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E-Motion é o novo What bleep do we know?

Quem não acompanha documentários relacionados a desenvolvimento pessoal pode não entender o título deste post, mas vamos lá.

O primeiro blockbuster a tratar de habilidades humanas “não reconhecidas pela ciência” foi um documentário de 2006 chamado –  O Segredo. A boa produção apresentando assuntos como mentalização e gratidão, vendeu milhões de DVDs e até hoje, livros da série permanecem no topo de listas dos mais vendidos.

Acredito que tudo que venda bem, de alguma forma está ajudando as pessoas. Afinal, ninguém compra um livro por obrigação. Seu sucesso não é fruto do acaso, O Segredo tem muitos pontos interessantes, mas também algumas lacunas.

o_segredo

Leio sobre mentalização desde que comecei o Yoga.

Já fiz experiências que comprovaram o poder desta técnica (se quiser reproduzir, pegue dois copos, mesma quantidade de algodão e 5 grãos de feijão em cada, num escreva cresça e mentalize ele crescendo todos os dias, no outro não faça nada). Tenho dezenas de fotos dos meus alunos com os feijões do copo de cresça enormes e os outros ainda sementes.

Só que a mentalização apenas não muda o rumo da vida de ninguém. Pra algo de fato acontecer também é preciso Ação. Modificações internas, crescimento e aprendizados. O filme fala muito de mentalização e pouco de transformação interna e sem isso nada muda.

Posso mentalizar durante uma década 8 horas por dia que vou ganhar uma partida de tênis do Roger Federer, mas se eu não jogar muito, não aprender a modificar meu entendimento tanto físico quanto mental do jogo, minha chance de ganhar um único game é praticamente zero.

Em seguida, o sucesso foi de Quem Somos Nós? (What bleep do we know?), apesar do documentário ser anterior (2004), só ficou conhecido no Brasil depois do sucesso de O Segredo.

Quem Somos Nós? apresenta relações entre física quântica e ensinamentos ancestrais. Uma das teorias é a de que a cada milionésimo de segundo, podemos decidir como faremos a leitura de tudo o que acontece conosco e inclusive modificar a realidade material em torno de nós. 

A física quântica é uma ciência recente e subjetiva. É cheia de contradições e polêmicas. Albert Einstein por exemplo, se interessou muito por ela no início das pesquisas quânticas, mas depois negou seu valor até o final de vida. Dizendo que era um equívoco.quem somos nós

Amit Go Swami, é um dos cientista deste documentário. PhD em Física Quântica pela Universidade de Calcutá, Índia, ex-professor da Universidade de Oregon nos EUA, foi banido do meio acadêmico por suas colocações filosóficas especialmente a respeito do papel da consciência no mundo físico. Suas pesquisas de laboratório tentam deixar cada vez mais evidente, algo que a antiga filosofia naturalista de seu país chamada Sámkhya já havia descoberto por empirismo há pelo menos 4000 anos. A consciência que cada um possui dentro de si, e que o Yoga chama de Purusha é o que permite as manifestações materiais se realizarem.

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Amit Go Swami, escritor de diversos livros sobre física quântica e filosofia.

A ciência ainda não conseguiu tirar conclusões precisas a respeito da consciência. É um tema difícil de ser mensurado e por isso contradiz os princípios da ciência atual. E quem se aventura por esse caminho, pode acabar como Amit, excluido do meio científico.

 

“A voz da consciência é tão delicada que é fácil ignorá-la. Mas também é tão clara que se torna impossível iludi-la”.  Madame de Stael 

 

Apesar de ser extremamente elaborada, a teoria quântica também tem suas lacunas. 

Segundo sua ideologia apresentado no filme, estamos o tempo todo, escolhendo, de forma consciente ou não, qual a estrutura do mundo se apresentará para nós. A luz pode ser tanto partícula (fóton) quanto uma onda, dependendo apenas de como decidimos vê-la. Caso a coloquemos em uma câmara de condensação a luz se torna matéria (fóton) e quando acendemos a lâmpada do quarto ela é onda. O que será a luz? Depende apenas da sua decisão.

Acabamos vendo o mundo sempre da mesma forma pois somos ensinados a ver as coisas dentro de padrões. Não conseguimos mentalmente conceber que o sólido pode instantaneamente se tornar líquido, e que isso dependa apenas de uma reorganização da matéria diretamente relacionada com a consciência. Neste contexto, nosso livre-arbítrio seria pleno. O que impede isso segundo a teoria de Quem Somos Nós? é que desde que nascemos, somos condicionados a entender o sólido como sólido e o líquido como líquido. Vemos o mundo de forma previsível, é bem mais seguro e nos poupa de ter que decidir a todo momento.

Os problemas da teoria quântica começam a aparecer em casos cotidianos como uma simples parada num sinal de trânsito.

Se tenho livre-arbítrio pleno, posso decidir sobre a matéria que me rodeia e escolher que o sinal vermelho, se torne verde em determinado momento, mas como a matéria a minha frente irá se comportar se outra pessoa decidir que o sinal deve ficar vermelho?

  

e-motio2.0

 

Esses dias, a Liana Linhares me apresentou E-Motion, quem tem tudo para ser o blockbuster da vez do nosso meio. Psicólogos, PhDs, nutricionista e outros profissionais discutem a interferência que o inconsciente, com seus comportamentos condicionados e traumas, produz no corpo e como isso está diretamente ligado à nossa saúde e bem-estar.

Gostei bastante da narrativa, especialmente por explicarem de forma mais científica diversos conceitos do Sámkhya Yoga e Hatha Yoga. Tal como a vibração das emoções influenciando o corpo físico

 

 

E-motion trata da importância de reconhecermos nossos condicionamentos para sermos mais livres nas escolhas. O Yoga desde sua origem tratou o tema da liberdade como seu foco principal e percebeu que para isso é imprescindível a observação atenta à questão dos condicionamentos.

“A Índia aplicou-se com rigor inigualável à análise dos diversos condicionamentos do ser humano. Apressemo-nos a acrescentar que ela o fez, não para chegar  a uma explicação precisa e coerente do homem (como, por exemplo, na Europa do século XIX, quando se acreditava possível explicar o homem através do seu condicionamentos hereditário ou social), mas para saber até onde se estendiam as zonas condicionadas do ser humano e ver se existe algo além desses condicionamento hereditário ou social), mas para saber até onde se estendiam as zonas condicionadas do ser humano e ver se existe algo além desses condicionamentos. É por esta razão que, bem antes da psicologia profunda, os sábios e ascetas indianos foram levados a explorar zonas obscuras do inconsciente. Eles haviam constatado que os condicionamentos fisiológicos, sociais, culturais, religiosos, eram relativamente fáceis de serem delimitados, e, em consequência, controlados; os grandes obstáculos para a vida ascéticas,  e contemplativa surgiam da atividade do insconsciente, dos samskáras e dos vásanas, impressões ou resíduos, latências que constituem aquilo que a psicologia profunda designa como conteúdo e estrutura do insconsciente. Por outro lado, não é esta antecipação pragmática de certas técnicas psicológicas modernas que é valiosa, mas sua utilização para o “descondicionamento” do homem. Pois, para a Índia o conhecimento dos sistemas de “condicionamento” não podia ter seu fim nele mesmo; o importante não era conhecê-los, mas dominá-los, trabalhava-se sobre os conteúdos do inconsciente para “queimá-los”.”

Mircea Eliade, Yoga Imortalidade e Liberdade.

 

Os YogINs do período da Renascença Indiana (século VII D. C.) trocaram muita informação com budistas, jainistas e médicos ayurvêdicos e começaram a entender que poderiam usar o corpo para o trabalho de “descondicionamento” de comportamentos. Tudo o que sentimos e o que pensamos de alguma forma é absorvido pelo corpo, logo o corpo é uma ferramenta de aprendizado de informações do nosso insconsciente. O Yoga explora essa ferramenta ao máximo a partir do Hatha Yoga, especialmente com as posturas (asanas) e respiratórios (pranayama).

O Kulārnava Tantra (I:18) deixa isso bem claro:

Sem o corpo, como realizar o [supremo] objetivo humano?
Portanto, depois de adquirir uma morada corpórea,
o ser deve realizar ações meritórias (puṇya)
.

E a Śiva Saṁhitā (II:1-5) reafirma a mesma ideia:

Neste corpo, o monte Meru [a coluna vertebral] está rodeado
por sete ilhas: há rios, mares, campos e senhores dos campos.
Há ṛṣis e sábios, e nele estão todas as estrelas e planetas.
Há peregrinações sagradas, templos e deidades nos templos.
O sol e a lua, agentes da criação e da destruição, movem-se nele.
O espaço, o ar, o fogo, a água e a terra também se encontram aqui.
Todos os seres que existem no mundo estão igualmente no corpo.
Rodeando o monte Meru, fazem suas tarefas.
Aquele que sabe disto é um yogi. Não há dúvida sobre isto.

Os YogINs entenderam que o corpo é um mapa muito preciso do que acontece em nosso psiquismo. Atentar aos sinais do corpo é uma forma brilhante de entender a si mesmo. Quando tomamos decisões contrárias ao que sabemos ser certo, o corpo vai apresentando sinais e se esse tipo de decisão persiste, pode-se gerar doenças graves.

O filme mostra um exemplo de um rapaz que passa por uma situação de stress e começa a ter sintomas como dor de cabeça. Ao invés de perceber aquele sinal do corpo e tentar entender o que está acontecendo com suas emoções, ele toma a atitude mais fácil de tomar um comprimido para dor de cabeça. O comprimido, inibe os sinais neurais que o sistema nervoso central estava enviando. Ele corta o sinal do corpo e assim que a dor passar, provavelmente vai repetir o comportamento maléfico.

A prática do Yoga é o momento em que você para pra observar essas incoerências comportamentais que temos no dia a dia e que de alguma forma, são absorvidas pelo corpo. A dor nunca é à toa, ela tem uma causa que pode ser um hábito errado, uma emoção pesada ou um pensamento destrutivo. Não podemos ignorar isso, a dor é um sinal preciosíssimo para nosso bem-estar, é um aviso que algo está em desequilíbrio e precisa ser revisto. Temos a sorte de que isso tem sido comprovado pela ciência e psicologias modernas que estão usando técnicas YogINs como respiratórios e meditação para melhorar as relações corpo/mente. Realmente, parar pra se observar e sentir-se melhor, ajustando comportamentos para uma vida mais equilibrada é uma oportunidade que o Yoga nos dá todos os dias quando sentamos no mat.

Boas práticas!

 

 

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Daniel De Nardi

Head de conteúdo do YogIN App. Autor de 6 livros sobre Yoga. Pesquisador da História do Pensamento Indiano.