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Encontro com um Mestre – Podcast #18

Encontro com um Mestre – Podcast #18

No podcast de hoje, conto como foi meu encontro com um mestre, o líder de um dos mosteiro mais antigos da Índia.

  • O que ele disse?
  • O que me recomendou?

Saiba mais no 18 episódio da  série Reflexões de um YogIN Contemporâneo 

 

 

 

Os recibos de doações dos Ashrams!

Na Índia é comum darem um recibo quando você faz uma doação ao Ashram.

Links

 

 

 

 

Transcrição do Podcast

 

Encontro com um mestre #18

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi e está começando o 18º episódio de Reflexões de um YogIN Contemporâneo.

Em 2015, no final do ano, fui para Índia e gravei uma série de episódios em que eu contava o que acontecia na minha viagem. Sempre, ao final de cada dia eu gravava um podcast e tentava enviar no mesmo dia para os meus alunos acompanharem a viagem conforme ela acontecia. A Índia certamente é um lugar que nos abre a visão para vários aspectos, primeiro a cultura é muito sedimentada por ser ancestral, por ser muito antiga e você tem uma valorização dos costumes, diversidade, riqueza sobre os mitos, Índia dá muito valor aos significados. Por outro lado a pobreza, que não é tão massacrante como as pessoas dizem. A pobreza é inegável, mas não era algo que chegava a me incomodar a ponto de não querer voltar, acho que a pobreza faz parte da Índia porque ela é assim, um país diverso que tem desde a cultura mais rica até lugares com pessoas bastante pobres. Mas esta pobreza não é tanto em relação a fome, mas por escassez de trabalho, é um país muito populoso, tem mais de um bilhão de habitantes e é menor que o Brasil, então a gente tem esses contrastes.

Aconteceu uma experiência muito interessante, eu fui em algum ashram e eu pensei que deveria pesquisar qual ashram que o Mircea Eliade estudou. Então eu comecei a pesquisar (pra quem não sabe Mircea Eliade é um pesquisador de yoga muito famoso, escreveu um livro chamado “Yoga, Imortalidade e Liberdade” que é leitura obrigatória de estudiosos e professores de yoga, ele tem outras obras sobre o yoga, mas ele pesquisava a espiritualidade como um todo, sobre outras filosofias, religiões. Um intelectual romeno bastante lido no final do século XX) e ele viveu por um tempo na cidade de Rishikesh, que era a que eu estava visitando e eu são baia qual era o ashram e descobri que era o mesmo que os Beatles tinham visitado e era o mais antigo da região. Então isso tinha um significado muito grande porque, inclusive, o próprio Sivananda (mestre de yoga que criou um mosteiro de yoga em Rishikesh) estabeleceu o ashram na cidade.

Rishikesh é uma cidade conhecida como a capital mundial do yoga, acreditava-se que ali era o lugar ideal para meditação uma vez que ela é a primeira cidade que recebe o degelo dos Himalaias, há outros povoados menores, mas a única com estrutura de cidade é Rishikesh que fica a noroeste da Índia. É um lugar muito bonito, que vale a pena conhecer mesmo quem não tem interesse no yoga, só pela cultura local, pela beleza da natureza, você tem os Himalaias em torno da cidade, o rio Ganges passando no meio e tem duas pontes nesse rio e as coisas acontecem próximas das pontes, onde tem mais centros de yoga, centros Hare Krishina, centros de estudo de Vedanta, então há toda essa parte da espiritualidade junto com o comércio local e com um aspecto de cidade de esportes radicais, porque como tem o degelo do Himalaia eles fazem rafting e outros esportes. Isso eu conto mais na série de podcasts, quem quiser saber mais eu vou deixar o link aqui.

O assunto de hoje é sobre um dos episódios que aconteceu, quando eu fui ao ashram que é o mais antigo da cidade e, certamente, do País. Na Índia, é comum fazer doações pelas aulas recebidas; como eu tinha interesse em filmar ou gravar, ter uma entrevista com o chefe do ashram, expliquei para o primeiro monge que estava fazendo um documentário a respeito da cidade, que eu estava gravando, filmando, tirando fotos e gravando em áudio algumas coisas, perguntei se eu poderia ter uma conversa com o líder do ashram. Esse senhorzinho saiu e, depois de um tempo, voltou dizendo que eu poderia falar com o líder. Fiquei muito feliz porque por mais que se faça aula e trave contato com professores e mestres de Vedanta, receber o atendimento de um monge que está no mais alto grau daquele estabelecimento me senti bastante honrado, sentei com ele e começamos a conversar.

Havia ali uma situação que havia um grande respeito da minha parte por ele ser um estudioso de uma área que também me interessa, eu poderia ter visto ele como o meu mestre. Depois de uns vinte minutos de conversa ele me perguntou o que eu faria depois na viagem. Disse que faria uma trilha, conhecer as montanhas e fazer uma escalada nos Himalaias. Esse mestre deu uma “dura” dizendo que eu estava indo para essa aventura para “aparecer” e não por uma questão minha. Se eu fosse convicto dessa relação entre mestre e discípulo, quando o mestre vê a luz e direciona o discípulo nos caminhos em que este deve caminhar provavelmente eu cancelaria o restante da minha viagem à medida que recebi uma orientação de um dos monges mais importantes da região. Na hora eu me questionei sobre isso, a orientação gerou reflexões em mim, e eu fiz a viagem acabei nem lembrando mais sobre o ocorrido. Recentemente, fiz uma revisão sobre a minha decisão e ficou claro pra mim até agora que em momento algum a escolha daquela viagem foi baseada em opiniões alheias, até porque eu não conhecia ninguém que escalava, não tinha alguém que poderia admirar o fato de eu fazer algo que era meu, que tinha que passar. Conheci lugares fantásticos, fiquei longos dias em silêncio, me relacionei com a natureza da Índia e com os indianos durante cinco dias, ás vezes dormindo na mesma barraca que eles. Isso pra mim foi um turning point dentro da minha vida e foi essencial, eu vi que aquele momento expressou muito de mim, tinha sentido pra mim.

E qual é a conclusão deste podcast?

Um mestre, um professor pode te dar uma orientação no sentido de dar alguns caminhos, o que irá pesquisar e referências para que você conheça também outras coisas. Mas quando você toma decisões, especialmente como aquela, elas precisam ser tomadas com calma, com a mente tranquila. No momento em que você está ali conectado a você mesmo, neste momento que chegamos a nossa verdadeira essência, nos momentos de tranquilidade a gente conhece a nossa real natureza e a prática da meditação e do yoga conseguem fazer esse aquietamento da mente para que você traga o que há de mais seu. Hoje eu tenho certeza que a minha decisão não foi baseada em outras pessoas, aquela viagem foi efetivamente uma decisão que veio do meu coração e que se eu tivesse seguido a orientação de um mestre mais evoluído que eu, numa visão bastante comum no yoga que estabelece um padrão de evolução entre as pessoas, o que eu não considero muito correto, mas eu teria desfeito essa viagem, seguido o que ele disse e hoje eu teria uma certa frustração porque eu tinha um grande objetivo. Como ele pode dar uma orientação sem conhecer a minha história de vida? A gente conversou por trinta minutos, então é muito precipitado, ele não conhece o meu histórico, não é possível dar uma orientação para um caminho a seguir, isto eu vou encontrar no meu momento de paz espiritual, quando eu não estiver preocupado com o que alguém vai achar da minha decisão ou no momento em que eu estiver estressado por alguma situação, esse momentos tem muita influência dos sentidos e não vão trazer a verdadeira essência, mas quando você está com a mente calma, seja produzida por um estado meditativo ou no seu dia-a-dia, aquele momento pode ter certeza, que você está decidindo coisas importantes muito mais próximas da sua real natureza.

A música, vocês já devem ter reconhecido, é a 5ª sinfonia de Beethoven, uma das músicas clássicas mais conhecidas do mundo. Só para contextualizá-la, Beethoven via o movimento de Napoleão Bonaparte como um movimento de libertação de toda a Europa. Ele compôs a sinfonia como uma forma de dar boas-vindas a Napoleão quando este se aproximava da Alemanha com o intuito de libertar os alemães. No final, o que acabou acontecendo e o que acontece sempre na história da humanidade, é que uma pessoa com excessivo poder e controle sobre outras pessoa, obviamente só causará destruição e barbáries, não vai fazer um bem para a população como um todo. Depois do que aconteceu, Beethoven se decepcionou muito e compôs uma outra sinfonia, a Pastoral, que vimos no podcast nº5 (e eu vou deixar um link na descrição). Beethoven se recolheu para a natureza, se voltou ao campo (daí o nome da Sinfonia), ele estava decepcionado com o avanço das indústrias, com o movimento revolucionário de Napoleão que tinha como objetivo apenas dar poder para ele e para o seu grupo.

Ele compôs esta sinfonia, de nº6, que eu inclusive prefiro, e até coloquei antes na série, me identifico muito mais com ela do que com a 5ª sinfonia, embora ela seja uma das composições mais bonitas da história e não só o primeiro movimento, eu vou deixa-lo na nossa playlist, mas quem puder ouvir os outros movimentos, o segundo movimento é mais calmo vale a pena para conhecer esta obra do Beethoven que é importantíssima para a cultura mundial.

Até o próximo podcast!

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.