Conversa sobre Tantra com Pedro Franco e Mayara Beckhauser

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Podcast de Yoga | 11 set 2018 | Daniel De Nardi


Conversa sobre Tantra com Pedro Franco e Mayara Beckhauser – Podcast #31

O 31º episódio da série Reflexões de um YogIN Contemporâneo será diferente por vários motivos, mas o principal é que essa é a primeira entrevista da série. O entrevistado será Pedro Franco, yogin e fundador da Premananda Yoga School. Pedro é um dos professores do Curso de Formação do YogIN App. Ele vai conversar com a May Beckhauser sobre um tema polêmico entre os yogins, o Tantra.

Bons estudos!

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Curso Yoga – Formação de Professores

Transcrição do Podcast #31

 

Uma Conversa Sobre Tantra – Podcast #31

Olá, o meu nome é Daniel De Nardi e está começando o 31º episódio de “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”.

Hoje a gente vai ter algumas coisas diferentes dentro da série, a primeira delas é que eu vou pedir um review, então a gente nunca faz este tipo de solicitação aqui, nunca havia pedido um review aqui, mas tem duas coisas: primeiro não dá para negar que é importante pra nós para o aplicativo ser bem colocado e isso depende de como o aplicativo está sendo visto, então se as pessoas estão gostando, isso é um ótimo indicativo para a gente aparecer, quando a pessoa busca seja no Google Play ou na Apple Store yoga ou meditação, a gente aparecer lá. Isto é muito importante pra gente, fazer com que o YogIN App seja mais conhecido para quem tem interesse, mas isso depende, obviamente, de a gente ter um bom serviço para quem está usando; o segundo ponto que é importante para nós é efetivamente saber a opinião dos usuários, saber se as pessoas estão gostando ou não, a primeira dica vai ser esta, eu gravei um vídeo simples explicando como fazer um review, a segunda delas é que hoje não vai ter uma explicação em cima da parte musical, como sempre faço, porque o episódio de hoje é um pouco mais longo, mas começa com uma música sendo tocada pelo entrevistado, que é o Pedro, e esse é o terceiro ponto, terá uma entrevista da Mayara com o Pedro Franco, esta entrevista era parte e ainda é uma das aulas dos nosso curso de formação, então é uma entrevista muito rica e com muito conteúdo para quem quer estudar mais este movimento do tantra.

Vou apenas fazer uma introdução ao assunto porque ainda não tratei aqui por uma questão cronológica, mas a gente está começando agora a chegar – se formos seguir uma linha do podcast – no movimento tântrico. Quando se fala de tantra, pode-se ter o Nath sampradaya, que é um movimento do Nathas que era um grupo que dizem que Patanjali era um desses membros, então, o yoga como um todo, tanto a parte de Patanjali, é fruto desse grupo que são os Nathas que depois deram origem ao Hatha Yoga, mas historicamente tem mais indício de que o tantra tenha surgido um pouco mais pra frente e começa a ganhar corpo a partir da dinastia Gupta, que já falei aqui em alguns episódios, e esta dinastia trouxe uma coisa muito boa para a Índia que foi a popularização da cultura. Então, até aquele momento, a dinastia Gupta começa a se desenvolver no século II e III, eles era hindus e favoreciam a liberdade de expressão, de religião, então muitas culturas se integraram durante este período, o próprio budismo, o jhayanismo, yoga, então tudo foi fomentando uma cultura que, a partir daquele momento, todo mundo começou a poder produzir conhecimento, cultura. Até então, a cultura indiana era produzida pelos Brâmanes, e o movimento do tantra é libertador neste sentido, de todos poderem produzir cultura, então nisto entra a parte da música – o Pedro vai fazer uma introdução com a música, vocês vão ouvir, não é nada muito elaborado, mas a música faz parte do movimento tântrico.

O tantra não foi algo pontual, ele é um movimento como qualquer outro, assim como o Iluminismo influenciou as artes, a política, a ciência…e o tantra surge como um movimento de liberdade, de todos os indivíduos alcançarem a libertação, e isso vai abrindo um campo muito fértil para uma investigação do corpo, e aí começa a surgir as primeiras técnicas de asanas e as técnicas do Hatha yoga que surgem neste movimento do yoga, um movimento de liberdade, que todos podiam atingir a libertação e que o poder estava no corpo, no próprio indivíduo. Até aquele momento, era valorizado muito as escrituras, mas a partir dos séculos II e III começam a construir textos dizendo que o corpo era essencial para a libertação, para que a busca espiritual se efetivasse era necessário algum tipo de desenvolvimento na parte corporal e, a partir desse movimento, surge várias linhas e várias visões do Tantra. Mas o Tantra não está relacionado ao sexo como é vendido no ocidente, isso é uma parte pequena, porém não existe técnicas de sexo de várias horas, não é por aí, o sexo entra como um processo de observação, de reeducação, como todos que eles faziam, com o intuito de libertação, isso faz parte do Tantra, o Pedro vai falar sobre isso.

Não vou estender muito a explicação porque a ideia de hoje é de ver as ideias da Mayara e do Pedro Franco, que é um professor muito importante aqui no Brasil, há diversos professores que fazem a formação com ele, ele é um dos professores convidados da nossa formação, ele dá esta aula e mais uma outra e também tem aula dele no YogIN App, quem quiser é só acessar, procurar pelo professor e terá um aula dele, é curta, porém é interessante para conhecer o trabalho dele. Fiquem agora com o Pedro Franco e com a Mayara, em um podcast de entrevista, que é o primeiro de entrevista da série “Reflexões de um YogIN Contemporâneo”, mas eu tenho a intenção de fazer outras entrevistas, inclusive esta semana eu faria com uma especialista em mitologia. Não deu certo, mas vamos gravar várias entrevistas e trazer outras opiniões a respeito do yoga, para que aprendam, conheçam mais e saibam o quanto é vasto o conhecimento do yoga, que não é apenas sentar, fazer um alongamento, uma meditação e acabou, o yoga é fruto de um conhecimento que vem há cinco mil anos ganhando corpo na Índia e a gente faz parte deste movimento à medida que a gente estuda, pratica e gosta desta forma de entender o mundo, dessas ideias que nos ajudam a entender melhor.

Boa entrevista pra você e nos vemos na semana que vem.

Namastê!

 

Mayara: Namastê Pedro!

Pedro: Namastê!

M: Deixe eu apresentar, Pedro Franco, pra quem já é praticante de yoga, já é um estudante sério, nem precisa de apresentação, o Pedro da aula há quantos anos?

P: 24 anos.

M: 24 anos. Uma honra, sintam-se muito honrados que o Pedro está dando esta super aula na nossa formação como professor convidado, e o tema de hoje é Tantra. Vamos começar falando, Pedro, fazendo as perguntas mais básicas que é: O que é Tantra?

P: Tantra, traduzindo para o sânscrito, literalmente, significa instrumento para expansão, mas também significa os textos desta cultura Tantra. Quando você fala “Isto é um Tantra” é também um texto esta cultura Tantra, que faz parte do hinduísmo, mas não se fechou ao hinduísmo, o movimento tântrico se expandiu também na Ásia para outras culturas como o Budismo, e é uma forma de filosofia de vida na qual o dono de casa, a pessoa comum tem esse caminho como espiritual, não necessariamente precisa virar um monge ou um celibatário para ser um praticante do Tantra.

M: Isso é muito legal, né Pedro?! Porque eu recebo muitas perguntas de pessoas que falam como se concilia a jornada espiritual e evolutiva com o dia-a-dia de pagar conta, de viver e do mundo material, né? Mas eu falo, isso faz parte, a gente também tem matéria no nosso corpo, a gente vive neste mundo. Então fala um pouco mais sobre colocar o Tantra como um caminho de vida sem, necessariamente virar um monge, virar um desapegado e morar numa montanha.

P: Este mesmo quest, esta mesma questão que você está levantando também aconteceu com o movimento cultural na Índia, que originou o Tantra. Até então, até o século III, IV desta Era, a forma de yoga praticada e disseminada era a forma clássica de Patanjali, na qual o corpo é um obstáculo, é entendido como um obstáculo para o caminho espiritual, então as práticas eram focadas em suprimir o sensorial do corpo para se alcançar o…

M: Os prazeres, né?

P: …os prazeres e tudo ligado ao sensorial para se alcançar o samádi que é a iluminação. E o Tantra, veio do movimento do Shaivismo da Kashmira, que é um movimento dos seguidores de Shiva como consciência, não Shiva como um deus azul, numa forma humana, mas entendendo Shiva como uma forma cósmica, universal, não antropomórfica como a gente também conhece Shiva, como tem referências de Shiva. Esta forma de Shaivismo veio como o não dualismo, como a forma central do Shaivismo, que, até então, era completamente dual a cultura hindu, na qual o yoga também é parte, um dos Darshanas, especialmente…

M: Eles tiveram esta aula dos darshanas…

P: …esta parte do yoga de Patanjali, mas até então, as pessoas rezavam, invocavam Shiva como algo separado, ou Krishina ou qualquer outra forma divina como algo separado do indivíduo. E aí o Shaivismo vem e ensina que se você chama Shiva, você chama o que você é, que é a sua essência…

M: Uma divindade também…

P: Que é consciência manifesta da forma humana. E aí o tantrismo veio desta forma de pensamento, que não se encaixa dentro da forma tradicional hindu. Então, o tantrismo foi marginalizado neste sentido, porque não se encaixava dentro dos moldes patriarcais e nem classicistas do sistema de casta da Índia. Começou a abrir o caminho espiritual para todas as castas e também para os sem castas. O sistema clássico védico abraça essa visão de casta, e o tantrismo veio, como o budismo também – são movimentos mais ou menos contemporâneos, especialmente o budismo tântrico, aconteceu concomitante ao tantrismo do hinduísmo, então foi um momento de revolução, tá? Eles tem coisas em comum…

M: É uma ruptura, né? Mas, por outro lado, eu já ouvi que depois de Patanjali, por volta do século III, quase houve um resgate do tantrismo, que o Tantra…

P: Isto é uma teoria que o De Rose levanta e que não há provas arqueológicas como textos, por exemplo, documentos que mostrem isso.

M: Que mostrem que o Tantra já era mais antigo.

P: Existem sim…há sinais arqueológicos de pessoas que tinham uma forma de ritualística similar ao tantrismo dessa época (século IV e V), mas não há nada escrito como “Este é um movimento tântrico”, essas práticas não existem. Existem sinais de organização, de civilização, de cidades…

M: Homem Jodário, quando eles cavam que acham, né?

P: Exatamente, mas não tem nenhum texto, nenhum autor dessa época. Então como eu trabalho de uma forma alinhada com comprovação acadêmica, pesquisas, prefiro dize o que é de fato…

M: Era uma dúvida até minha que eu estava te perguntando, muito legal.

P: Tem sinais…na verdade, essas culturas influenciaram, assim como o yoga clássico foi fundamental e influenciou o Tantra. O yoga clássico ensina o caminho da meditação, o caminho para a meditação com a prática central, o Tantra também, mas o Tantra criou tecnologias que fazem a transição, que criam um ponte para se chegar a meditação, porque muita gente, a maior parte…

M: Quais seriam essas ponte?

P: …a maior parte das pessoas não tem a mente preparada para sentar e meditar, não foram educadas mentalmente, emocionalmente para entrar neste estado de paz, de presença, então o Tantra trouxe estas tecnologias – técnicas tântricas – que a gente chama de yoga hoje em dia, tudo o que é yoga, na realidade hoje em dia na maior parte, se não for meditação, veio do Tantra, mas as pessoas perderam essa raiz, essa referência, mas as práticas em si para se chegar a meditação. No Tantra a gente classifica as práticas como Prática de Shiva, Pratica de Shakti. Prática de natureza de Shiva, meditação. Práticas de natureza de Shakti, tudo o que mexe com a energia. Yoga asana, pranayama, mudra, kriya. O que quer que seja que você faça e que esteja trabalhando nesta dimensão de Shakti, de energia vital, de vida, é prática de Shakti.  Então, aí criou-se as escolas de Shaktismo, apesar de continuar a ter essa visão não dual de Shiva e Shakti juntos, elas foram classificadas como escola de Shaktismo, de Shaktas, porque eles focam, focavam – porque hoje em dia nós focamos – nos trabalhos de energia ao invés de focar só na meditação. A gente faz todo um trabalho de preparação física usando os yoga asanas, abrindo os meridianos, fazendo pranayama para equilibrar a bioenergia do corpo e despertar o que a gente chama de Kundalini, que também é um tema bem vasto pra se discutir, só para esclarecer, para se chegar no Shiva, que somos nós…

M: Sim.

P: …Então, o Tantra se baseia nisso e tem várias escolas, existiram várias escolas e o que a gente tem de documentação acadêmica relacionada a essas escolas, são nove escolas, que vão do lado mais esquerdo, mais subversivo, mais marginalizado, mais feminino até o lado mais masculino, direito, mais estruturado no sistema de castas também. A mão direita do Tantra, na realidade não é só similar com a cultura védica e com a organização social, cultural, como é propriamente isso, eles estão juntos. Tem cordão Brâmane, que são os sacerdotes dessas linhagens, tem toda essa forma védica cultural usando o Tantra e usando as prática de Shakti também, mas de um forma mais simbólica, dizendo assim. As práticas de mão esquerda são práticas literais, tanto simbolicamente como literalmente levam a gente para o mesmo ponto. E o que é maravilhoso do Tantra é que não exclui, não se exclui nenhum perfil, não se exclui nenhuma pessoa, nenhuma classe, então se você é mais da direita, um neoliberal, você tem o braço direito do Tantra e se você é um esquerdista, um real esquerdista, um Shaktista, feminista, você vai para a mão esquerda. E você tem um caminho para chegar no mesmo ponto no final, seja na direita ou na esquerda são só as pontes, a forma de navegar é que difere, mas o fim em si é o mesmo, é Shiva. E Shiva, novamente, não como um deus antropomórfico azul, nem só como destruidor, transformador que recita o universo, mas também como consciência do que nós somos. O Shiva do tantrismo é o estado de identificação, de reconhecimento do ser. E aí também se assemelha muito com o Vedanta, no sentido deste trazer o conceito de Shiva como bramam, esse conceito do infinito, da consciência com outro nome. Mas vou fazer um paralelo pra vocês entenderem um pouco mais…

M: Sim, até também esse conceito que é muito bonito, que até se quiserem um dia darem uma pesquisada pelo YouTube, de Shiva e Shakti como criação do universo, como se no início tudo fosse Shiva, e Shakti fosse a energia criadora que, vamos dizer, você é a energia que proporcionou o Big Bem, como se fosse misturar um lado espiritualista com uma coisa cientifica, a explosão do Big Bem, que seria essa junção de Shiva e Shakti numa coisa só.

P: Na verdade, o que eu estou falando sobre as práticas, isso é um microcosmo do macro. O Shaivismo veio desta visão do Big Bem, não é da visão de Shiva antropomórfico, é o Shiva como consciência que origina o universo, Shiva e Shakti – como você me perguntou sobre o Tantra, não parei tanto para falar sobre o Shaivismo que é esse movimento que justamente fala sobre o macrocosmo e traz para o indivíduo, nós somos a consciência e não precisamos rezar pra fora para encontrar o que está dentro, basicamente isso, e o que está fora, nesse sentido, é essa criação de Shiva e Shakti. O tantrismo pegou esse conhecimento, desse macrocosmo do universo e desenvolveu práticas, técnicas, para trazer essa experiência para o indivíduo sem necessidade de intermediário. Sim, existem professores, existem gurus na linha de tantrismo, de Tantra? Existem, mas o verdadeiros gurus e professores ensinam os alunos a serem autônomos, a caminharem com as próprias pernas, a não serem dependentes. Tem toda a questão cultural da Índia, que é respeito, que também influenciou o movimento tântrico ao professor ao guru, que a te ensina, que compartilha o caminho, mas os professores que eu mais admiro são aqueles que…

M: Quem empoderam…

P: …que empoderam os alunos e liberam eles até da dependência do próprio professor.

M: Concordo completamente.

P: E aí o Tantra trabalha com isso, trabalha basicamente, principalmente, com as práticas de natureza de Shakti, porque são práticas dinâmicas para se chegar ao estado de meditação de Shiva. Dentro dessas práticas de Shakti como já mencionei, yoga asana, pranayama, mudra, kriya…, são todas práticas que vão nos levar a este estado de ser simplesmente. Mas também tem a questão de você estar – uma vez que você acorda, desperta para esse estado – fazendo a sua meditação dinâmica, no ato de comer, no ato de caminhar…

M: Estar presente, né? No sentido de estar presente…

P: …de estar presente em tudo quando você se identifica, se reconhece como Shiva, e eu estou usando esse nome Shiva, mas não quero que vocês se prendam ao nome, eu uso o termo como consciência puramente. Então se identificando com a consciência, estando presente, você entra num estado dinâmico de meditação. Assim como também a parte sexual, a parte sexual é uma parte que é importante, porque trabalha com a parte criativa, é o ponto energético em que a energia criativa se manifesta originalmente, então tem uma importância a se trabalhar, mas não é a única forma de se pratica Tantra, não é a única forma de se desenvolver o Tantra como o ocidente de certa forma entendeu por conta de um praticante no século XIX que trouxe essa ideia para ocidente, até então muita gente tem essa ideia equivocada.

M: Eu ia te fazer essa pergunta, de onde que vem essa analogia, falou de Tantra a pessoa tem essa conotação sexual?

P: Por conta desse Bernard, eu me esqueci o sobrenome dele, mas é um americano que trouxe para São Francisco no final do século XIX o Kama Sutra, ensinando técnicas do Kama Sutra como Tantra. Ele entendeu que fazia parte do Tantra, mas o que ele trouxe por uma questão de identificação dele, de necessidade dele e também de sentir que era uma necessidade da nossa cultura que é de se trabalhar a sexualidade, trazer essa forma prática, desenvolver e educar a sexualidade com essas tecnologias, mas ele limitou, só isso. E o Tantra é um universo vasto, é um lifestyle, é um estilo de vida, em qual engloba, também, como você lida com a sexualidade, é um estilo de vida no qual o aprimorar é o carro chefe de tudo. Então, você quer aprimorar como o seu corpo físico funciona, você quer aprimorar como o teu corpo físico funciona, você quer aprimorar como a sua energia flui, você quer aprimorar como os seus órgão funcionam, você quer aprimoram como a tua mente funciona, você quer aprimorar como a sua vida sexual funciona, entendendo essa energia sexual como um ponto de energia criativa, que vai se desdobrar em outras formas, devemos sim trabalhar.

M: Claro!

P: E aí a questão…

M: E essa visão e tão bonita, né? Pra ter se tornado…às vezes ter gente que coloca tão feio…né? …

P: Aí é um problema nosso cultural, social, de trauma, de repressão…

M: Sociedade reprimida, né?

P: Reprimida, traumatizada. Então eu vejo que sim, as práticas sexuais não só são importantes, mas são uma necessidade para a nossa sociedade e cultura que estão traumatizadas, porque traz a cura, mas tudo depende de como você trabalha com essa energia, de qual é a sua intenção. Muita gente acaba virando o lado da moeda, da repressão, do trauma, acaba virando um abusador, e isso é muito comum, você vira nessa moeda, ao invés de se liberar da dualidade daquele trauma, você só enfatiza a dualidade do lado contrário da moeda, então muitas pessoas que acabaram trabalhando com o sexo de forma tântrica, ele acabaram virando abusador pela atração pelo poder que isso traz. Poder sobre ao outros, poder sobre essa energia, e isso gera apego, isso gera aprisionamento, isso gera mais sofrimento, né? Então a gente tem que ter muito discernimento.

M: Sim. Mas a questão da intenção, e eu já falei em algumas aulas minhas também, SanKalpa muda tudo, a intenção que você coloca para determinada técnica é isso, é o jogo da moeda, se coloca essa vontade de poder, o que vai acontecer é o que você falou de abusador, agora você coloca…dominar a si mesmo é tão mais importante do que dominar aos outros, é um poder tão maior, mas é a tua intenção.

P: O SanKalpa, a intenção, permeia tudo no Tantra, essa atitude, esse reconhecimento da consciência, a gente precisa exercitar a mente para tal, a gente não foi educado e programado para isto. Então o SanKalpa é a prática mental de estar se colocando receptivo para este estado de Shiva de consciência de presença. E eu vejo que o desafio hoje em dia, além dessas questões todas que a gente está levantando, é que a gente tem tanta distração, a gente tem tanta desculpa para não estar presente, as coisas são tão programadas para nos tirar da presença, do estado de presença, então eu vejo que o Tantra na realidade, assim como ele evoluiu – ele vem evoluindo, não nasceu pronto, ele veio do Shaivismo e aí foi desenvolvendo prática e técnicas de acordo com as necessidades daquela época.

M: De cada época.

P: De cada época, de cada tribo, de cada cultura, de cada braço do Tantra.

M: Como acontece com o Yoga também, né? Tem gente que critica…

P: E como se desenvolveu e foi evoluindo até se transformar em Hatha Yoga. Então, o que a gente conhece como Hatha Yoga é o que sobrou do Tantra.

M: Ah é?

P: É, porque devido as invasões na Índia, especialmente a invasão mulçumana na Índia, eles são patriarcais e não aceitavam o Shaktismo, que é uma visão de ser louvador da deusa, as escolas de…

M: Tem o culto a Grande Mãe, né?

P: O culto a Grande Mãe que na verdade são vários cultos, há diferentes aspectos [inint. 28:08] dessa nova escola, né? A gente fala o culto da Grande Mãe como a mais famosa, mas tem várias escolas que, inclusive tem algumas que a gente nem consiga ter acesso a elas porque destruíram completamente esta cultura. Então eu e mais uma meia dúzia de escolers no mundo, a gente tem como Dharma pesquisar, estudar e compartilhar este conhecimento e desmistificar. O Tantra, por ter sofrido perseguição e destruição quase que completa dessa cultura, assim como o budismo também – porque o budismo trazia liberdade para o indivíduo, o Moksha, que no Tantra também traz dentro da escola, da atitude, como uma forma a se seguir, que é a liberação, o budismo também fazia isso só que de uma outra forma. Então pra quem quer o poder sobre um indivíduo, a libertação não interessa, e a forma como eles lidaram com esta cruzada também com o Shaktismo era desmembrando os praticantes, os adeptos do Tantra. Se fosse era pego estudando, ensinando, praticando formas tântricas de yoga, eles amarravam você em dois elefantes, os membros direitos num elefante, os membros esquerdos em outro, e separavam você. Então a cultura foi destruída. E todos os textos que eles achavam, destruição, queimaram os textos, então o que sobrou, na realidade, era o que não estava nas rotas de comércio. Graças a lugares mais ermos que tântricos acabaram fugindo e se escondendo que a gente pode ter acesso a esse conhecimento na atualidade, fazer esses estudos e conectar essa essência e ter um entendimento dessa cultura, criar uma ponte com as necessidades dessa contemporaneidade que a gente vive, das nossas necessidades do dia de hoje, como a gente vai desenvolver a prática hoje em dia. Então o Hatha yoga…

M: Isso que eu ia falar, puxa de novo Hatha Yoga.

P: O Hatha Yoga faz parte desse processo, então hoje em dia as pessoas praticam várias formas de yoga que vieram do Hatha Yoga, o Hatha yoga é como se fosse o começo das escolas, o que se originou. Na verdade o Hatha Yoga é o que sobrou do Tantra, das práticas de Shakti, das práticas…

M: De mexer com a energia.

P: De mexer com a energia, inclusive você vê no texto mais referência de Hatha Yoga que é o Hatha Yoga Pradipika, ele fala muito sobre Kundalini e Shakti, mas ele fala muito sobre Raja Yoga e Patanjali. E quando se começa a estudar a história do yoga, e a cronologia da história você vê que sim, teve a influência do yoga clássico no Tantra e no Hatha Yoga, mas você vê que esta influência foi enfatizada no Hatha Yoga porque tem alinhamento com uma visão patriarcal e dualista versus o louvor a mãe, a deusa, a Kali, a Lakshmi e de uma forma não dual.

M: E tanto que no Yoga Sutra, no sutras de Patanjali, ele nem fala sobre asana, ele fala de quatro asanas pra meditação e só.

P: Sthira Yoga Asana, Sthira Sukham Asanam, que é: o asana deve ser confortável, firme e confortável e sentar para meditar.

M: Ele não se aprofunda em nenhum asana como o Hatha Yoga Pradipika que em forma de sutras também coloca, é…

P: Eu não quero também que as pessoas me mal compreendam, e que eu esteja falando que o yoga clássico não é bom, é ótimo, na realidade ele fez parte do que influenciou o movimento do Tantra, mas ele é anterior, e o que eles faziam anteriormente é uma prática austera de meditar três anos na caverna, de ficar doze anos numa perna, que é um estilo de vida que, de repente, essas formas de prática faziam mais sentido, o corpo era tratado como um obstáculo a ser transcendido, na visão tântrica entendeu-se que trabalhar com o corpo como um veículo, como um templo, traz diferentes resultados e também ajudar a chegar na mesma meditação que se chega praticando yoga clássico.

M: Talvez até mais rápido, né?

P: Eu prefiro até nem falar se é melhor, se é pior, se é mais rápido e cada um tira a sua…

M: Mas talvez para o nosso estilo de vida de hoje em dia…

P: Eu sou completamente suspeito…

M: …o yoga clássico não se encaixaria para um estilo de vida hoje em dia.

P: Totalmente não se encaixa, mas a gente tem na nossa cultura algo que a gente se identifica que é “o que é mais tradicional é melhor”, “ah o clássico, isso é clássico, isso é tradicional”.

M: Sim

P: Então, quando a gente coloca esses termos, esses prefixos quando a gente comunica, a gente dá mais valor, dá mais credibilidade. E o Tantra, na realidade, não tem esses prefixos porque é um movimento que foi marginal, foi marginalizado, foi revolucionário e até hoje não é muito bem aceito na Índia, porque a Índia, onde o hinduísmo é berço, acata o sistema de castas…

M: E ela é muito patriarcal, né?

P: Muito patriarcal e muito repressora, então assim, o yoga clássico de Patanjali é aceito porque se encaixa naquela cultura, mas o tantrismo não é mais, já foi. No movimento do Shaivismo até os tempos do Hatha Yoga, o tantrismo e o budismo imperaram na Índia, até que invasão mulçumana, e a própria cultura védica patriarcal, suprimiu, empurrou pra fora, destruiu. Então se você vai pra Índia hoje em dia e pergunta sobre o Tantra – hoje em dia está mudando um pouco porque está voltando do ocidente pra lá o conhecimento tântrico, fazendo um caminho inverso – as pessoas que são nativas de lá não falam, tem medo de falar mesmo que saibam onde é que é, porque ainda é marginalizado, ficou tão forte isso lá. Então hoje em dia é até mais fácil você achar vivências, retiros, conhecimentos do Tantra na Califórnia, nos Estados Unidos, do que na própria Índia, especialmente que na Califórnia se tem uma concentração maior de professores que seguem esse pensamento. Assim como eu e essa meia dúzia de escolers, a gente tem vários alunos que estão seguindo essa forma de pensar, essa linha de pensamento e como aplicar essas técnicas alinhadas com essas formas de pensamento.

M: Tem algum grande nome atual do Tantra na Índia de algum guru ou não?

P: O último nome, assim, grande de Tantra foi Osho. Ele também, da forma dele – assim como todos os tântricos que são grandes professores, pegam o conhecimento que foi adquirido, desenvolvido ao longo dos séculos e eles expressam, manifestam, compartilham de uma forma a se adequar as necessidades da atualidade. Então Osho fez isso brilhantemente e de uma forma, também, bem polêmica.

M: É, eu adoro os livros do Osho, mas eu, por exemplo, não iria para o retiro dele, pra Ashram.

P: Nem eu, mas por exemplo os alunos dele, que estudaram com ele, hoje em dia estudam comigo, muitos deles. Então eles tem uma escola, um centro no Brasil, que é a Escola de Mistérios do Osho, que o Osho os mandou pessoalmente para o Brasil para construir uma escola de mistérios, que é o braço que trabalha com os estudos xamânicos, que o Osho fez isso maravilhosamente bem, como um sistema…

M: Seria direita ou esquerda esse Tantra.

P: Na realidade, o Osho é mais da esquerda, mas ele entendeu também que não se pode excluir pra ser tântrico, então ele criou vários braços. “Ah, então você está precisando de mais de meditação, você vai nesta escola de meditação”, “Se está precisando mais de um trabalho de catarse, você vai fazer as meditações de Kundalini”, “Se você está precisando de um trabalho sexual, você vai fazer um trabalho sexual do Tantra”, “ Se está precisando de xamanismo, você vai ter o trabalho de xamanismo”, “Está precisando trabalhar com artes criativas,  vai pintar, vai dançar, vai cantar…”, então ele criou  essas várias formas e direcionava, “como você escolhe um mantra” para o aluno, ele escolhia a combinação do que cada um precisava para se trabalhar e treinou pessoas para fazer o mesmo. Então os professores que seguem a visão do Osho…

M:  E escreveu muito, né?

P: E escreveu muito e na realidade eu até gosto mais do material literário, do que ele escreveu, do que realmente as práticas em si. Mas isso é uma perspectiva minha de prática. Mas o que acontece, por exemplo, com Osho, os alunos dele, a partir do momento em que ele se foi, saiu da forma física, eles continuaram praticando o que aprenderam e tendo ele como professor. Recentemente eu entrei em contato com essa Egrégora, com essa Kula, como a gente fala no Tantra, e eles começaram a praticar comigo e abriram o centro deles para fazer o meu retiro. Então o meu principal retiro no Brasil é no centro do Osho, é numa escola de mistérios o Osho…

M: Que bacana!

P: Chamada Osho Lua.

M: Sim, que é na Chapada…

P: Que é na Chapada do Veadeiros.

M: Muito bacana!

P: E que a gente faz uma combinação lá de tantrismo com xamanismo. É uma fazenda de plantas medicinais, a gente faz uma jornada opcional xamânica pra quem quer, pra quem precisa, a gente tem uma avaliação prévia pra se alinhar com as técnicas de Shakti, de Shaktismo da energia, que a gente trabalha como uma forma comum no Tantra.

M: Sim e quais seriam…as linhagens modernas hoje em dia, então são tântricas? As modernas linhagens que vieram do Hatha Yoga.

P: Vamos combinar, até quem não coloca o seu yoga como tântrico hoje em dia, é…a influência que mais…mesmo que as pessoas não denominem o que elas ensinam como Tantra Yoga, quando você está trabalhando com asanas que não sejam só de meditação, está fazendo Trikonasana, está fazendo Hanumanasana, está fazendo Viparitasana, está fazendo Vasisthasana…qualquer asana que não seja sentar para meditar, são asanas de origem tântrica. Então se você faz essas formas de yoga asana, que não sejam só sentar pra meditar, você está fazendo Tantra Yoga, mesmo que você não…

M: Eu adoro essa visão, a primeira vez que ouvi isso, foi você me dizendo acho que numa conversa pelo telefone, a gente falando sobre isso e eu falei “faz total sentido”. Porque sentir o seu corpo durante um asana, usar o seu corpo como um veículo, é tântrico.

P: Mas aí eu vou fazer um parênteses, a gente já tocou nesse assunto, pra ficar bem claro para as pessoas se educarem e entenderem sobre o assunto. Por essa questão das invasões, da repressão, da destruição da cultura tântrica, essas práticas começaram a ser alinhadas com o yoga clássico de Patanjali e o Adwaita Vedanta, que é um dos dashanas que é a visão ortodoxa do hinduísmo, que é o final dos vedas, que difere do Tantra. Apesar de se colocar como não dualista, uma filosofia não dual – Adwaita é não dual – ela se baseia diferentemente do Tantra que tem Shiva e Shakti juntos, que nunca se separam e estão sempre juntos, estão sempre juntos, na visão do Adwaita Vedanta original, antes de sofrer uma influência tântrica, o Bramam, que é o absoluto, que é masculino, que é o infinito, que é o sem forma e Maia que é aquilo que é mensurável. Então Maia, traduzindo diretamente do sânscrito, é aquilo que se pode mensurar, que tem começo, que tem fim. Por esse entendimento, que Bramam é o infinito e que Maia é aquilo que é mensurável, eles denominaram Maia como ilusão, porque um dia acaba, então é ilusão. E de certa forma, alguns professores, alguns praticantes, ao invés de pegar esse conceito e integrar, separa. Ao invés de fazer desta pratica, desta visão, uma forma de incorporar o não dualismo, eles criam o dualismo porque…

M: Que é excludente, né?

P: Ah não, isso é Maia, isso é ilusão. Então tudo o que é mensurável…a vida é mensurável, então a vida é ilusão? Então, você vê que tem muita gente hoje dia fazendo praticas tântricas e tendo o Vedanta – fazendo asanas que não sejam pra meditar, que é Vasisthasana, Sirsasana, parada de cabeça, equilíbrio sobre o braço, tudo isso e alinhando com o Vedanta como filosofia. Que é lindo, o Vedanta tem as Upanishads, que é um conhecimento riquíssimo da metafísica do universo, desta ponte na direção do infinito, mas as práticas, as técnicas mais ricas, mais precisas, mais eficientes, neste sentido, são tântricas. Então o que se vê hoje em dia são pessoas pegando técnicas afiadíssimas de Tantra, porque tem uma falta de conhecimento e de acesso a esse conhecimento histórico e pegam o Vedanta porque é ortodoxo, é tradicional, tem o cordão brâmane, né? Classicista…

M: Então você acha que o Tantra, numa corrente filosófica mais alinhada com o Samkhya?

P: O Samkhya, na realidade, foi o que originou tudo isso, se a gente for pegar o que tem de textos, os textos mais antigos que originaram todas as culturas, o Samkhya está lá. Se você for nos Vedas, se for no Bahgavhda-gita tem sempre menção dos Samkhya. A terminologia do Samkhya e até mesmo, chamando o nome de Kapila que é o criador do Samkhya, que desenvolveu um sistema, um diagrama explicando o universo, como elementos. Samkhya Tattva, que significa como enumerar o universo em elementos, entendendo o universo em elementos, do mais sutil ao mais denso, e depois desenvolveram as práticas do yoga, eles pegaram esse conhecimento e aplicaram a prática dentro deste conhecimento, como fazer agora o caminho do elemento mais denso para o mais sutil, como criar a ascendência desse processo…

M: Maravilhoso isso…

P: Esse é o Yoga Clássico, de Patanjali. Já o Tantra pegou isso e revolucionou, pegou a mesma base que é o Samkhya, mas sentiu que faltava alguns elementos, o Samkhya trabalha com 25 Tattvas, adicionou mais 11 pra trabalhar com as pontes no nível espiritual, no sentido do grande Shiva, da grande consciência, transcendendo o individual, porque o Samkhya trabalha no nível individual. E o tantrismo que veio com o não dualismo, que veio com essa intenção de levar o indivíduo para o caminho espiritual e trazer espiritualidade para o indivíduo entender o que é uma mão dupla. Que a gente tem que ascender e descender, isso é um pulsação cósmica que não cessa enquanto a gente vive, então a gente quer alinhar, como tântrico, esse trabalho da energia de Shakti com essa pulsação cósmica, e manipular, obviamente, quando precisa, quando tem necessidade de mudar padrões  disfuncionais de energia, mudar direcionamentos de energia para trabalhar com a Shakti, para aprimorar a ascendência, assim como para aprimorar a descendência, dependendo de cada indivíduo, da necessidade de cada praticante, você aplica de uma determinada forma específica.

M: Então, deixa eu entender porque agora isso é novo pra mim. O Tantra não tem a ascendência, tem a ida e a volta…

P: Ele tem os dois, a ascendência e a descendência. Isso a gente denomina nas escolas de Shaktismo como Spanda Shakti, que é a pulsação cósmica, que é Shiva e Shakti juntos são um coração, o coração cósmicos pulsando. E essas pulsações são denominadas Spanda Shakti, são vibrações, ela sobem e descem. A gente está aqui descendendo, consciência desceu, então o yoga clássico entendeu que a gente precisava subir, só subir. Sai do corpo. Sai desse corpo! (Risos) Que é um obstáculo, que você pensa que te pertence, mas não tem pertence, então o yoga clássico segue esse pensamento, de transcender pela ascendência, dos Tattvas pra chegar em Purusha. Já o tantrismo entende que é importante fazer isso também, é importante, é central, mas a gente tem o descer também, a descendente, o incorporar, que é trazer para o corpo a consciência.

M: Sensacional isso, é muito bom…

P: Posso sugerir duas formas práticas de Tantra, muito simples, que na verdade são de incorporamento, mas são mentais de incorporamento…

M: É, eu ia perguntar como…a minha última pergunta ia ser como que seriam uma prática tradicional tântrica, Tantra e Yoga.

P: Eu vou colocar uma bem simples, relacionada a esta questão do incorporamento, para você obter não dualidade, que é a questão cerne do Tantra, a gente pratica para isso, né…?

M: Tá, então vamos lá! A gente falou de Tantra, a gente falou de Samkhya, a gente falo de Yoga. Como que seria o Tantra Yoga? Como seria uma prática de Tantra Yoga clássica, não confundir com o Yoga Clássico, mas a tradicional?

P: Então, a tradicional são várias escolas, que compartilham dessa questão de mexer com a energia, e tem muito trabalho mental, a mente é muito usada também. E aí, também a mente nas visões anteriores também é tida como obstáculo.

M: Não, mas o Raja Yoga, por exemplo?

P: Para o Raja Yoga, a mente é um desafio, é um macaco louco…

M: A ser dominada, né…

P: …a ser dominada, como controlar o macaco louco da mente, tem essas descrições que vem anteriormente ao Tantra, mas, na realidade, se você depois for ver até no Hatha Yoga Pradipika que é um texto já te Hatha Yoga, quando você vai no capítulo de pranayama tem lá “A mente é senhor dos sentidos, mas a inspiração é senhor da mente”. Então quando você começa a trabalhar dessa forma, e vamos abrir aí só porque é bem conciso, então a gente pode ficar…como é que é aí? “A mente é o que está gerenciando os sentidos e está sendo levada pelos sentidos”, então como é que você quer controlar a mente pela mente se você está sendo levado pelos sentidos, aí sim vira um macaco louco que é aquela coisa de “Eu quero meditar, mas eu não consigo meditar, mas eu quero meditar…” e não chega em lugar nenhum e não medita. Então, “A mente é a senhora dos sentidos, mas a respiração é senhor da mente” e eu pessoalmente prefiro sempre traduzir na minha mente “a respiração é SENHORA dos sentidos e da mente”, então trabalhar com a respiração é uma forma de você estar educando a sua mente, porque qualquer disfunção mental ou emocional que a gente tenha, nesse complexo mental/emocional, afeta como a gente respira, e aí quando a gente equilibra, traz algum pranayama que traz equilíbrio de respiração, de prana, de Shakti, de energia vital, a mente se equilibra também. Então a meditação é um estado, ela não é uma prática. A prática da natureza de Shiva que a gente chama meditação, na realidade você não faz nada, você só é. Mas para chegar nesse “só é” a mente tem que estar preparada, tem eu estar educada. E o pranayama é o primeiro passo para você fazer isso, então não precisa ser…

M: É uma prática tântrica trabalha muito com o pranayama.

P: Trabalha muito…é totalmente focada no pranayama. Não só no pranayama, mas o pranayama é central para você fazer esse processo de reeducação da mente e de reconhecimento do ser, de abrir a mente pra se reconhecer como ser. Daí eu queria sugerir para quem quer se aventurar nesse processo de se aprimorar, se aprofundar na meditação, de antes de meditar, sentar e fazer um pranayama, que seja do mais simples pranayama yogue, respiração completa. Faça uma contagem que seja proporcional, para inspirar, para expirar, pode adicionar a retenção, mas o mais importante é você criar um equilíbrio e uma qualidade que você tire transições abruptas da sua respiração. Então quando você vai lapidando a sua respiração você entra em meditação sem perceber.

M: Sim, é engraçado essa respiração, que você falou das mudanças abruptas, porque hoje em dia é o contrário, né? As pessoas fazem [inspira rápido e profundamente] como se isso fosse relaxar, né? Ou dar um suspiro, é bom, é gostoso também, você relaxa, deixa ir…

P: Catarse é importante também, mas a gente precisa…

M: …sim, mas a [inint. 50:07], o matra ali da respiração é o que vai induzir pra meditação e para acalmar.

P: Acho assim, que as pessoas estão precisando sim de catarse, porque pra quebrar um padrão num sentido, tem que se quebrar nos outros sentidos, no sentido contrário, mas depois a gente tem que ter um trabalho de reeducação para não ficar na dualidade. Senão fica de um extremo para o outro. E o pranayama faz isso, faz esse processo, essa transição para educar a mente, para entrar num estado de meditação. E quando eu falo a mente, eu até falo o complexo mente emocional, mas eles estão juntos, não tem como separar a mente do emocional, e isso é uma outra questão que as visões anteriores de yoga não tem muita descrição sobre isso, veem a emoção como um problema. Já dentro do Tantra a emoção na realidade não é um problema, e pode ser uma solução ao invés de se entender como um problema. A emoção, nessa visão não dual, tântrica, ela é apenas uma sinalização. Ela faz parte da mente como um mecanismo de sinalização. Então, você está se sentindo deprimido? É porque tem alguma coisa errada ali. O que que você está fazendo para se sentir deprimido, dentro do seu lifestyle.

M: Investiga, né?

P: Então o que as pessoas fazem hoje em dia, elas se identificam com a depressão, se afirmam deprimidos. Então, ao invés de se afirmar como Shiva, como Shakti, “eu sou deprimido”, e aí, vão ao médico e o médico diagnostica “você é deprimido, você está deprimido” patologicamente, tem que tomar medicação, e aí apaga esse mecanismo, pela medicação, que estava tentando te dizer algo pra você mudar na sua vida, mas porque tomou a pílula e calou a sinalização, você continua fazendo aquilo que causou…

M: E repetindo os mesmos padrões, né?

P: …a mesma coisa, e se perde. Então assim, o entendimento não dual das emoções você não quer reprimir nem a depressão, você quer entender…

M: Você acolhe pra…

P: Pra se entender, pra se estudar, pra evoluir, para aprender. Esta é uma atitude tântrica não dual perante as emoções, entendendo as emoções de uma forma não dual. Agora, do jeito que a gente vive hoje, do jeito que as coisas são, a gente está o tempo inteiro sendo levado pelas emoções de uma forma negativa, pela dualidade. Então, eu queria também sugerir uma outra prática que é bem simples, e que ajuda a gente a estar nessa não dualidade, então estar sempre quando você está interagindo, consigo mesmo na prática, com pessoas no seu dia-a-dia, no trabalho, com a família…quando você for s comunicar com alguém, trazer a sua atenção pra região da base posterior ao seu coração, então quando você vai falar alguma coisa, vai interagir, vibra dali, vibra daquele lugar. Porque quando você se conecta ali, você está se conectando com o teu eixo da devata, que é a sua identificação cósmica, que leva você à se reconhecer como uma entidade cósmica e ver o outro como entidade cósmica, o que alimenta no outro uma receptividade pra tal reconhecimento como consciência e desperta compaixão nas suas atitudes, na sua ação. Quando você está vibrando aqui, você não consegue não ter compaixão, quando você pratica dessa forma. Então, a prática é bem simples, mas é uma prática poderosíssima que vai te levar nessa atitude não dual do tantrismo, e que é uma necessidade que a gente tem hoje em dia, brutal, pelos problemas que a gente vive. A gente tem que vibrar mais no coração.

M: Que lindo, então isso do Tantra, só pra gente encerrar, o Tantra…finaliza com isso, de que é um estilo de vida que não é tântrico fazendo asana, você será tântrico ao se relacionar com o mundo, né? Ao ver o divino no outro, ao ver o divino em você, em cada ser, então você começa a ter compaixão por cada ser, uma formiguinha que passou, um outro animal…

P: É a conexão com a natureza…

M: É, essa conexão, o Tantra tem muita conexão com a natureza, né?

P: O Shaktismo vem dessa coisa da conexão com a Mãe Natureza e as várias formas que a Mãe Natureza se manifesta, as Devas, as Yoguines, as Dakinis…na realidade, são braços da natureza que se expressam como deusas, como formas femininas de entendimento da existência, mas nada mais é que a natureza em si mesmo, mas foi o entendimento daquela cultura, dessa forma de simbolizar o cosmo em natureza, codificar para que a gente pudesse se identificar, se reconhecer.

M: Muito legal. Então, Ohm Namah Shivaya!

P: Ohm Namah Shivaya!

M: Espero que tenham gostado, porque eu adorei essa prática.

P: Namastê!

M: Namastê!

 

 

 

 

 


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Daniel De Nardi>

Daniel De Nardi

Daniel é Professor de Yoga há mais de 20 anos. Pesquisador do Yoga e das raízes dessa Filosofia Milenar. É autor de diversos livros: "Aprenda a Meditar com o Yoga", "As Origens da Meditação e do Yoga", "Asana - Posturas do Yoga", "Como a Meditação funciona?", "O Yoga do Autoconhecimento", "Pra que Meditar?", dentre outros. Também é responsável por produzir a série de podcasts "Reflexões de um YogIN Contemporâneo" do YogIN Cast, o canal de podcasts de Yoga mais acessado do Brasil. Instagram: @reflexoesdeumyogin

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E há todo o resto de praticantes e aspirantes a Yogi que compartilham sua própria experiência. Neste grupo, há aqueles com grande bagagem e vivência prática, mas que também não são Gurus. São professores e, acima de tudo, estudantes. new RDStationForms(\'newsletter-yogin-formulario-1c3fb174b015350a9cd5-html\', \'UA-68279709-2\').createForm(); Os professores de Yoga passam o conhecimento sobre os estados mais elevados de consciência mesmo sem estarem estabelecidos nestes estados, compartilhando experiência própria e limitada. Esse conhecimento é passado a nível intelectual e através de técnicas que direcionam ao autoestudo. A figura do mestre ou professor, dentro deste caminho de Yoga, merece respeito, humildade e confiança do discípulo. E embora todos tenham sua devida importância na jornada do autoconhecimento, não podemos confundir os papéis de cada um deles. O esclarecimento da posição de cada professor ou mestre na linhagem é de extrema importância para a relação mestre-discípulo evitando expectativas irreais e decepções futuras. Muitos estudantes se encantam com o carisma de seus professores e freqüentemente entregam-se àqueles que não são iluminados. Esta confusão faz com que pessoas sigam professores acreditando serem gurus, merecedores de total entrega e devoção. É deste engano que surgem todos os escândalos relacionados à “gurus famosos”.  Um professor é um ser em auto estudo e passível ao erro, uma pessoa como você, que pode acabar encontrando-se identificado à uma emoção. Estes relacionamentos onde o ego toma o controle por diversos momentos, podem não ser fáceis. “Confiança é uma escolha. Muitos estudantes chegam a um lugar desconfortável em seu relacionamento com o professor e partem… vão em busca da resposta que querem mas perdem a lição que precisam.”  – David Garrigues Um verdadeiro mestre não precisa ser carismático e não se ajusta às necessidades do seu ego. E não é atoa que “gurus famosos” está entre aspas no parágrafo acima. Um verdadeiro guru não está sob os holofotes e nem mesmo se auto declara como um guru. Guru, mestre ou professor, todos que são comprometidos com a verdade ensinam com objetivo de tornar o discípulo independente e não buscam seguidores. O objetivo final é tornar o aluno consciente e desperto o suficiente para que faça suas próprias escolhas. Ele reconhece que é meramente um instrumento da verdade e entende que todos merecem o mesmo estatuto e respeito. Ninguém, nem um mestre iluminado, merece tratamento superior. A dependência não deve ser reforçada. 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