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Como Shiva se tornou o patrono do Yoga? Podcast #41

Como Shiva se tornou o patrono do Yoga? Podcast #41

Nesse podcast faremos um passeio pelas história e mitologia da Índia para entender como Shiva se tornou o ícone dos yogins. Shiva é uma figura mitológica, de um sadhu retirante, que vive em constante estado expandido de consciência meditando nas cavernas dos Himalayas, ouça o podcast para entender como a figura de Shiva foi construída.

 

 

Links

 

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Dinastia Gupta

 

 

Perfil no Spotfy Jonh Willians

 

 

 

Trilha sonora da série Reflexões de um YogIN Contemporâneo 

 

 

 

Transcrição

 

Como Shiva Tornou-se o Patrono do Yoga? – Podcast #41

Agora você está ouvindo John Williams, compositor da trilha sonora de “E.T.”.

Como Shiva se tornou o patrono do yoga? Essa não é um pergunta tão fácil como parece, para respondê-la vou ter que dar uma volta na história indiana, e quem não acompanhou outros episódios sobre história, recomendo que veja, por exemplo, “O Início do Yoga” que é o episódio 15, se eu não me engano, e “A História do Yoga no Ocidente”, que é o episódio 13. Vou deixar os links aqui, mas vou tentar responder esta pergunta, para isso, vou precisar fazer um retorno às origens do yoga.

Nas origens do yoga, nos primeiros textos que começam a mencionar o yoga como um processo de busca e um processo meditativo, o yoga está relacionado a Brahma que é a figura criadora, o que já existia antes do mundo ter se manifestado. Esta é a visão que o hinduísmo tem, ele acredita que esta é a essência de todo o ser humano, o que está por trás. E não efetivamente aquilo que a gente manifesta ou percebe.

Brahma vem de Brah, que significa crescimento, inchaço. Os brâmanes, que foram os primeiros escritores dos vedas e a casta que dominava os escritos das antigas escrituras e dos rituais eram, no início, pastores. Então, era através do pastoreio que os pais ensinavam os filhos sobre os rituais e sobre os textos. Os brâmanes sempre tiveram ligados a engorda do gado, do rebanho. O termo Brahma, vem de brâmane que é a engorda do gado, que é um inchaço, um aumento. E o que isso tem a ver na busca do yoga? O aumento da percepção do que se vê, então Brahma seria a consciência por trás da observação, e o crescimento disso seria efetivamente a busca do yoga e o caminho para a libertação.

A palavra Shiv significa amanhã, o que está para acontecer, o que será maior do que hoje.  Que tem uma relação com esse processo de crescimento e de engorda da palavra Brah, que dá origem a palavra Brahma. Então, você vê que o próprio significado das palavras já está relacionado. Shiva, já falei em alguns episódios, pode ser traduzido como benigno. Esta esperança pelo amanhã é algo otimista, é algo do bem, algo que a gente espera um crescimento, uma melhoria. Shiva é este aspecto, é o benigno, é aquilo que é bom.

A primeira Upanishad que cita Shiva como um aspecto alheio, como um personagem à parte é a Sweswassathara Upanishad, ela cita Shiva como sendo Rudra, um aspecto de Brahma. Na concepção filosófica, Brahma é o conceito da observação, e entra nos textos como quem cria. Assim como na cultura ocidental em que Deus quer punir aqueles que não seguem um caminho acontece também nos textos védicos. Existia também aspectos de Brahma, que era Rudra, raivoso. Shiva deriva de Rudra, então, Brahma é Rudra e Rudra é Shiva.

O aspecto raivoso é sempre relacionado a rochas, a fogo, ligada sempre a força e ao vigor da natureza, muitas vezes, de certa forma, prejudicando o ser humano. Shiva seria o benigno porque dentro de nós, essa percepção por trás, que observa o mundo quando é maior, ela se torna benigna, então Shiva dentro de si é benigno, Shiva fora ou Rudra é prejudicial. Isto está relacionado ao controle dos sentidos. Então, aquilo que está fora vai te afetar, quando traz pra dentro se está no caminho da observação do mundo manifestado. Se está no caminho de Brahma ou de Shiva, nesse aspecto se torna uma coisa só. Nesse momento Shiva se torna o patrono do yoga, nessa visão de que no fundo, ele era a mesma coisa que Brahma, que é essa observação da manifestação que todos possuem dentro de si, que se faz crescer a observação cada vez mais e se distanciar deste mundo manifestado, da parte ruim de Shiva, da parte externa, e aí você vai se aproximando da sua essência.

Mas se efetivamente é a mesma coisa, porque o nome foi mudado? O movimento tântrico que eu mencionei há dois episódios, é um movimento que trouxe a cultura para a população, mas não só a questão de democratizar a cultura. Por exemplo, você a Reforma Protestante, dentro da Igreja Católica, havia um texto escrito em latim acessível apenas para os padres que estudavam aquela língua. Lutero traduz para o alemão, então ele dá acesso à população de ler e fazer sua própria interpretação do texto. Isto já foi revolucionário. No caso do movimento tântrico, que começa da dinastia rupta, a partir do século III d.C., esse movimento não levou apenas a cultura numa língua que o povo poderia acessar, mas o próprio povo pôde produzir algo.

O movimento do Tantra é bem semelhante com o movimento da internet. Antes da internet, para se produzir algo, era necessário escrever um livro ou ser um articulista num jornal. O que era bem difícil e poucas pessoas conseguiam. A internet possibilitou que todos pudessem produzir conteúdo, esse podcast é uma prova disso, antes da internet ele seria impossível de ser realizado, levando em consideração o assunto que nem todos se interessam, apenas um grupo específico e especial de pessoas, talvez não tivesse tanta atenção na grande mídia, mas é um assunto que eu, particularmente, gostaria de ter mais acesso.

O Tantra possibilitou que um cidadão comum, porque antes isso era proibido pelas castas e pelos costumes, fosse reconhecido como um sábio e escrevesse textos que valorizasse a sua visão da sua escola. As escolas tântricas cresceram muito durante este período dos Nathas porque eles apoiavam muito essa disseminação da cultura para o povo. O movimento Natha, por ser fortalecer dentro do Tantra, é um movimento contrário aos brâmanes porque eles, os brâmanes, começaram a acumular muito poder e quando uma pessoa acumula muito poder nas mãos acaba prejudicando outras pessoas. Então houve uma revolta com o sistema de castas que privilegiava os brâmanes, e começou a se produzir os textos sagrados pelos sábios tântricos. Os tântricos não queriam ter a imagem vinculada aos brâmanes, então eles fizeram uma mudança de nomenclatura para chamar essa percepção da manifestação de Shiva e não mais de Brahma. Então, a partir desse momento, Shiva começa a ser esta imagem, surge textos como os Puranas que são textos que contavam a história sobre Shiva. Shiva que era um conceito ligado a Brahma começa a ganhar aspectos físicos fazendo com que esse conceito fosse levado para as pessoas, o conceito da observação crescer dentro do observado. Essa mensagem de Shiva é a mensagem do yoga.

Quando a gente senta para meditar, até mesmo quando a gente trabalha com um único pensamento, o intuito é que a gente pare de se identificar diretamente com o pensamento e comece a se afastar, não somente pela ótica do pensamento, mas pela ótica do observador. Que por trás, o primordial, seria Brahma e num outro momento histórico, como a gente entende agora, seria Shiva. Então esse crescimento dessa consciência que observa seria o crescimento de Shiva, o crescimento benigno dentro de nós.

Esta foi a explicação de como Shiva se tronou o patrono do yoga.

A música que vamos ouvir hoje é a trilha do filme “E.T.”. Quem compôs essa música, como disse no início, é o John Williams, que pra mim é um dos maiores compositores da era moderna porque a partir de um determinado momento a composição da música instrumental se voltou totalmente para o cinema, seja numa forma minimalista, como Phillip Glass, como de uma forma mais elaborada como é o caso do John Williams e outros compositores de trilha sonora. Williams faz essa música muito melodiosa e que marca muito, muitos conhecem a música dele, mas provavelmente não sabem que ele é. Isto, porque ele produziu trilha de diversos filmes dirigidos elo Steven Spielberg, ele tem um trabalho riquíssimo. Vou deixar no Spotify uma playlist com as músicas dele, todas a gente conhece.

O meu conselho para quem for a um concerto pela primeira vez é que vá para ouvir uma música mais amistosa, não Mahler, por exemplo, que segue uma linha mais sofisticada e difícil. Músicas que você já conhece como trilhas de filmes ou versões de músicas brasileiras são mais agradáveis para ir se acostumando a este tipo de música, depois você vai buscando músicas mais elaboradas. A segunda opção, é buscar nomes como Mozart, Haagen, músicas mais agradáveis, caso não encontre, busque no Spotify procure músicas de concerto e vai ouvindo para identificar as partes da música que te agrada e aquelas que não. Geralmente as pessoas falam que não gostam de música clássica, mas sequer foram a um concerto ou conheciam a música. É impossível ir a um show, independente do gênero, e se apaixonar na primeira vez. O gosto pela música vem pelo hábito de ouvi-la, o gosto não surge do nada, é muito difícil de acontecer, é até mais fácil com músicas mais simples como hits, música pop, que não exige tanta elaboração. A música clássica exige um certo treinamento, mas, como eu disse em episódio passados, quando você marca e fica presente, você começa a gostar, naturalmente começa a gostar, quando não é mais estranho para os ouvidos. A minha sugestão é que se ouça mais, aqui no podcast tem a trilha sonora, tem muita música boa, músicas clássicas conhecidas. Se você quer ouvir a este tipo de música, treine mais os ouvidos para ampliar os gostos musicais.

Uma analogia que pode ser feita em relação ao filme “E.T.” e a essa ideia de Shiva que é algo que se busca e que se está dentro de nós, é que no filme quando o ET surge vindo de fora acaba representando para aquele menino um conceito de perfeição, algo que vem externamente demonstrar aquela perfeição, ele demostra uma lealdade a amizede, um cuidado com as pessoas. A imagem de Shiva desenvolvida nos textos dos Puranas, querem mostrar que, apesar de Shiva ter a representação dessa observação da consciência, Shiva é perfeito em si mesmo e ele está dentro de cada um, então a ideia do Tantra é essa perfeição que está dentro de nós. No filme, o ET era algo externo, mas representava o que estava dentro do ser humano também, o memo acontece com a imagem de Shiva, ela é a perfeição que está dentro de cada um. Como Brahma nessa primeira pulsão de consciência é perfeita por ela mesma e ela é a nossa verdadeira essência, o Tantra parte do pressuposto de que já somos perfeitos em essência, o trabalho é a descoberta dessa perfeição que está dentro de nós. Isso acontece muito no filme e é só uma figura, o ET é uma figura que nos lembra o que é humano e que a gente pode efetivamente produzir realizar e ser. Fiquem aí com John Williams e a trilha sonora de “E.T.”.

 

Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.