos sair de Patanjali e vamos chegar mais ou mesmo 280 anos a.C. então vamos andar cerca de 220 anos de história. Nesse momento, a Índia passa por uma transformação muito importante, Patanjali compõe os versos dele na época em que é considerada o nascimento de Buda, então tanto o yoga quanto o budismo beberam das mesmas fontes que foram os vedas e as Upanishads, então não se sabe quem emprestou conceitos a quem, os conceitos do yoga, nessa época, esse tipo de literatura e coisas que estão até hoje e coisas do budismo se mesclam muito, sendo difícil diferenciar. Não vou me aprofundar nessas semelhanças, mas a gente pode ver, por exemplo a utilização do número 8, como algo bastante recorrente, isso já era inspiração da Upanishad, termos como pragnya que é um conhecimento profundo, existem tanto no Dhammapada que é um texto importante do budismo, quanto no Yoga Sutra. Mas o que acontece é que o budismo ganhou força naquela época, muito mais que o yoga, em 280 a.C. um rei da Índia, Asoka Maurya, se converte ao budismo – ele tinha sido um imperador bastante doutrinário –, talvez por uma questão de Karma ou sensação de culpa, então ele foi de um extremo a outro porque o budismo prega muito a questão do ahimsa, da não violência, e ele fez com que toda a Índia se convertesse ao budismo e, então o país ficou durante muitos anos, predominantemente budista, entre 300 a.C. a 300 d.C., após esse período surge uma dinastia importante, dos Guptas.

Comentei sobre os Guptas em outro episódio, mas o seu domínio se estende mais ou menos de 300 anos d.C. a 700 d.C., eles dominaram praticamente todo o território indiano e fortaleceu novamente o Dharma do hinduísmo, então a Índia voltou debater e a trazer assunto relacionados e buscar sempre como fonte de inspiração. A época dos Guptas, foi de muita produção de cultura, que passou a ser produzidas por todas as castas. Até então, o que era considerado superior era produzido pelos brâmanes, que eram os sacerdotes, eles produziam um conhecimento que tinha valor. A partir dos Guptas passa-se a valorizar todos tipos de conhecimento, de cultura. Então foi um momento em que a população começou a produzir cultura e esse foi o ambiente em que o Tantra floresceu, como um filosofia bastante tolerante no sentido ideológico e um trabalho de fortalecimento da base de todos os indivíduos e não só dos sacerdotes. Então o tantra faz esse processo de valorização de cada indivíduo à medida que cada um passou a ter um valor de divindade. Como um todo, o ambiente era muito tolerante e tinha uma forte presença do hinduísmo, ao final da dinastia, eles coletaram boa parte desta literatura vasta que tinha sido produzida em diferentes espectros da sociedade, e produziram os maiores épicos indianos que mantém a sua grandeza até hoje. Que são o Ramayana e o Mahabharata. Aqui vale pontuar que, muitas vezes, quem estuda yoga e dá aula de yoga sofre um certo preconceito por quem estuda filosofias ou fontes ocidentais. Uma pessoa que estuda filosofia grega, pode ter um certo desprezo para quem dá aulas de yoga. Aquela coisa meio primitiva, meio mística, sem muito valor, sem muita lógica, enquanto por outro lado pode-se  pensar no hinduísmo como algo difícil de ter fontes, muitas referências, escritos em caracteres não tão comuns…Estou falando isso porque as duas principais obras gregas, que acabam influenciando o sistema romano, que por sua vez dá origem ao cristianismo, então toda a nossa base filosófica e espiritual tem inspiração em obras gregas, como A Odisseia (com 12 mil versos) e A Ilíada (com 15 mil versos), juntando as duas obras teremos 27 mil versos, sendo que só o Ramayana, tem 47 mil versos e o Mahabharata tem 140 mil versos. Então esses épicos produzidos na mesma época tem uma diferença absurda em sua produção, em termos de quantidade. Claro que quantidade não significa qualidade, mas o fato é que a Índia teve bastante produção durante a sua história, na fase dos Guptas ganhou ainda mais força, porque os Guptas patrocinavam artistas, poetas, escritores, eles os bancavam para que continuassem produzindo.

Você deve estar se perguntando aonde eu quero chegar, sobre o que estou detalhando aqui tem a ver com o yoga. O ponto é que o yoga não foi um assunto trabalhado na época em questão, ele renasce com um comentário de Vyasa, mas ficou muito tempo esquecido após Patanjali. Ele renasce no final da dinastia Gupta com Vyasa comentando os Yogas Sutras e comentando os Yogas Sutras e trazendo de novo esse assunto para a pauta e para as discussões do dia-a-dia.

O Ramayana é composto por volta do século VII d.C., a obra conta a história do deus Rama (não cheguei a ler, mas existem vídeos na internet em que você consegue ver e entender a história) que, assim como todas as pessoas, foi jovem, tendo uma série de questões e angustias condizentes a idade. O local em que eles viviam, que é mostrado no Ramayana é Ayodhya e o pai de Rama era Dasharatha. Então vocês já devem ter ouvido um badham que cita Dasharatha, esse badham conta a história que se passa no Ramayana. Em determinado momento do texto, um brâmane, que é um sacerdote, um sábio, chega para o rei e começa a reclamar que haviam demônios atrapalhando o ritual dele, no lugar onde ele mora, e que ele precisa da ajuda de Rama para resolver o problema. Rama estava na adolescência, vivendo um conflito comum a idade, o Rei tinha que servir Vishwamitra, o sábio, porque este já havia ajudado a família real, então ele se via na obrigação de emprestar o seu filho para que pudesse ajudar na luta contra os demônios. Existia um brâmane, um conselheiro dentro do palácio chamado Vashishta – inclusive o lugar onde fui na Índia é a caverna de Vashishta Gufa, é uma lenda que fala que ali era o local em que o Vashishta meditava – que fala para o Rei que irá fazer um trabalho para que Rama fique preparado para a batalha, então após a preparação Ramayana surge pronto para a batalha.

Depois existia um texto na Índia chamado Yoga Vashishta, há um conflito em relação ao texto porque quem vê Rama como um deus não gosta de ver o seu momento de fraqueza detalhado no texto, o Yoga Vashishta são textos compostos por Valmiki, o mesmo escritor de Ramayana. É muito comum nas histórias indianas contar uma história dentro de uma história, então ele separou o trecho em que Vashishta se isola com Rama para ensiná-lo e escreveu alguns textos que levaram o nome em questão. Yoga Vashishta são as histórias que Vashishta conta a Rama e que o fizeram se transformar, se modificar internamente e se transformar em outra pessoa, após a conversa ele estava preparado, havia entendido o mundo e o seu papel.

As histórias tem um poder muito grande que eu acredito que a transformação interna dependa de um tipo de conhecimento técnico, mais teórico, e uma parte, daquilo que a gente consegue imaginar, porque no fundo os dois conhecimentos vão se entrelaçando, um vai apoiando a outro. Quando você tem mais histórias na sua cabeça consegue criar soluções para problemas bem práticos e intelectuais, por outro lado, se você ficar só como contador da história, muitas vezes não saberá a base do que está contando ou transmitir da melhor forma, porque não terá a técnica essencial para elaborar histórias e expandir a criatividade.

O trabalho deste podcast hoje é de justamente nos fazer ver a importância das histórias, das que Vashishta contou a Rama que o transformaram em um grande rei, num grande sábio, foram as histórias que o modificaram. E as histórias que acontecem com a gente, também aquelas que a gente absorve nos filmes, nos livros, tudo isso vai nos dando uma série de informações e vais nos deixando trabalhar com elas e contar a nossa história. Vi recentemente um filme que acabou de ser lançado em que a história de algo que a gente fala muito aqui, sobre não estar bem consigo mesmo, não estar ajustado. Falei em outros episódio que yoga pode ser traduzido por ajustamento também, o ajustamento com o Dharma, o ajustamento com o “eu”, e a gente fala sobre isso, voltar e se alinhar, mas muitas vezes é difícil fazer isso na prática, como está efetivamente acontecendo. Acho que esse filme que vi, chamado “De canção em canção” consegue mostrar bem como uma vida baseada no hedonismo, a busca simplesmente pelo prazer, fazer o que se quer – gera um vazio existencial, porque a pessoa acaba não construindo nada porque ela respondeu a impulsos, o filme retrata isso de uma forma bem executada.

O diretor do filme é Terrence Malick, um diretor difícil de assistir (você já devem conhecer ele pelo filme A Arvore da Vida) acompanhei um pouco a sua história não por ter gostado de Arvore da vida, que foi um filme marcante, apesar de não ter gostado.   Embora, nesse filme, tenha um estilo de uma viagem há também uma trilha que acaba marcando, pois tem uma história. Só que se você for assistir ao filme por indicação, encare como um dia em que você vai treinar asana mais forte, ou que você vai meditar por mais tempo, porque ele é um filem que exige uma certa resiliência e nos tira da zona de conforto, a forma como Mailick conta a história é totalmente diferente de como a gente está acostumado, o filme tem mais de duas horas e em nenhum momento é dito o nome de nenhum dos personagens, e a forma como o filme não tem narrativa é tudo em cima dos diálogos, mas o que passa – que é o que eu acho mais válido para o que a gente está detalhando aqui que é o poder de transformação da história – é muito importante, sobre desviar de um rumo, fazer coisas e depois ver que não tinha a ver com você. Então vale a pena, a minha dica vai ficar como ilustração de tudo o eu a gente falou e uma das músicas que faz parte da trilha sonora é a 2ª Sinfonia de Mahler que agora vou deixar mais um trechinho para vocês ouvirem, lembrando que na descrição de cada episódio eu sempre deixo a playlist do podcast que vem sendo construída desde o primeiro episódio, você pode seguir, é uma lista do canal no Spotify.

Espero que você esteja aberto para que as histórias toquem, de fato, o seu coração e para que você consiga também produzir e contar a sua história. Tem uma frase do escritor Varga Llosa (que ganhou o prêmio Nobel) em que ele fala “Toda vida merece um livro”.

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.