Brand

A fé e o desapego

Eu tenho uma natureza avessa à fanatismos e proibições. Apesar de ser devota de Nossa Senhora, a tão proclamada fé cega do cristianismo nunca daria certo em uma criança curiosa, que tinha tantas perguntas e não aceitava um “é o mistério da fé” como resposta. Por sorte, minha mãe, que é religiosa e detentora dessa fé, sempre permitiu que eu questionasse e buscasse sanar minhas dúvidas; também permitiu que, aos 15 anos no auge da minha rebeldia contra os dogmas da Igreja, não fizesse a Crisma.

Foi nessa idade que conheci o Yoga, que teve um papel muito importante na minha formação, no meu autoconhecimento e visão de mundo. Porém, na maioria das filosofias orientais, há uma relação de hierarquia Mestre-discípulo também inquestionável e, em algumas linhagens de apenas obediência; o que no começo eu aceitei muito bem e até foi ótimo contra minha rebeldia adolescente. Entretanto, em um curso de formação que fiz, havia uma “bibliografia não autorizada” para instrutores, que se referiam a livros de outras linhas de Yoga, que somado a essa coisa de “não questionar” se assemelhava muito ao que eu tanto repudiava na religião.

Na minha opinião, o respeito e admiração ao Mestre não combinam com idolatria e proibições literárias. Quando você tem uma identificação com algo, até deixa naturalmente de ler e pesquisar coisas muito diferentes daquilo que está alinhado com seu ponto de vista. Como graduada em economia, cito o exemplo de uma escola de Economia que tenha uma tendência liberal colocar como bibliografia apócrifa livros marxistas. Isso seria uma tremenda ignorância e diminuiria muito a cultura geral e pensamento crítico do estudante. Para você concordar ou discordar de algo tem que conhecer ambos os pontos de vista.

Eu tenho uma visão desrepressora das coisas e acho que qualquer coisa que agrida sua liberdade não é saudável. Aí entra a questão do desapego. Gosto muito dessa filosofia do desapego, mas talvez a interprete à minha maneira, assim como o conceito de Fé.

No mundo moderno, não acho que seja necessário virar hippie, deixar a vaidade saudável (estar cheirosa, passar cremes, cuidar da aparência) ou abrir mão de coisas materiais para praticar o desapego.

Como muitas mulheres, eu gosto de bolsas e sapatos. Ter uma boa bolsa não é incoerente com minha filosofia de vida. O problema não é possuir mas ser possuído. Eu sei que minha felicidade não depende disso, que ela está dentro de mim e não em coisas materiais. Do ponto de vista ecológico, considero até mais consciente ter uma boa bolsa que durará anos do que ter várias de qualidade inferior. O problema está no consumismo, de fazer do ato de comprar e de se mostrar com seus bens materiais a sua felicidade. E isso provavelmente irá gerar sofrimento quando você não conseguir comprar algo, ou uma mais cara, mas desejar e invejar quem tenha, isso é o apego e chave para infelicidade.

Também acho que no mundo atual, estabilidade e desapego devem cohabitar. Ter uma vida estável, inclusive do ponto de vista financeiro, permite que você se dedique mais ao autoconhecimento e evolução pessoal.

A não ser que você realmente largue tudo e decida viver de luz, é muito difícil meditar e dedicar tempo a si próprio quando se está sempre  preocupado com contas à pagar, garantir o pão de amanhã e as mazelas do trivial diário. Além disso, o desapego não deve lhe causar desconforto e sim paz interior.

Patanjali, grande Mestre de Yoga, em seu livro Yoga Sutra, escreveu: “Quando se observa a nao possessividade, compreende-se o sentido da vida”.

Essa é a essência do desapego que deixa a vida mais leve.

Desapego não deve estimular o relaxamento, é uma auto-entrega às circunstâncias, mas sem ser passivo à vida e deixá-la passar com a desculpa do desapego.

Desapego é ser fiel aos compromissos estabelecidos com seu cônjuge, mas não ter espaço para dominação. É não achar que um completa o outro mas que se somam. É sentir que seu parceiro compartilha a sua felicidade, mas que a sua felicidade não depende do outro, está em você.

Em síntese, para mim, o desapego é uma aceitação de si. Mas reitero: sem a desculpa de não melhorar e evoluir porque você “simplesmente é assim”. Você pode e deve reconhecer seus defeitos e tentar mudar e se aperfeiçoar. A aceitação de si é uma satisfação com o que você tem e é, sem deixar que pessoas e situações mudem ou pertubem seu interior. É um fazer as coisas por prazer, sem apego ao resultado. É um laisses-faire consciente, é dar liberdade às pessoas que ama e isso libertará você. É uma sabedoria e acima de tudo, uma escolha. O desapego é uma ação e não um acomodamento.

Comece agora a praticar esse hábito, deixando de se achar dono de pessoas e coisas. Única coisa que pertence a você são suas escolhas, pratique a fé na vida e na entrega.

 

Mayara Beckhauser

May é professora de yoga desde 2004. Economista, fala pelos cotovelos, é chorona, adora gatos, livros, comida vegana, generosidade, a insônia inspiradora que lua cheia lhe dá, escrever e incentivar pessoas a viverem de forma mais livre. Instagram: @yogalifestylebr

  • Avatar

    Erica - 9 out 2015

    Tudo que eu Precisava ler Para compreender melhor o dia de hoje!!! Gratidão sem fim????????????

    • Professora Mayara Amaral

      Professora Mayara Amaral - 12 out 2015

      Que bom Erica, volte sempre. ????????

  • Avatar

    Emanuelle - 15 out 2015

    Vamos praticar o desapego. Adorei o texto. Vou dormir com uma sensação de leveza. BeijOm ????

    • Avatar

      Professor Márcio Rossetti - 28 out 2015

      Texto inspirador mesmo!! Abraço. Om namah Shivaya!

  • Avatar

    evelyn - 18 out 2015

    Amei todos seus artigos, super inspiradores. Continue...

    • Avatar

      Professor Márcio Rossetti - 28 out 2015

      A May é ótima mesmo! Abraço. Om namah Shivaya!

  • Avatar

    Adriana - 27 out 2015

    tudo a ver com a fase em que me encontro...e o melhor é essa ajuda May, que você esta me proporcionando a me encontrar de verdade! gratidão ! amando o site..

    • Avatar

      Professor Márcio Rossetti - 28 out 2015

      Obrigado por acompanhar nosso trabalho, Adriana! Aproveite ao máximo. Abraço. Om namah Shivaya!