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Crenças que moldam o mundo – Podcast #58

Crenças que moldam o mundo – Podcast #58

A elaboração do que existe além dessa vida foi uma das primeiras e mais importantes invenções humanas. No livro Criatividade, o filósofo Domenico de Masi faz um levantamento de escrituras religiosas mostrando que o quer era criado como “o Reino dos Céus” sempre tinha total relação com as dificuldades e carências que o povo que escreveu as escrituras estava passando. O mais interessante disso, é que as histórias que são contadas do que aconteceria além da vida influenciaram diretamente a riqueza das sociedades, como foi demonstrado no livro de Max Weber, A ética protestante e o espírito capitalista.

E como essas histórias afetam o imaginário indiano?

 

 

 

 

Abaixo reproduzo as copilações de Domenico de Masi das escrituras de diferentes povos e religiões.

 

Riachos de Leite e de Vinhos para os Hebreus 

Diz o Talmude da Babilônia. “As espigas de trigo despontarão e alçar-se -ão como palmas nos cumes montes. E não pensem que a ceifa será tarefa árdua… O Santo, que Ele seja abençoado, fará soprar um vento do Seu tesouro e este soprará sobre as espigas e fará com que caiam os grãos. Então os homens andarão pelos campos e colherão um punhado com qual se nutrirão, a si e às suas famílias… O grão de trigo será como dois rins de um grande touro… Neste mundo é preciso colher e espremer, com esforço, os cachos, mas no mundo que está por vir bastará arrancar um galho da videira, carregá-lo numa carroça ou num barco e colocá-lo num canto da casa e ele fornecerá (vinho) à vontade, como se fosse um grande barril” Como podemos ver o paraíso aqui descrito é um verdadeiro elenco de improváveis compensações: o justo, ao qual a passagem se refere e que apresenta diante das majestosas portas do Grande Éden, provavelmente é um pobre hebreu, que levou uma vida miserável, desgraçada pela fome, pela sujeira e, no deserto, também sede; e eis, portanto, a excitar a sua fantasia e a sua virtude, uma profusão de águas e de pães, de vinhos e de essências de rosas. Do trabalho, nem sinal, do momento em que se dispõe de bens à vontade e os serviços são desempenhados por anjos.

 

No Paraíso não se trabalha

Quanto mais infeliz parecia ser a vida terrena em épocas de enfermidades, carestias, violências e injustiças, mais felizes eram es devaneios acerca da vida eterna no paraíso. Esta última, portanto, fornecia em positivo a fotografia da realidade negativa. O Apocalipse assegura que no paraíso não existem nem o mar com seus perigos, nem a noite com suas insídias pecaminosas; lá não existem lágrimas, lamentos, sede, doenças, morte, nem cansaço, fome, nem – obviamente – tentação e pecado.

Esses corpos, segundo a Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, serão incorruptíveis, gloriosos, fortes e farão parte de um corpo espiritual. A essas virtudes irão se adicionar, gradualmente a impossibilidade, a sutileza, a agilidade e o esplendor. Segundo São Tomás, graças à  impassibilidade, não haverá mais velhice, sofrimento, doenças, fadiga, sono e fome: em outros termos, sem trabalhar mais, conseguiremos derrotar aquelas atávicas adversidades que sempre combatemos, através do trabalho.

 

Muçulmanos: nádegas de uma milha e orgasmos de um século 

Como o Islã coincide sobretudo com zonas tórridas, desérticas, privadas de água e de verde, eis que para compensar, o paraíso muçulmano é inteiramente um jardim de eterna delícia, ao qual podem ter acesso homens, mulheres e animais. O clima não é quente nem frio, as chuvas são frequentes, assim como numerosos são os rios, os chafarizes e os riachos: não somente de água, mas também de mel, de leite e de vinho. Os jardins produzem bananas, romãs, lótus e uva em abundância. Os palácios são ricos em salões, terraços com vistas, pavilhões mobiliados com espreguiçadeiras, divãs e leitos elevados.

Cada homem dispõe seja das Huri, seja suas eleitas: todas elas sorridentes e portadoras de um ” sexo assaz convidativo” . As Huri são as virgens eternas, que toda vez readquirem a própria virgindade logo depois que a perdem, e que segundo Ibn Qutaliba, possuem nádegas enormes, que podem atingir dimensões de um milha por um milha. A cada abraço corresponde um tipo diverso de volúpia, e o orgasmo dura um século.

 

 

CALVINO: TRABALHO NA TERRA E REPOUSO NO CÉU

Calvino, por sua vez, escreve que “inteiramente ocupados na contemplação de Deus, os santos não têm nada de melhor para voltar os seus olhares ou dirigir os seus desejos”. Nessa relação com Deus, todos os beatos são praticamente iguais, mas, apesar de todos conservarem o próprio sexo, perderão toda e qualquer diferença de caráter social: “O mundo terá um fim e, com ele, acabarão o governo, a magistratura, as leis, as distinções de classe, as diversas ordens de dignidade e todas as demais coisas desse gênero. Não haverá mais qualquer distinção entre patrão e servo, rei e camponês, magistrado e simples cidadão. Portanto, nem mesmo para Calvino, certamente o mais “calvinista” entre os fundadores do protestantismo e o mais decidido defensor da importância do trabalho na terra para obter a salvação, nem mesmo para ele as almas beatas no paraíso desempenharão atividades assimiláveis ao trabalho rural ou industrial. Sobre a Terra, para o severo genebrino, a vida urbana que fervilha em suas múltiplas atividades deve ser ancorada, dia após dia, no empenho espiritual: não somente através da oração mas também por intermédio do trabalho, que é valorizado e santificado.

Aquele que obtém sucesso nos negócios é um predileto de Deus, de tal forma que recebe antecipadamente ainda nesta vida uma parte do prêmio celestial.

 

Hinduísmo: consciência observadora

Esse aspecto será desenvolvido no podcast.

 

 

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Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.